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Quem Me Ama, Me Segue é ótimo para te fazer rir e refletir sobre relacionamentos
CINÉFILOS
06 fev 2020 | Por Caio Santana (caiosantanard@gmail.com)

Ao pensar em filmes franceses, certamente nos vem à mente, uma construção já bucólica e romântica com paisagens igualmente apaixonantes. Quem Me Ama, Me Segue (Qui m’aime me suive!, 2019), sem dúvida alguma, nos traz isso realisticamente com sua comédia-drama. O longa conta a história de Gilbert (Daniel Auteuil) e Simone (Catherine Frot), um casal de aposentados que vive uma rotina agitada numa aldeia no sul da França. 

Vivendo em um relacionamento de 35 anos, o desgaste emocional e a não mudança de perspectivas de ambos cria uma lacuna entre o casal, que está tão abalado, ao ponto de Simone trair Gilbert com seu vizinho e melhor amigo, Étienne (Bernard Le Coq).

Étienne, por sua vez, após passar por problemas no coração, decide continuar sua vida de solteiro mais próximo da sua filha, indo embora da vida do casal. Simone sente falta do amante. Por muitos anos ela ajudou o marido na sua oficina mecânica, recebendo clientes, fazendo notas e fechando contas. Contudo, nunca conseguiu sua independência financeira devido ao “compromisso com o marido” e a não possibilidade de rendimento de dois salários na oficina, justificativa de Gilbert, quando fiscais chegam na casa do casal para cobrar dívidas. 

Se mostrando um marido extremamente chato e rabugento, Gilbert não cansa de chamar “Simone!” aos montes em diversas cenas. A repetição, por vezes, pode gerar algumas gargalhadas, como quando ele deixa cair diversas tábuas de madeira sobre ele e clama pela esposa. 

Cansada, a bela senhora decide abandonar a casa e o marido, após anos de dedicação e não realizações de sonhos próprios, assim, indo atrás de Étienne. Em meio a isso, a filha do casal, Nathalie (Vanessa Paric), que não fala com o pai desde que saiu de casa por um episódio de racismo contra seu, então, marido, avisa que seu filho está a caminho dos cuidados de Simone, que a essa altura já está bem longe da cidade. 

Terence (Solam Dejean-Lacréole), neto de Gilbert, chega para seu desespero, e ele não sabe como agir sozinho, já que sua mulher era a verdadeira “faz tudo” da casa. Percebendo que ela já não volta mais, ele parte desnorteado junto com o neto em uma jornada em que está disposto a qualquer coisa para trazer seu grande amor de volta a sua casa. Na trajetória, avô e neto não tem uma ligação amigável, talvez pelas histórias que Nathalie contou-o. 

Terence dorme no ombro do avô, Gilbert [Crédito: Apollo Films]

Por alguns momentos você pode se sentir perdido no meio da trama, muito provavelmente pelo fato de que o diretor, José Alcala, solta informações novas de tempos em tempos. Os conflitos de Gilbert e Terence são cerceados, com Gilbert demonstrando preocupação com a filha que, por orgulho, ele já não falava há anos. Até que ele descobre uma situação que o deixa preocupado, motivando-o ainda mais a falar com sua esposa. 

Com muitas quebras de expectativas, Gilbert já imaginava que Simone estava com Étienne, que posteriormente também se vê abandonado. Com Terence, os dois amigos trilham juntos o caminho para a (re)conquista da grande paixão de ambos. São quando os dois contracenam juntos que acontecem as melhores cenas de comédia, evidenciada pelos conflitos físicos ou verbais, como quando Étienne é consolado por Simone e Gilbert finge que cai da escada para ter atenção da amada, que o abraça e ele dá um sorriso sacana para Étienne. 

Desabafos acontecem na reta final do longa e linhas e entendimentos necessários são feitos. O grande trabalho dos três protagonistas faz esse filme de estrada ainda mais gostoso de se assistir. É válido lembrar que tanto Daniel, Catherine, Bernard e o diretor possuem longa carreira em atuação e direção de películas francesas, sendo verdadeiros veteranos.

A excelente atuação de Daniel Auteuil e Catherine Frot torna os diálogos ainda mais maduros, interessantes e necessários para ajustar falhas de um relacionamento [Crédito: Apollo Films]

Daniel Auteuil carrega inclusive um BAFTA (British Academy Film Awards), Oscar britânico, de melhor ator coadjuvante por Jean de Florette (1986); um prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por O Oitavo Dia (Le Huitième Jour, 1996); mais doze indicações e duas vitórias no César Awards, principal premiação do cinema francês. Catherine Frot também possui diversas indicações ao César e duas vitórias, sendo a mais recente em 2016 como melhor atriz, em Marguerite (2015). Bernard Le Coq ganhou um César de melhor ator coadjuvante por Lembrar de coisas bonitas (Se souvenir des belles choses, 2002).

O destaque dos atores na cena francesa traz um diferencial para o filme, mesmo que ele esteja sendo lançado no Brasil após dois anos de produzido e um ano de exibição na França (em março de 2019). Contudo, as risadas descontraídas e a forma como ele nos permite pensar relacionamentos compensa esse “atraso”, trazendo uma ligação com a vida real de forma adequada e fiel. 

Muitos pontos podem ser amarrados com análises mais aprofundadas quando se sai da sala de cinema. Simone queria sua liberdade após 35 anos de casada. Gilbert precisou se reconciliar com a filha e o papel do neto, também negro, foi fundamental para que ele criasse um vínculo novamente com Nathalie. Étienne, mesmo após trair o melhor amigo, necessitou se juntar a ele, apesar de ambos terem o mesmo objetivo: voltar novamente com Simone. O final é maravilhoso.

Quem Me Ama, Me Segue merece seu devido prestígio nas telas do cinema brasileiro. O filme teve pré-estreia no dia 4 de fevereiro e estreia nesta quinta-feira, dia 6. Confira o trailer oficial distribuído pela A2 Filmes

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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