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Rixa na rede: a rivalidade entre Brasil e Cuba no vôlei
ARQUIBANCADA
01 ago 2017 | Por Jornalismo Júnior

Por Beatriz Gatti e Jonas Santana

Quem assiste hoje a uma partida entre Brasil e Cuba no vôlei feminino não imagina o fervor que acompanhava essa disputa no final do século passado. A rivalidade entre as duas Seleções tem um antigo histórico, mas hoje em dia perdeu força.

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Contexto

A Seleção Cubana de Voleibol Feminino foi, nos anos 90, a equipe mais temida e admirada na modalidade. Estrelada por jogadoras como Mireya Luis, Regla Torres e Magalys Carvajal, o país era muito bem representado e suas conquistas significavam um incentivo ao esporte nacional em geral. Detentora do ouro nos Jogos Pan-Americanos desde 1971, foi somente em 95 que a equipe cubana teve sua hegemonia na América quebrada. Por acaso, justamente, pelas brasileiras

Mesmo com a dominação de Cuba, até então o clima entre as duas Seleções era tranquilo. Muitas das brasileiras mantinham um vínculo de amizade com as cubanas. “Quando entrei na Seleção, eu vi que as meninas se ajudavam muito. Quando fomos jogar o Pan em Cuba, elas compravam charutos, levavam coisas para as cubanas”, revela Fofão, ex-levantadora e integrante da Seleção Brasileira desde 1991, em entrevista ao Arquibancada.

Início da Rivalidade

O ambiente só começou a mudar quando as brasileiras passaram a indicar que poderiam ser uma ameaça à superioridade cubana. Isso aconteceu em 1994, com a vitória do Brasil na segunda edição do Grand Prix, torneio no qual Cuba finalmente perdera para o time comandado por Bernardinho. E foi, justamente, com a chegada do técnico à Seleção, em 93, que o Brasil pôde atingir esse nível. Além de sugerir um distanciamento das brasileiras em relação às cubanas em momentos anteriores aos jogos, o treinador decretou uma mudança nos treinos, buscando melhorar a parte física das brasileiras, afirma Fofão. “Ele dizia que o Brasil tinha muita habilidade, mas não tinha a força que as cubanas tinham. Então, se conseguíssemos igualar a força, ganharíamos”. Foi quando, então, as brasileiras começaram a jogar de igual para igual e a encarar as adversárias. “A gente já não era mais a equipe que tinha medo. Aí a história mudou totalmente; aí as provocações começaram”, conta.

Em 94 aconteceu também o Campeonato Mundial, torneio jamais vencido pelas brasileiras e cujo país-sede foi o Brasil. Na final, Brasil e Cuba se enfrentariam novamente. Na ocasião, as cubanas estavam certas quanto à vitória e apareceram no ginásio com rolinhos nos cabelos. Mireya Luis explica, durante a produção do documentário Pátria, de Fábio Meira, qual foi a provocação: “Não vamos dar ao Brasil o gosto de que nos despenteiem. Vamos chegar penteadas em Cuba.” E, de fato, massacraram o time brasileiro pelo placar de 3 sets a zero.

As Olimpíadas de 96

O próximo encontro marcante aconteceu já nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Ainda na fase de grupos, o Brasil surpreendeu as caribenhas pelo mesmo placar da final do mundial. As duas equipes voltaram a se enfrentar na semifinal. E foi nessa partida que os ânimos realmente se exaltaram.

O Brasil venceu o primeiro set. E, na conversa entre o técnico e as jogadoras cubanas, pesaram os dois jogos já perdidos na fase de grupos (contra Brasil e Rússia). “‘Vocês não ficam com vergonha? O comandante, certamente, está em frente à televisão, vendo vocês perdendo para essas equipes sem nível’”, narra Mireya Luis.

Cuba empatou, mas o terceiro set também foi das brasileiras. “E aí foi quando me nasceu a estratégia de ofender as brasileiras”, admite Mireya. Começaram, então, as provocações na rede. “Vamos falar todo tipo de coisa, o que a gente quiser, o pior que podemos dizer a uma mulher”. E a virada de Cuba começou a se esboçar. Buscando neutralizar o jogo brasileiro, as cubanas continuavam com as comemorações provocativas e incitavam a raiva das brasileiras. Virna Dias, ex-ponta do Brasil e, também, protagonista desse jogo, conta ao diretor Fábio Meira: “Nesse jogo elas conseguiram. Algumas jogadoras erraram por excesso de vontade de acertar.”

O quarto set e o tie-break foram vencidos por Cuba. Mesmo após a classificação para a final, as cubanas continuaram as exaltadas comemorações. Ana Moser foi até a rede e pediu respeito para as adversárias. “Eu disse: ‘Agora chega. Já foi até agora; chega. Vocês já ganharam, chega’.” Depois disso, foi grande a troca de xingamentos e a confusão se direcionou para fora da quadra.

Ana Paula conta que apanhou no caminho dos vestiários. Mas, Regla Torres nega com firmeza. “Eu, com a raiva que estava, se tivesse encostado um dedo na Ana Paula, ela nunca mais jogaria voleibol, estou certa disso”, afirma a cubana.

Ana Moser pede respeito às cubanas após o apito final da derrota do Brasil (Imagem: Agência Estado)

Grand Prix de 96

E não foi apenas nas Olimpíadas de 1996 que houve confusão entre as duas potências do voleibol feminino da época. Depois de cerca de um mês iniciou-se o Grand Prix, competição que se tornaria mais um cenário para a rivalidade entre cubanas e brasileiras. O formato do torneio era de pontos corridos e, no quadrangular final, as duas Seleções voltaram a se enfrentar. Porém, desta vez, o Brasil venceria as campeãs olímpicas da época.

A jogadora Ana Paula, que se envolveu na confusão do último jogo, decidiu provocar as cubanas no fim da partida, iniciando, assim, outro conflito entre os dois times. Ela, por pouco, não fora agredida por uma cubana, segundo Fernanda Venturini, ex-levantadora da Seleção Brasileira de Voleibol, em uma entrevista ao Arquibancada: “Nesse Grand Prix, na saída para o vestiário, a Ana Paula tinha provocado e, quando eu deixava a quadra, vi a Regla Torres escondida atrás da cortina. Sorte que eu vi e gritei: ‘Corre, Ana Paula!’. Ela ia pegá-la de jeito se eu não tivesse visto”.

Embora a violência física tenha ocorrido, de fato, em apenas dois episódios entre as jogadoras, Fofão contou que as provocações não pararam até a virada do novo milênio: “Depois de 96, a gente foi até 2000 aguentando a provocação das cubanas porque elas ainda achavam que era uma maneira de neutralizar o nosso jogo, de deixar a gente intimidada.”

Hoje

O rendimento do time cubano, a partir da virada do século, vem sendo insatisfatório em comparação com a Seleção da década de 1990. Ao contrário do Brasil, o time caribenho não participou das duas últimas Olimpíadas, o processo de renovação não foi feito com êxito e a gigante Cuba de antes não traz medo ao atual cenário mundial.

Questionada se hoje ainda existe alguma rixa entre as ex-jogadoras que foram protagonistas das brigas do fim do século passado, Fofão afirma que não. “É uma coisa de jogo, a rivalidade que existiu era mesmo dentro de quadra”.

Sobre uma possível rivalidade entre as Seleções atuais, a ex-atleta  acredita que só ocorreria se Cuba voltasse a ser um time vitorioso. “Quando elas conseguirem jogadoras fortes, que lembrem um pouquinho as características daquelas jogadoras, pode ser que seja reacendida essa chama que está dentro delas”, disse.

Curiosidades

No último ranking de melhores Seleções divulgado pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB), em 2016, o Brasil ocupava a 4ª colocação, já Cuba, a 23ª. Porém, a Seleção Cubana já pôde comemorar vitórias em todos os principais campeonatos da categoria, a Brasileira, no entanto, ainda não conseguiu vencer a Copa e o Campeonato Mundial.

Confira abaixo a tabela com a quantidade de medalhas que as duas Seleções conquistaram ao longo da história nos principais torneios de Voleibol Feminino do Mundo.

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

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