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Réquiem para Sra. J. é uma composição silenciosa sobre as dúvidas de uma nação
CINÉFILOS
09 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior

“Algo de novo?”

“Nada. O que poderia estar de novo?”

“Mamãe está bem”

“Ela não canta mais.”

 

Uma família em que não há comunicação. Uma mãe desempregada e vítima de uma depressão profunda, porém acima de tudo mãe. Uma jovem mulher que se vê presa a essa família trabalhando muito sem maiores retornos. Uma criança que abandonada se vê independente muito antes da hora. Uma senhora que nada fala, quase que somente compõe o cenário. Indiferença. Essas são as personagens e peças chaves do roteiro singelo de Réquiem para Sra. J. (Rekvijem za gospodju J, 2015), ainda que parado, muito expressivo em suas nuances.

O cineasta sérvio, Bojan Vuletić, montou cuidadosamente a figura de Mrs. J. (Mirjana Karanović) a fim de representar a vítima típica do processo de transição político-econômica da Sérvia do socialismo real ao capitalismo, após a morte do general Tito, que resultou em enormes mudanças políticas na região. Uma mulher simples e pacata que se tornou refém da falência generalizada das fábricas da antiga Iugoslávia, perdeu de uma só vez seu emprego e seu marido, e para si não sobrou nem mesmo uma indenização.

Os problemas de Mrs J, entretanto, afetam todos ao seu redor, pois ela seria o sustentáculo da casa. Ana (Jovana Gavrilović), a filha mais velha, é a única pessoa empregada na família, e por sua vez herda o lugar da mãe ausente como responsável pelo lar. Ela, porém, ainda é uma mulher jovem, que não aceita o fardo de gastar todo o seu tempo com responsabilidades que não lhe caberiam. Já Koviljka (Danica Deneljković), a filha mais nova é uma criança precoce, não por opção, mas por que não tem ninguém que se responsabilize por ela, é abandonada mesmo perto de sua família.

Com a depressão afundando sua mãe em letargia, Koviljka, embora relutante, ergue a cabeça e busca sua própria escapatória. (Imagem: Divulgação)

Em meio a todos esses conflitos, Mrs. J também lida com uma depressão severa, e, portanto, não consegue dar a atenção que deveria, ou queria, para nenhuma de suas duas filhas. O que só piora ao longo do filme, pois o medo de frustrá-las a impede de se comunicar com elas, ao mesmo tempo que essa distância de sua família a torna ainda mais letárgica, às vezes quase catatônica.

Enquanto limpa a arma do falecido marido com um olhar cético, Mrs. J. reflete sobre a única solução que para si parece razoável:  suicidar-se com o intuito de deixar para Ana seu seguro de vida e assim garantir um futuro mais tranquilo para sua família. Ela encontra, todavia, muitos obstáculos para realizar seu plano, porque uma falha burocrática a impossibilita de conseguir barbitúricos, elemento chave para que sua morte aconteça sem maiores traumas.

Ao mostrar a trajetória de Mrs. J. em busca de seus remédios letais,  Vuletić desenha detalhadamente a Sérvia pós-comunismo, dando muita atenção à dúvida de uma nação que busca por uma nova identidade. Neste retrato do povo sérvio na transição político-econômica surgem os ganchos cômicos, os quais brincam com elementos regionais, tornando sutilmente o enredo um pouco mais leve.

Com a queda do regime comunista, vários cidadãos sérvios encontraram-se desamparados, pois não tiveram nenhuma forma de resguardo financeiro. (Imagem: Divulgação)

Ademais, o diretor usa da depressão da protagonista como plataforma para montar cenas oníricas, constrói cada um dos cenários como uma extensão da mente doente de Mrs. J, ao passo que usa dos quadros do filme para tornar essas imagens ainda mais intensas. Até os momentos finais do filme há uma opção pela ausência de trilha sonora, o que Vuletić compensa com uma bela sonoplastia. Porém, nos momentos finais o silêncio é quebrado com a bela voz da personagem principal entonada em uma expressiva canção.

 

Réquiem para Sra. J. estreia dia 10 de maio nos cinemas. Assista ao trailer abaixo:

 

por Pedro Teixeira
pedro.st.gyn@gmail.com

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