Na quinta-feira, a 10ª Semana de Fotojornalismo trouxe a discussão sobre os desafios da profissão. Vinícius Gomes, membro dos coletivos Afroguerrilha e Remirar e ganhador da Saída Fotográfica da 9ª Semana de Fotojornalismo, foi o mediador dos debates entre Ana Carolina Fernandes, que já trabalhou em grande veículos e atualmente trabalha com fotojornalismo independente, e Sérgio Silva, também independente que ficou famoso ao ter seu olho atingido por uma bala de borracha dispara pela Polícia Militar durante os protestos de junho de 2013.

Ana Carolina abre as discussões falando dos desafios do fotojornalismo, principalmente em se tratando de trabalho independentes. Ela fala dos riscos que a profissão traz, em especial o fotojornalismo de rua. Os três profissionais que compuseram a mesa têm uma história semelhante envolvendo perigos do fotojornalismo: Ana Carolina foi diversas vezes agredida durante coberturas de rua, Vinícius Gomes teve sua câmera destruída por um policial militar enquanto cobria uma manifestação em favor do impeachment, e Sérgio Silva, após perder a visão do olho esquerdo em decorrência do tiro de bala de borracha, esse ano foi considerado culpado na justiça brasileira por sua própria lesão e não poderá receber indenização do Estado.

Após a sua apresentação inicial, Ana Carolina mostrou ao público suas fotos durante as manifestações de junho de 2013 e a cobertura que fez em Mariana após o desastre ambiental provocado pela Samarco. No fim da apresentação das fotografias, Vinícius destacou o quanto as fotos tiradas nas manifestações de junho eram muito próximas da cena e questionou a fotojornalista sobre como fazer fotos dessa maneira sem correr riscos. A profissional responde que o fotojornalismo exige que você esteja presente para poder contar da melhor maneira a história daquele momento. Ela utiliza como exemplo um momento que foi cobrir uma manifestação em frente a Alerj, em que decidiu fazer as fotos de cima de um caminhão. Apesar de estar mais segura em cima do caminhão, suas fotos teriam ficado muito melhor e mostrariam com mais precisão o quão turbulenta aquela manifestação tinha sido se tivesse tirado no meio do acontecimento. Outro fator que a faz estar tão perto da ação é o uso apenas de lentes 35 milímetros, ela conta.“Eu acho interessante trabalhar com grande angular mesmo e estar ali dentro da ação”.

Em seguida foi a vez de Sérgio Silva se apresentar. Ele começa contando que é um fotojornalista recente, tendo apenas 5 anos de profissão. Sempre foi independente e nunca trabalhou em grandes veículos. “Eu entrei no fotojornalismo porque eu nunca acreditei nas notícias que lia nos jornais e via na televisão. Ao mesmo tempo, eu sempre senti o poder da comunicação”. Sérgio conta que sempre viu a informação como um privilégio de uma classe social do país e, apesar de trabalhar nos grandes veículos ser vantajoso do ponto de vista salarial, esses veículos só produzem pautas que sejam interessantes para eles e não necessariamente aquilo que precisa ser mostrado.

Ele conta que desde 2011 tem um interesse maior por manifestações, e não só apenas as manifestações sociais de rua, mas o carnaval e muitas outras. No episódio de 13 de junho de 2013, que foi quando o fotojornalista sofreu a violência, ele explica que a PM, naquela noite, estava apenas cumprindo ordens. Segundo ele, a polícia enviou poucos homens para acompanhar os manifestantes que eram em número muito superior e, quando a situação se complicou um pouco, aqueles policiais cumpriram a ordem que receberam que era atirar em todos que estavam ali. “Eles não atiraram em mim porque eu estava ali fotografando, eles atiraram em todo mundo que estava ali”.

Sérgio também comentou sobre a importância do fotojornalista mostrar também o outro lado. Ele cobriu a manifestação de 15 de março de 2015 em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ele não concordava com aquelas reivindicações, mas era fundamental que ele também mostrasse aquele lado da política no país. Contudo, uma coisa que ele observou naquele tipo de manifestação era a ausência de repressão policial, tal como viu nas manifestações de esquerda que frequentou.

Ele enfatiza que não quer ser lembrado como “o fotojornalista que perdeu o olho durante as manifestações de 2013”, seu foco é continuar o seu trabalho apesar desse acontecimento. Para ele, mostrar o que aconteceu depois da notícia é tão importante quanto. Para isso, ele apresentou ao público suas fotos feitas durante uma ocupação escolar e a Ocupação Esperança em Osasco, que ocorreu após um incêndio destruir várias casa em uma comunidade da região. Sua intenção, ao cobrir as ocupações, era mostrar que aquilo que a grande imprensa veiculava de que os estudantes estariam destruindo o patrimônio público não era verdade, os estudantes estavam trabalhando para manter a escola em perfeito estado. Na Ocupação Esperança ele retratou o trabalho dos moradores para reconstruir suas casas, e de maneira ainda melhor do que antes do incêndio. As suas fotografia na Ocupação Esperança foram utilizadas em uma campanha de arrecadação de fundos para a reconstrução. Então, além de retratar o fato, Sérgio mostra maneiras que o fotojornalismo pode ajudar as pessoas.

O mediador abriu as perguntas ao público. Ana Carolina Fernandes foi questionada sobre como é ser uma fotojornalista mulher em uma profissão tão predominantemente ocupada por homens. A fotojornalista responde que o machismo está inserido na cultura brasileira de todas as formas e não só no fotojornalismo. Ela conta sobre os momentos que trabalhou em Brasília e se sentiu muito assediada pelo meio político. Então, a mulher se vê obrigada a se impor nesse meio para conseguir trabalhar. É um outro desafio acrescentado na profissão apenas por ser mulher.

O evento se encerrou com um sorteio de uma revista Zum do Instituto Moreira Salles e um leitor de cartão de memória 3.0 feito pela World View que está patrocinando o evento com a Canon T5i que será dada para o primeiro lugar da Saída Fotográfica. Nessa sexta-feira o evento trará uma retrospectiva dos últimos 10 anos da Semana de Fotojornalismo, que contará com a presença de Gabriela Biló do Estadão, Felipe Abreu da Revista Old, Atílio Avancini da ECA-USP, com mediação de Isabela Lanave do fotocoletivo R.U.A. Além da divulgação dos ganhadores do concurso fotográfico. No encerramento haverá um coffe break.

Por Carolina Marins
carolinamarinsd@gmail.com

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