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Reinvenção pelo excêntrico
CINÉFILOS
02 nov 2013 | Por Jornalismo Júnior

por Bárbara D’Osualdo
bdosualdo@gmail.com

A Montanha Matterhorn (Matterhorn, 2013), uma produção holandesa, é um daqueles filmes que se encaixam bem em uma mostra internacional. Se o intuito ao ir a uma destas é realmente ter experiências e ver culturas diferentes, ele preenche facilmente o requisito. O filme faz o espectador sair da sala de cinema com dúvida do que realmente achou dele; se entendeu certos elementos, o que significam diferentes coisas que ocorreram no filme. Mas sua atmosfera de bizarrice – que parece intencional, mas pode ser agravada pelas diferenças culturais – é interessante.

Também não é daqueles em que muitas pessoas se identificam com o protagonista ou mesmo com os outros personagens. O interessante é que estes são de fato estranhos e tomam atitudes inesperadas, que dão o tom de humor esporádico do filme, que, em geral, apresenta uma atmosfera séria.

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A história se inicia com um tom de normalidade pacata, em uma cidade muito pequena da Holanda que gira em torno de uma igreja, o centro da vida social. Muito próximo dela mora o protagonista, Fred, um homem de 54 anos que vive sozinho. Pela limitação das cenas aos arredores da casa e da igreja, percebe-se a cidade como um local realmente pequeno e restrito.

Nesse cenário, Fred leva uma vida regrada – mas isso vai além de rigidez. Ele se mostra alguém perturbado. Interage pouco com a vizinhança, faz sempre as mesmas coisas, só ouve Bach e come a mesma refeição todos os dias. Ele se senta à mesa, observa o relógio e, apenas quando dá exatamente a hora esperada, reza e come.

O enredo apresenta certo mistério por trás da história da esposa e do filho de Fred, pelos os quais ele sempre reza e parece sofrer e sobre os quais são direcionados comentários vagamente ao longo do filme, o que gera curiosidade sobre o que aconteceu com eles.

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A vida de Fred muda quando ele acolhe Theo, um estranho recentemente surgido na cidade. Theo apresenta um comportamento simplório; parece não entender as dinâmicas sociais, não é capaz de manter conversas e apenas responde “sim” ou obedece a certas ordens quando lhe são insistidas, com um olhar parado. Outro mistério é sua origem. Mesmo assim, Fred apega-se muito a ele, e a convivência entre os dois faz com que ele repense muitas coisas, mude sua rotina e chegue a entrar em conflito com a população da cidade, que é muito religiosa. A dupla se mete até em apresentações em festinhas infantis.

A montanha que dá nome ao filme é a da ilustração do chocolate Toblerone. Ela fica em uma cidade turística dos Alpes suíços chamada Zermatt. Matterhorn tem, para Fred, um vínculo muito forte com o passado e seus arrependimentos, por ser onde pediu a esposa em casamento, e ele deseja voltar ao local numa tentativa de lidar com o que se passou em sua vida.

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Um filme que poderia ser considerado parado por aqueles que gostam de ação, mas que é intenso em suas particularidades, A Montanha Matterhorn, que integrou a 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é a história de um homem que modifica seu estilo de vida bruscamente para tentar encontrar um equilíbrio para si mesmo e fazer as pazes com o passado e com questões não resolvidas. De uma forma excêntrica, mostra a antiga ideia de que nunca é tarde para tentar mudar aquilo com o que não estamos satisfeitos e que aceitar e lidar com as diferenças podem ajudar nesse processo. Não é um filme marcado por provocar emoção, mas é uma experiência positiva – a dose esporádica de esquisitice para repensar o cotidiano.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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