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Ronaldo Fraga: Militância que fere?
Guardarroupa
03 maio 2019 | Por Sala 33

Por Mayara Prado

mayaraprado@usp.br

Na última sexta, dia 26/04, ocorreu o desfile da coleção verão de Ronaldo Fraga durante a 47ª edição do São Paulo Fashion Week. O mineiro trouxe para o show um posicionamento claro quanto aos problemas sociais presentes no país, carregado de uma crítica que até então carecia no evento.

[Créditos: Vogue Brasil]

Por meio de cores vibrantes, um casting diverso, uma maquiagem atordoante que desconcerta o espectador – com o uso  do batom vermelho borrado, o qual sugere momentos de luta –, e o uso de capacetes de guerra, – sendo cada um com um adorno carregado com uma mensagem específica–, Ronaldo propõe expor o Brasil.

O estilista, em um primeiro momento, questiona a concepção que se tem de brasilidade ao mostrar um capacete com as orelhas da Minnie (um dos símbolos da Disney), representando a clara influência da cultura norte-americana sob os brasileiros. Além disso,trouxe elementos que representam a nação para aqueles de fora: o café, produto de grande exportação nacional, que, além de tudo, teve sua origem relacionada ao trabalho escravo negro; bem como o adorno com o rosto de Carmem Miranda, que simboliza o tropicalismo e a sensualidade do país aos olhos de Hollywood.

[Créditos: Vogue Brasil]

Outro aspecto interessante do desfile é a forma com que Ronaldo relaciona o cristianismo à pautas, muitas vezes, ignoradas pelos seus praticantes. Basta fazer a conta: o Brasil é o país que mais mata indígenas atualmente e é um dos que mais extermina jovens negros, mesmo tendo cerca de 86,6% da população composta por cristãos (de acordo com o IBGE de 2016). O mineiro coloca os negligenciados pelo povo como o foco da arte sacra. Nos dias de hoje, esses são o que sangram na cruz e são torturados com os espinhos distribuídos pela sociedade.

[Créditos: Vogue Brasil]

O desfile também aborda acontecimentos recentes que assombram o país. O capacete, que escorre sangue das bandeiras LGBTQ+, denuncia o genocídio que esses sofrem, visto que o Brasil é o país onde mais se mata integrantes desse grupo no mundo, segundo o site do Senado. A camisa, vestida por um jovem negro e que possui uma estampa de tiro no peito, pode ser facilmente associada ao caso de Evaldo dos Santos, que teve o seu carro coberto por 80 tiros ainda em abril deste ano. O capacete que possui livros de história, filosofia e geografia também tem relações com o momento atual.O presidente Jair Bolsonaro, por meio de seu Twitter, questionou a importância de investimentos nessas áreas, pois, ao seu ver, não são lucrativas o suficiente.

[Créditos: Vogue Brasil]

Os acessórios produzidos por Ronaldo também merecem um enfoque especial. A  bolsa em formato de gaiola questiona a ideia de liberdade: será que o brasileiro, perante a tanta violência, é realmente livre?

Além da bolsa, é apresentado um par de sapatos que possui o rosto de Marielle com um alvo na testa, e o desenho de uma mão fazendo o gesto de uma arma, que é apologia à violência, bem como um dos slogans da campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Sobre isso, o mineiro afirma, em uma entrevista para a revista Marie Claire: “não ia passar despercebido, o genocídio indígena, do povo negro, gays, das minorias, e de questões ambientais… não tem como falar disso sem falar da nossa história recente, e a Marielle é um símbolo dessa causa que ela defendia”. Todavia, o uso da imagem da ex-vereadora não foi bem aceito por grande parte do público e pela família dessa, já que o estilista utilizou a imagem dela sem consultá-los.

Vale lembrar que Marielle foi assassinada em 2018 e seus familiares ainda sofrem com a perda de um ente querido. O rosto da militante pode parecer, para aqueles que não eram próximos a ela, um mártir e uma imagem que integra a história nacional; porém, para sua família, ela é uma figura humana amada que não pode mais estar perto deles. É emocionalmente degradante avistar o rosto de alguém que foi perdido, ainda mais por meio de um assassinato tão brutal, estampado em

diversas roupas, podendo ser avistado em todos os lugares, especialmente por intermédio das redes sociais.

Sobre o ocorrido, Anielle Franco (irmã de Marielle) revelou em suas redes sociais: “as pessoas precisam entender que a morte da Mari vai muito além de ideologia política e que por trás dessa morte existe uma FAMÍLIA DESPEDAÇADA que ainda hoje sofre com essa violência”.

O estilista, após as declarações de Anielle, a telefonou e pediu desculpas por sua atitude, além de se comprometer a não vender as peças com o rosto de sua irmã, doando essas para a família da vereadora.

O desfile, em suma, aborda assuntos necessários e que carecem espaço no mundo da moda, além de possuir uma bela e impactante estética. Porém, não adianta militar nas passarelas e ignorar a dor das verdadeiras vítimas, que ainda sofrem a violência vivida.

 

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