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Resumo Internacional 2019: África, Américas e Oceania
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30 dez 2019 | Por João Pedro Malar (joaopedromalar@gmail.com)

O ano de 2019 foi marcado por protestos. Cada um à sua maneira, do Chile ao Líbano, foi possível observar a materialização de uma insatisfação crescente da população para com governos – autoritários ou democráticos, liberais ou intervencionistas. 

Ao mesmo tempo, foi um ano de grandes eleições. A maior democracia do mundo, a Índia, foi às urnas, e o continente europeu como um todo foi marcado pela eleição do Parlamento Europeu, órgão legislativo da União Europeia, bloco com 28 (e em breve, ou não tão breve assim, 27) países.

Confira nesta matéria, de forma resumida, os principais acontecimentos políticos nos países de cada um dos continentes do globo. Por questões de distribuição de informação, a América foi dividida em seus três subcontinentes, e o Oriente Médio também será um tópico separado. A matéria também conta com análises de especialistas em relação ao ano de 2019 para cada continente, destacando em qual país (ou quais países) deveremos ficar de olho em 2020.

 

África

Mapa político do continente africano. [Fonte: Fsolda/Wikipedia]

Em meio a críticas quanto aos casos de corrupção e à dificuldade em lidar com o grupo terrorista Boko Haram, Muhammadu Buhari, do Congresso dos Progressistas, conseguiu uma reeleição como presidente da. Nigéria. O político, de centro-esquerda, derrotou o empresário e ex-vice-presidente Atiku Abubakar, do Partido Popular Democrata, de centro-direita. Devido à insegurança no país, menos de 40% dos eleitores compareceram às urnas.

Outro importante país que passou por eleições foi a África do Sul. Cyril Ramaphosa foi reeleito como presidente do país, após assumir em meio a denúncias de corrupção que levaram à renúncia de Jacob Zuma em 2018. O Congresso Africano Nacional, partido dos dois políticos, deu sinal de enfraquecimento após décadas no poder e denúncias de corrupção, mas segue sendo a maior força do país.

Quem também se reelegeu foi o presidente do Senegal, Macky Sall, do partido centrista Aliança pela República. Os dois principais partidos do país tiveram seus candidatos barrados das eleições após condenações de corrupção. Vale lembrar que durante o governo de Sall o país vem registrando um grande crescimento econômico, e o Senegal é uma das democracias mais estáveis do continente.

Macky Sall, criticado por se candidatar a um terceiro mandato no Senegeal. [Imagem: picture alliance/augenklick/Minkoff]

A Guiné Bissau passou por eleições legislativas e para presidente. O presidente do país, marcado pela forte presença do narcotráfico, foi o primeiro a terminar um mandato vivo na história da nação. José Mário Vaz teve um governo marcado por rixas internas no seu partido, o esquerdista Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, com uma sucessão de seis primeiros-ministros em cinco anos. Vaz acabou saindo do partido e concorrendo como independente, ficando em quarto lugar.

O segundo turno foi disputado por Domingo Simões, presidente do PAIGC, e Umaro Sissoco, do Movimento pela Democracia Alternativa, formado por dissidentes do PAIGC, com resultado ainda não divulgado. O PAIGC ganhou as eleições legislativas, e escolheu como primeiro-ministro do país Aristides Gomes, que foi substituído por Faustino Imbali após desavenças com José Mario Vaz.

Em Comores, uma pequena nação insular, a eleição para presidente causou polêmica. Tradicionalmente há um revezamento na presidência entre as três ilhas do país (Anjouan, Grande Comore e Mohélo), mas um referendo de 2018 alterou o sistema eleitoral do país e retirou essa regra. Houve grandes protestos em Anjouan, de onde viria o próximo presidente, porém Azali Assoumani, do partido de centro-esquerda Convenção pela Renovação de Comores, foi reeleito. Assoumani já foi presidente outras duas vezes, e assumiu após dar um golpe de estado.

Azali Assoumani, presidente de Comores. [Imagem: Gianluigi Guercia/AFP]

No Egito, um referendo constitucional aprovou uma mudança na Constituição que permitirá que o autoritário Abdel Fattah el-Sisi dispute novas eleições e possa permanecer no poder até 2030. Entidades internacionais criticaram o pleito, caracterizado como manipulado e sem representatividade. O general Sisi chegou ao poder após derrubar o presidente eleito Mohamed Morsi em um golpe de estado, e vem tomando diversas ações de repressão à oposição.

O Benim, país africano elogiado por ser um representante da democracia na região, teve eleições duramente criticadas exatamente pela falta de democracia. O presidente Patrice Talon e seu partido, o Aliança Progressista, aprovaram um novo código eleitoral que impediu que partidos de oposição concorressem, e apenas partidos aliados a Talon atenderam aos critérios estabelecidos. Atendendo aos pedidos da oposição, uma parte considerável da população não compareceu às urnas, que elegeu um Parlamento 100% governista.

No Malawi, o presidente Peter Mutharika, do centrista Partido Democrático Progressista, foi reeleito com uma margem pequena de votos em relação ao seu principal opositor, Lazarus Chakwera, do Partido Congressista do Malawi, de direita. Os resultados foram contestados na Suprema Corte do País, com o segundo e terceiro colocados no pleito pedindo o seu cancelamento devido a irregularidades, a decisão da Corte deve ser anunciada apenas em 2020.

Peter Mutharika, cuja reeleição foi contestada pela oposição. [Imagem: Lucas Jackson/Reuters]

Em Madagascar, o presidente Andry Rajoelina, eleito em 2018, conseguiu obter a maioria no Parlamento do país. Sua coalizão conquistou 84 dos 151 assentos em disputa, superando a oposição do partido nacionalista Eu Amo Madagascar, do candidato derrotado à presidência Marc Ravalomanana. Em 2009, Ravalomanana foi retirado do poder após um golpe, sob a liderança de Rajoelina.

O partido populista União para a República seguirá no poder na Mauritânia após eleições. A agremiação controla o país desde um golpe de Estado em 2008. A diferença é que o líder do golpe, Abdel Aziz, decidiu se afastar da presidência, que será transmitida para Mohamed Ould Ghazouani. Mesmo com as críticas da oposição, essa será a primeira transferência pacífica de poder no país desde 1960.

A Tunísia, país símbolo da Primavera Árabe, passou por novas eleições após a morte do presidente Beji Caid Essebsi e protestos populares, gerados por uma insatisfação com a economia e demandando uma renovação na política. Kais Saied, um jurista independente e mais conservador, conquistou 72% dos votos, mostrando sua força com essa base, e foi eleito presidente. Já para as eleições parlamentares o partido muçulmano Ennahda foi o que conquistou mais assentos, seguido pelo Coração da Tunísia, de Nabil Karoui, empresário que estava preso acusado de corrupção até poucos dias antes do segundo turno das eleições presidências, onde ficou em segundo lugar. Habib Jemli, do Ennahda, foi indicado como primeiro-ministro, mas ainda não conquistou maioria na casa.

Kais Saied, novo presidente da Tunísia. [Imagem: DPA]

Moçambique também passou por eleições em 2019. O conflito no país, travado pelo partido governante Frelimo (de esquerda) e o opositor Renamo (direita) chegou ao fim com um acordo de paz, mas a ampla vitória de Filipe Nyusi em sua reeleição e a falha do Renamo em conquistar províncias do país (cujos governantes, no acordo, terão mais poder) reviveram, em menor escala, as tensões na nação.

Em Botsuana, o Partido Democrático manteve a tradição de ganhar toda eleição desde 1965. Beneficiado por desavenças internas entre os grupos oposicionistas Mokgweetsi Masisi manteve o cargo de presidente, que ocupa desde 2018, quando Ian Khama renunciou e partiu para a oposição. Seu novo partido, o Fronte Patriótico, ficou em terceiro lugar, com apenas 4% dos votos.

Na Mauritânia, Pravind Jugnauth, do Movimento Militante Socialista, manteve-se no poder. Apesar do país ser considerado uma das mais estáveis democracias do continente, apenas um dos cinco primeiros-ministros do país não foi um Ramgoolam ou um Jugnauth. Enquanto os segundos lideram as forças de esquerda, os primeiros lideram a centro-esquerda do país. Os bons resultados na economia auxiliaram na reeleição de Jugnauth.

Na Namíbia, o presidente Hage Geingob, da Organização do Povo do Sudoeste Africano, de centro-esquerda, conseguiu uma confortável reeleição em 2019. O surgimento de outros partidos de oposição, porém, levaram à perda da maioria de ⅔ que o partido tinha no Parlamento, pela primeira vez desde 1994. A segunda força do Parlamento será o Movimento Popular Democrático, de centro-direita. Apesar de governar o país desde 1990, os presidentes do partido de Geingob sempre ficam no poder por apenas dois mandatos.

Hage Geingob, atual presidente da Namíbia. [Imagem: Reprodução]

Na Argélia, o ditador Abdelaziz Bouteflika, há 20 anos no poder, acabou renunciando após intensos protestos, comparados aos da Primavera Árabe. O motivo foi a profunda crise econômica do país, que levou a pedidos da saída de Bouteflika. Com o presidente anunciando que pretendia concorrer a outro mandato, a população foi para as ruas. Ao perder apoio do exército, Bouteflika renunciou. Abdelkader Bensalah, presidente da câmara alta do país, assumiu como presidente interino, mas os manifestantes se recusaram a apoiar eleições previstas para 12 de dezembro pois apenas candidatos pertencentes ao governo de Bouteflika participaram do pleito. Mesmo com intensos protestos e baixo comparecimento às urnas, a votação ocorreu e Abdelmadjid Tebboune foi eleito.

No Sudão, protestos enraizados em causas semelhantes às das manifestações na Argélia, crise econômica e descontentamento com o líder do país, levaram à queda do ditador Omar al-Bashir após 30 anos no poder. Assim como na Argélia, a perda de apoio do exército foi essencial para a queda de al-Bashir. Um conselho de transição, capitaneado inicialmente por militares, enfrentou resistência do povo, o que levou a uma maior participação popular. Abdel Fattah Abdelrahman Burhan, um general, comandará o Conselho de Soberania, órgão executivo criado no acordo civil-militar, por 21 meses, sendo então substituído por um civil, que governará por 18 meses, seguido por novas eleições.

Enquanto isso, a Líbia segue imersa em uma guerra civil. Instável desde a queda do ditador Muamar Gaddafo, o país está dividido. De um lado está o governo de Fayez al-Sarraj, com amplo apoio internacional e da ONU, do outro está o general Khalifa Haftar, com apoio da Rússia e da França. O general decidiu, em abril, iniciar uma investida contra o leste do país, controlado por Sarraj, e ambos os lados estão em conflito desde então. Ainda não há previsão para o fim dos embates.

Já na Etiópia, o primeiro-ministro Abiy Ahmed, conhecido por realizar diversas reformas socioeconômicas e uma abertura democrática no país, foi premiado com o prêmio Nobel da Paz de 2019 pelo acordo de paz que pôs fim à guerra com a vizinha Eritréia. Apesar de ser elogiado pela comunidade internacional, o premiê, que luta pela superação de conflitos étnicos no país, vem enfrentando diversos protestos de grupos que sentem que Ahmed falhou em sua missão e tentou priorizar sua própria etnia, com um retorno de intensos conflitos étnicos na nação.

Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia. [Imagem: Reprodução]

Tanguy Baghdadi, que também apresenta o podcast de política internacional Petiti Journal, considera que a resolução do conflito Etiópia-Eritréia e a queda de Omar al-Bashir no Sudão foram os grandes eventos de 2019. Para ele, “as manifestações que se fizeram presentes em diversos países – incluindo Eritreia e Sudão – dão o prognóstico de que a sociedade civil vem ganhando força, em um processo que tende a se intensificar”. Baghdadi considera que a Etiópia é o país africano para se ficar de olho em 2020, já que o país passará por eleições em meio às críticas contra Abiy Ahmed.

 

Oceania

Mapa político da Oceania. [Fonte: Geomapas]

A Austrália passou por eleições parlamentares em 2019. Era esperado que o primeiro-ministro Scott Morrison, que assumiu após brigas internas no seu Partido Liberal, tivesse grandes dificuldades para manter sua maioria parlamentar em relação à oposição, encabeçada pelo Partido Trabalhista. No fim, Morrison manteve sua maioria parlamentar e o cargo, em uma vitória que ele atribuiu aos “australianos quietos”: pessoas de classe média, religiosas e dependentes da indústria do carvão, amplamente defendida pelo político.

Scott Morrison, primeiro-ministro da Austrália. [Imagem: AAP/Paul Braven]

Nas Ilhas Salomão, Manasseh Sogavare conquistou um quarto mandato como primeiro-ministro. Ele havia saído do poder após perder um voto de confiança no Parlamento aberto pelo próprio partido, a Aliança Democrática Nacional, e ter sido substituído por Rick Houenipwela. Sogavare acabou concorrendo como independente, e conquistou o apoio necessário no Parlamento.

Nas eleições parlamentares da Micronésia, o presidente Peter Martin Christian acabou perdendo o cargo em meio a escândalos pessoais. O presidente da federação de ilhas é escolhido a partir de quatro senadores (que representam a população dos quatro grupos de ilhas do país), como Christian perdeu o cargo, não pode ser reeleito. Em seu lugar foi escolhido David Panuelo. A população também aprovou a realização de uma nova Convenção Constitucional.

Um caso semelhante ocorreu em Nauru, onde o presidente Baron Waqa, no cargo desde 2013, não conseguiu se reeleger para o Parlamento, que escolhe, entre si, o mandatário do cargo. Em seu lugar foi escolhido o advogado Lionel Rouwen Aingimea, que já foi Ministro da Justiça de Waqa. Waqa foi criticado pela oposição pois durante o seu governo uma lei foi aprovado que, segundo entidades internacionais, dificultava o acesso de refugiados a assistência médica.

Lionel Rouwen Aingimea, novo presidente de Nauru. [Imagem: Laura Jarriel/ ONU]

Nas Ilhas Marshall, a presidente Hilda Heine, primeira mulher a ocupar o cargo, enfrenta uma jornada difícil para a reeleição. Assim como nos dois países citados acima, o presidente é escolhido entre os membros do Parlamento. Os próximos quatro anos no país serão importantes devido à renegociação de um acordo de financiamento com os EUA e os efeitos das mudanças climáticas no país. Resultados não oficiais indicam que a oposição conquistou a maioria dos assentos, o que confirmaria a tradição de nenhum presidente conseguir se reeleger nas Ilhas Marshall.

Samiuela Pōhiva, primeiro-ministro de Tonga e conhecido por lutar pela causa climática, faleceu em 2019. Em seu lugar, foi escolhido Pohiva Tuʻiʻonetoa, que era do governo de Pōhiva. O político independente derrotou Semisi Sika, que atuava como primeiro-ministro temporário e era do mesmo partido de Pōhiva, o Partido Democrático das Ilhas Amigas.

O território de Bougainville, ilha pertencente à Papua-Nova Guiné, aprovou, com uma ampla margem, um referendo de independência. A região teve uma guerra civil com o país que se encerrou em 2011, após dez anos de conflito. Com 98% dos votos pela independência, é esperado que haja grande pressão para que o Parlamento de Papua-Nova Guiné aprove a separação, mas o risco de incentivar outros movimentos separatistas deve dificultar o processo. Lideranças de Bougainville ainda preveem um período de dez anos até uma independência do país, com instituições suficientemente desenvolvidas para tal.

Também em 2019 o primeiro-ministro de Papua-Nova Guiné Peter O’Neill renunciou ao cargo para evitar um voto de confiança no Parlamento. A ação ocorreu em meio a escândalos de corrupção envolvendo seu governo e uma insatisfação popular. Em seu lugar assumiu James Marape, que saiu do partido de O’Neill em meio às acusações e entrou no Partido Pangu.

James Marape, novo primeiro-ministro de Papua-Nova Guiné. [Imagem: Reprodução]

Para Tanguy Baghdadi, o principal acontecimento no continente foi a forma como a Nova Zelândia lidou com o atentado em duas mesquitas de Christchurch, que vitimou 51 pessoas. Para ele, a reação da primeira-ministra Jacinda Ardern “a alçou a uma posição de destaque internacional. Não houve discurso de ódio ou de exclusão, mas sim sobriedade e equilíbrio”. Baghdadi coloca a Austrália como país para se ficar de olho em 2020, que tem prognósticos econômicos difíceis para o ano que vem.

 

América Central

Mapa político da América Central. [Imagem: Fsolda/Wikipedia]

Em El Salvador a insatisfação da população em relação aos partidos tradicionais levou à eleição do empresário Nayib Bukele, de centro-direita, para a presidência. Bukele é o primeiro presidente eleito desde 1989 que não pertence a uma das duas grandes forças políticas do país, a Aliança Nacionalista Republicana, de direita, e a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, de esquerda. Bukele foi expulso da FMLN em 2017, e sua transição ideológica foi atribuída como outro motivo para a vitória.

Nayib Bukele, novo presidente de El Salvador. [Imagem: AP Photo]

Nas Ilhas Virgens Britânicas, o progressista Partido Nacional Democrático saiu do poder após perder as eleições em meio a um racha no partido. Em seu lugar, assumiu o conservador Partido das Ilhas Virgens Britânicas, liderado por Andrew Fahie, novo primeiro-ministro do país.

Em uma eleição centrada principalmente em discursos contra a corrupção, em meio a denúncias de envolvimento de políticos com a empresa Odebrecht, o candidato Laurentino Cortizo, do Partido Democrático Revolucionário (centro-esquerda) foi eleito presidente do Panamá. Em meio à disputa apertada com a centro-direita o partido Pañamenista, de direita e que estava no poder desde 2014, ficou em quarto lugar.

Na Guatemala o conservador Alejandro Giammattei, do Vamos, foi eleito em meio a diversas denúncias de corrupção que assolam a classe política do país e com a promessa de retornar com a pena de morte no país. O candidato escolhido pelo presidente Jimmy Morales, de direita e com diversas investigações de corrupção, nem chegou ao segundo turno. Sandra Torres, primeira-dama de 2011 a 2015, concorreu pela União Nacional pela Esperança, de esquerda, e perdeu no segundo turno. Ela foi presa após as eleições, acusada de violar regras de financiamento de campanha.

Alejandro Giammattei, novo presidente da Guatemala. [Imagem: Carlos Sebastián]

O Haiti enfrenta grandes protestos da população desde o começo do ano, em especial devido à insatisfação com o governo do presidente Jovenel Moïse. O país enfrenta uma profunda crise econômica, com escassez de alimentos e outros produtos e uma alta taxa de desemprego, o que motiva boa parte da insatisfação popular. Ao mesmo tempo, a população não vê legitimidade na ineficiente administração de Moïse, colocada no poder muito mais por influência da ONU e dos EUA no país do que pela vontade popular em si. O presidente prometeu reformas mas afirmou que não pretende renunciar.

Na ilha de Montserrat, território ultramarino britânico, o Movimento pela Mudança e Prosperidade, que estava na oposição, derrotou o Movimento Democrático Popular. Com isso, saiu o primeiro-ministro Donaldson Romeo e assume o cargo Easton Taylor-Farrell.

A ilha de Dominica também passou por eleições em 2019. O primeiro-ministro Roosevelt Skerrit, no poder desde 2004, liderou seu Partido Trabalhista para mais uma vitória. O pleito foi criticado pela oposição, que acusa Skerrit e seu governo de praticar atos de corrupção e a se recusar a realizar reformas eleitorais que tornem o processo eleitoral mais justo e transparente, após análises de órgãos internacionais que levantaram falhas no sistema atual.

Roosevelt Skerrit, atual primeiro-ministro de Dominica. [Imagem: Reprodução]

Por fim, a população cubana aprovou, com 90% dos votos, a nova Constituição do país. Ela restabelece a posição de presidente do país, além de manter a de primeiro-ministro. Miguel Díaz-Canel, que assumiu o governo em 2018, detém ambos os cargos de forma temporária até que a Constituição entre em vigor em 2020. O texto inclui a proibição de discriminação por gênero, raça ou orientação sexual e removeu obstáculos para o casamento homossexual, sem reconhecê-lo de forma explícita.

O jornalista Lucas Berti, que possui uma newsletter quinzenal sobre a América Latina, o Giro Latino, pondera que o ano na região manteve os problemas com “imigração, violência e corrupção” presente em quase todos os países da área, com notável exceção da Costa Rica. Para ele, a Costa Rica, com suas políticas sociais e ambientais, é um caso especial que merece atenção em 2020. Berti ressalta que a questão da imigração será essencial na região, algo que deve inclusive influenciar as eleições nos Estados Unidos. Por fim, os primeiros anos de mandato dos novos presidentes de El Salvador e Guatemala, com propostas reformistas para a violência e corrupção, também merecem um olhar em 2020.

América do Norte

Mapa político da América do Norte. [Imagem: Fsolda/Wikipedia]

O único país a ter eleições a nível nacional foi o Canadá. O primeiro-ministro Justin Trudeau, do partido Liberal, de centro-esquerda, teve uma disputa apertada pela manutenção do cargo, em meio a escândalos envolvendo pressões para que a antiga procuradora geral do país em seu governo desistisse de acusações contra uma empresa canadense e a divulgação de fotos em que o político realizava o chamado blackface. Mesmo com uma perda de assentos, Trudeau assegurou apoio suficiente para formar um governo minoritário. Além do crescimento dos Conservadores, de centro-direita, a grande surpresa foi o crescimento do Bloco Quebequense, formado por apoiadores da independência do Quebec. A extrema-direita perdeu seu único assento no Parlamento.

Justin Trudeau, que conquistou mais um mandato como premiê do Canadá. [Imagem: Chatelaine]

O ano de 2019 foi bastante tumultuado nos Estados Unidos. Primeiramente, o Partido Democrata, de centro-esquerda, vem passando por primárias que decidirão qual candidato enfrentará Donald Trump em 2020. Ainda na fase de debates, dos 28 candidatos originais restam 15, com os favoritos sendo o ex-vice-presidente de Barack Obama Joe Biden, os senadores progressistas Bernie Sanders e Elizabeth Warren e o prefeito Pete Buttigieg, mais moderado mas que ficou famoso por ser abertamente homossexual.

Ao mesmo tempo, o presidente Donald Trump não teve uma vida fácil. Em meio a uma guerra comercial com a China, que parece ter chego a uma trégua no fim do ano com um acordo entre as nações, e o esforço para aprovar um novo acordo comercial com o Canadá e o México, que passou no Congresso americano apenas no fim de 2019, Trump passou a enfrentar um processo de impeachment. 

O processo foi aberto na Câmara dos Representantes após denúncias de uma ligação entre Trump e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em que o estadunidense pede para que o colega investigue possíveis crimes cometidos pelo filho de Joe Biden, Hunter, para prejudicar o ex-vice-presidente nas eleições. Além disso, pesa contra ele o relatório do procurador Robert Muller sobre a interferência russa nas eleições de 2016 e a relação com a campanha de Trump. O impeachment foi aprovado na Câmara e deve seguir para o Senado, que é controlado pelo partido de Trump, indicando que o caso deve ser rejeitado.

Nancy Pelosi, democrata e atual presidente da Câmara dos Representantes, conduziu o processo de impeachment de Trump. [Imagem: Chip Somodevilla/Getty Images]

Um caso peculiar chamou a atenção envolvendo o presidente. Após o surgimento de rumores de que Trump teria perguntado sobre a possibilidade dos EUA comprarem a Groenlândia da Dinamarca, o líder não apenas confirmou a ideia, como chegou a fazer uma proposta para Mette Frederiksen, primeira-ministra dinamarquesa. A proposta foi prontamente recusada, mas indica uma tendência de movimentação geopolítica em torno do Mar do Ártico, que passa a ser uma possível rota de navegação graças ao aquecimento global.

Para o jornalista do Nexo Jornal especializado em política internacional, João Paulo Charleaux, o ano de 2019 foi “a consolidação do projeto populista de Trump, que mostrou resiliência diante de um quadro político e midiático francamente hostil”. O ano de 2020 deve ser marcado pela continuidade do processo de impeachment de Trump e pelas eleições presidenciais no país, tornando os EUA o principal país da região para se ficar de olho no próximo ano.

América do Sul

Mapa político da América do Sul. [Imagem: High source/Wikipedia]

Em meio a diversas manifestações e crises, as eleições no Uruguai chegaram a ser estranhamente pacíficas. Após 15 anos no poder e uma série de medidas progressistas a Frente Ampla, de esquerda, foi derrotada por uma coalizão de partidos da centro-direita à extrema-direita, liderada por Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional. O resultado é reflexo de um desgaste do partido dos ex-presidentes Pepe Mujica e Tabaré Vázquez, em especial com um aumento da violência no país e um caso de corrupção que envolveu o, à época, vice de Vázquez. Pou prometeu não voltar atrás com as medidas da Frente Ampla e a transição de poder tem sido democrática e pacífica.

Luis Lacalle Pou, novo presidente do Uruguai. [Imagem: DavidPuigFotografia]

No começo do ano o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, de direita, quase sofreu um processo de impeachment por causa de um escândalo envolvendo a Usina de Itaipu. Foi descoberto que integrantes do governo  e o próprio Benítez estariam, ao negociar um acordo que aumentaria o preço no país da energia produzida na usina, favorecendo o governo brasileiro. O escândalo só foi contido com a renúncia do ministro das relações exteriores paraguaio, o embaixador do país no Brasil e o presidente da estatal de energia paraguaia. Apesar disso, a popularidade de Benítez segue baixa.

O presidente do Suriname, Dési Bouterse, foi condenado a 20 anos de prisão pelo assassinato de 15 opositores em 1982. Bouterse governa o país desde 2010, mas participou da ditadura militar entre 1980 e 1987. Ainda bastante popular, o líder, que estava em viagem à China quando foi condenado, retornou para o seu país e anunciou que ainda tem intenção de concorrer à reeleição em 2020.

Dési Bouterse, atual presidente do Suriname. [Imagem: Ranu Abhelakh / Reuters]

Na Colômbia, o presidente Iván Duque, eleito em 2018, teve uma queda expressiva de popularidade, com uma população descontente com a demora na implementação do acordo de paz com o grupo guerrilheiro Farc e com as desigualdades econômicas e sociais no país. Com problemas inclusive dentro do próprio partido e criticado por políticos mais conservadores, Duque deve ter grandes dificuldades para governar no próximo ano.

No Equador, o presidente Lenín Moreno, que se afastou dos grupos de centro-esquerda e adotou uma postura mais liberal na economia, também enfrentou fortes protestos populares. Os mesmos começaram após Moreno adotar recomendações do FMI em trocar de um empréstimo, e cortar os subsídios para a gasolina. Em meio a intensos protestos, Moreno chegou inclusive a trocar a capital administrativa do país até, por fim, revogar as medidas após diálogos com líderes opositores.

Na Argentina, Mauricio Macri, de centro-direita, não conseguiu se reeleger em meio ao fracasso de suas políticas econômicas. Com um grande crescimento da inflação e pobreza, Macri viu sua popularidade ruir. Com isso a esquerda retornou ao poder, na figura de Alberto Fernández e a vice Cristina Kirchner, ex-presidente. Fernández encabeçou a chapa pois é mais moderado, o que atraiu de forma mais ampla os poderosos setores políticos peronistas. Kirchner ainda enfrenta acusações de corrupção durante seu mandato.

Alberto Fernández, novo presidente da Argentina. [Imagem: Reprodução]

No Chile, a grande desigualdade socioeconômica decorrente de anos de políticas neoliberais chegou a um ponto limite, com múltiplos protestos iniciados após um aumento nas passagens de metrô. Mesmo com uma violenta e intensa repressão o presidente Sebastián Piñera, de direita, acabou cedendo às demandas dos manifestantes e prometeu realizar uma nova Assembléia Constituinte, para substituir a Constituição criada na ditadura de Augusto Pinochet. O Congresso chileno também aprovou cortes nos salários de servidores públicos e expansão de políticas sociais assistencialistas.

No Brasil, o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, de extrema-direita, foi marcado por mudanças profundas na política externa do país. Além de uma nova reaproximação com os EUA, com diversas concessões estratégicas, o governo brasileiro também adotou uma postura mais opinativa quanto a eleições e conflitos em países vizinhos, algo incomum no passado. Em meio a problemas internos, em especial com mudanças partidárias e investigações envolvendo os filhos do presidente, o discurso semelhante ao do presidente Donald Trump, anti-globalização e marcadamente anti-esquerda, ainda promete gerar novos desafios e mudanças na política internacional do país.

Na Bolívia, o presidente Evo Morales, de esquerda, acabou sendo retirado do poder após um golpe de estado com participação do exército, em meio a investigações da OEA que apontaram irregulares na sua vitória nas eleições presidenciais. Morales se candidatou após receber permissão da Suprema Corte, segundo críticos influenciada por Morales, mesmo com uma derrota em um plebiscito que alteraria a Constituição e permitiria que ele concorresse a novos mandatos (já tendo dois mandatos de cinco anos cada e um de quatro). 

A Bolívia enfrentou intensos protestos e conflitos entre apoiadores da esquerda e da direita (representada pelo candidato moderado derrotado na eleição Carlos Mesa e pelo líder de extrema-direita Luíz Fernando Camacho). Após um relatório alegando as irregularidades, Morales, seu vice, todo o gabinete e os presidentes do Senado e da Câmara renunciaram. Quem assumiu a presidência foi a conservadora Jeanine Añez, segunda vice-presidente do Senado. Apesar de gerar uma grande guinada conservadora, Añez chegou a acordos com a esquerda para cessar os protestos e novas eleições ocorrerão em 2020. Morales atualmente está refugiado na Argentina.

Jeanine Añez, presidente interina da Bolívia. [Imagem: Reuters]

No Peru, o presidente Martín Vizcarra, que havia assumido a presidência ano passado após a renúncia do presidente Pedro Paulo Kuczynski em meio a denúncias de compra de votos, vinha enfrentando dificuldades para aprovar medidas no Legislativo, em especial as voltadas para combater a corrupção e antecipar eleições gerais. Atualmente todos os presidentes do Peru eleitos desde 2001 foram envolvidos em esquemas de corrupção. Tentando atender à insatisfação popular e após derrotas em votos no Legislativo, Vizcarra utilizou um dispositivo constitucional que permitia a dissolução do Parlamento.

Entretanto a casa legislativa não aceitou a determinação de Vizcarra, o suspendeu da presidência e nomeou sua vice, Mercedes Aráoz, como novo presidente do país. Vizcarra não aceitou as medidas e, com o apoio da população e do exército, manteve-se no poder. Aráoz acabou renunciando em defesa de novas eleições e, com amplo apoio popular, Vizcarra dissolveu o Congresso e marcou novas eleições para janeiro de 2020.

Em meio a uma crise econômica que não dá sinais de trégua e uma forte emigração da população, a crise política na Venezuela teve novos capítulos. Atualmente há uma disputa entre Nicolás Maduro, de esquerda, e Juan Guaidó, de direita, pela presidência do país, já que, segundo Guaidó, Maduro não teria legitimidade para estar no cargo. Guaidó é o presidente da Assembléia Nacional do país, que mais tarde seria declarada inconstitucional pela Suprema Corte, e se autodeclarou presidente em meio à posse de Maduro após eleições no ano passado, que foram caracterizadas por entidades internacionais como parciais e manipuladas.

Juan Guaidó, auto-proclamado presidente da Venezuela. [Imagem: Carlos Garcia Rawlins / Reuters]

Guaidó atualmente é reconhecido como presidente interino por 57 países, como o Brasil e os EUA, mas Maduro ainda detém apoio de importantes nações, como a China e a Rússia. Em meio ao imbróglio, Guaidó tentou retirar Maduro do poder em abril deste ano, mas a tentativa fracassou após a falha do político em conseguir apoio suficiente do exército, ainda majoritariamente pró-Maduro. Em meio ao fracasso de todas as tentativas de negociação, o apoio a Guaidó vem diminuindo, e já existem figuras na oposição que pedem por uma troca de liderança do grupo, que une partidos de direita e esquerda em prol de um retorno da democracia ao país em veio a violenta repressão e censura realizadas por Maduro.

Para Lucas Berti, o ano de 2019 pode ter sido o de “maior confluência de movimentos políticos e estouros sociais desde a época da independência”, algo que começou na Venezuela e se estendeu, de forma surpreendente, por outros países, como Chile, Peru, Equador e Bolívia. O jornalista acha que as mudanças de 2019 torna difícil escolher um país para ficar de olho em 2020. “A Argentina terá uma missão ambiciosa de conter uma das maiores crises econômicas recentes no país”, pontua. O futuro do Mercosul também merece atenção, com três países membros à direita e um, a Argentina, à esquerda. Para ele, a grande pergunta para 2020 é: “iremos repetir esse ciclo de crise? Qual é a resposta, democrática, política e social que esses países vão dar a esse momento turbulento?”

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