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Festival Varilux 2019: Quem Você Pensa Que Sou traz uma reflexão sobre juventude e abandono
CINÉFILOS
16 jun 2019 | Por Maria Luísa Bassan (malugomesdesa@hotmail.com)

“Viver outra vida? Eu queria viver a minha! Finalmente!”. Essa é a justificativa que Claire (Juliette Binoche) dá quando sua terapeuta pergunta sobre o perfil falso que criou no Facebook. O que parecia ser inicialmente mais um catfishing — fenômeno virtual que consiste na criação de um perfil falso com o objetivo de enganar uma pessoa, seja por meio de uma amizade ou relacionamento amoroso — evoluiu para uma dimensão de dependência e obsessão, que incita o espectador a mergulhar na vida de Claire e entender o que se passa em seu coração e cabeça.

Em Quem Você Pensa Que Sou (Celle que Vous Croyez, 2018), a personagem de Juliette Binoche é mostrada inicialmente como uma mulher que enfrenta a crise da meia-idade. Depois de ser dispensada pelo marido, que passou a se relacionar com uma mulher muito mais jovem que ele, Claire divide sua vida entre o emprego como professora, a maternidade e o pseudo relacionamento com Ludo (Guillaume Gouix), homem descompromissado que usa a diferença de idade como justificativa para não levar o relacionamento adiante. Na rotina atarefada, Claire também encaixa suas consultas com a terapeuta Dra. Catherine Bormans (Nicole Garcia), substituta de seu antigo psicólogo.

A narrativa  é construída intercalando a vida de Claire com suas reflexões na terapia. No primeiro momento, a professora aparenta estar insegura quanto a compartilhar sua vida com a nova terapeuta, mas aos poucos, abre-se para as consultas, como se estivesse se abrindo para o público que a assiste também. O assunto abordado na primeira sessão é seu relacionamento com Ludo.

Ele é apresentado como um cara que não vê motivos além da atração física para manter a relação. Claire sente a falta de interesse e tenta confrontá-lo por telefone, sendo atendida por Alex (François Civil), colega de apartamento de Ludo. A conversa não é nada satisfatória: Alex não passa nenhuma informação e Ludo, cuja voz é facilmente reconhecida do outro lado da linha, parece não se importar em deixá-la esperando. Claire percebe, então, que a abordagem deveria ser outra, e decide criar um perfil falso no Facebook com o objetivo de chegar a Ludo através de seus amigos. Na internet, Claire agora é Clara Antunès, uma jovem linda de 25 anos que rapidamente constrói sua rede de amigos na rede social.

Não demora muito para que ela seja adicionada por Alex. Algumas curtidas e pronto: o rapaz decide mandar mensagem para a garota desconhecida. A partir desse momento, Claire passa a ter sentimentos há muito tempo esquecidos. O rapaz parece despertar nela sensações que a fazem esquecer da idade, do estresse do trabalho, e até mesmo do relacionamento com Ludo. Por trás da tela, Claire sente-se livre para ser a mulher que há muito tempo não encontrava em si mesma, e passa a preferir cada vez mais a personagem virtual ao invés de sua vida real.

O choque entre o perfil criado no Facebook e a vida real da protagonista é muito bem construído. Na cena em que ela pesquisa o que é “insta” depois de Alex pedir pelo seu perfil na rede social, por exemplo, é possível perceber que as duas facetas — Claire e Clara — não foram feitas para existir ao mesmo tempo. Clara não pode ser apresentada a Alex na vida real, e Claire não consegue ser tudo que o perfil falso apresenta para o mundo. O conflito entre o que ela é na aparência e o que carrega em seu espírito é denso e intrigante. A juventude se mostra como algo inalcançável, uma vez que Claire não possui mais vinte e poucos anos, mas agir como tal, mesmo que se sinta jovem, não parece apropriado para uma mulher da idade dela. A cena em que a professora dança sozinha em uma festa traz muito desse conflito para o público.

Fora das telas, Claire não se sente segura para conversar com Alex [Copyright Diaphana Distribution]

Além disso, o relacionamento que ela estabelece com Alex é repleto de camadas complexas e profundas. O que parecia ser apenas um passatempo torna-se uma obsessão que toma dias e noites. Claire não consegue fazer nada sem estar ouvindo a voz de Alex pelo telefone, e o jovem mostra-se cada vez mais preso à mulher. Ela recebe a atenção que há muito tempo não tinha, mas sua idade é colocada como um empecilho para levar a relação adiante, enquanto Alex torna-se cada vez mais insistente quanto a querer encontrar a mulher pessoalmente. Nessa relação, a intensidade cega e faz ambos se perderem no que são e no que pretendem levar para o resto da vida. Desde o começo, fica claro que nenhum dos dois sairá ileso.

Juliette Binoche traz às telas de maneira arrebatadora os conflitos de uma mulher em seus cinquenta e poucos anos cuja aparência e idade importam mais do que deveriam — para ela e para a sociedade. Em um contexto em que envelhecer, para uma mulher, representa ser facilmente descartada,  a protagonista transmite nas telonas a sensibilidade e desejo reprimidos, fazendo com que o espectador fique intrigado com a personagem do começo ao fim.

O roteiro é digno de elogios por si só. Os diálogos são inteligentes e as viradas que o roteiro possui contribuem para o teor dramático do filme, cujo ritmo é, talvez, seu maior trunfo. A trilha sonora também ajuda a compor a atmosfera, sendo pontual e tendo muitas vezes como único som a notificação de mensagem do Facebook. As pitadas de suspense ajudam a construir a complexidade dos personagens e da história, que termina com uma cena intrigante e deixa o espectador de queixo caído.

Quem Você Pensa Que Sou está em cartaz no Festival Varilux. Sua estreia nacional está marcada para 18 de julho. Assista ao trailer aqui:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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