“a mesma força / que um ser-humano / exerce / na quebra / também exerce / na cria / arrebenta / destrói / e esfarela / na mesma medida / que constrói / fortalece / e edifica”

– Castello Branco, no livro Simpatia (2016)

Quando se fala em MPB, nomes como Chico Buarque, Elis Regina e Gilberto Gil surgem fortes em nossa memória. No entanto, passado já mais de 30 anos dos grandes sucessos desses mestres, é tempo de achar novos ícones desse tão rico segmento. Cícero, Tiê e Marcelo Jeneci talvez sejam alguns desses representantes, mas a verdade é que numa era cada vez mais digital, muitos artistas acabam não alcançando o mesmo destaque na mídia que outros. Lucas Domênico Castello Branco Gallo, ou só Castello Branco, é um deles; por ora. Detentor de um sorriso acolhedor e acostumado a se referir às pessoas por “amado”, Castello é figura do Sala33 de hoje, concedendo uma entrevista para contar melhor sua história

Apesar de ter nascido no badalado bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1986, Castello foi criado por treze anos de sua vida em um monastério na serra carioca, onde compartilhou seus primeiros anos ao lado de sua mãe de nascença e outras três também mães – como gosta de lembrar das mulheres que o acompanharam durante sua infância. Para ele, o amor materno é a mais poderosa das relações, “essa sensação de ter muitas mães, talvez tenha deixado meu terreno muito mais sensível. Elas me deram um discernimento de percepção”. Foi onde também aprendeu violão e teve suas primeiras atividades de coral, e desde lá nutre uma admiração por Enya, que ele diz ter sido o único outro tipo de música que ouvia além dos cantos gregorianos. “Ela tem um discernimento de som que se você permite, você se transforma naquilo. É um som muito profundo, místico, que não precisa dizer muita coisa para mexer com você”. Por outro lado, ele também diz que sua criação rigorosa deixou traumas comportamentais, que muito tenta reverberar em suas canções. Mas de fato, dessa época, o grande presente que leva são suas mães, a quem dedicou o álbum Serviço (2013).

 


(As Minhas Mães)

“e / por alguns segundos / me emocionei / entendi a mãe / e o trabalho de resgate”

– Castello Branco, no livro Simpatia (2016)

 

Sua revelação no cenário musical, no entanto, se daria antes como vocalista na banda R. Sigma, na época, uma das promessas do novo rock brasileiro. Desde aqui, Castello já vinha se destacando nas composições de músicas como Borboletas e De Pé, onde mesclava o lirismo de suas letras com imagens aparentemente simples do dia-a-dia – “o que foi comigo é a minha necessidade de dizer algo meu”. Mesmo finalizada em 2012, Castello levou muitos dos parceiros de banda e influências a seus projetos seguintes. Tomás Tróia e Diogo Strausz, integrantes do R. Sigma, por exemplo, ajudaram a produzir Serviço. Já as distorções metálicas e a voz solta da banda se reencontram em Kdq. A diferença é que em Serviço isso divide espaço com muitos outros interesses, como faixas inteiramente instrumentais (Entreaberta), outras repletas de batuques (Tem Mais Que Eu), e outras ainda de voz intimista (Acautelar). Como Castello comenta, “uma banda é uma negociação de gostos, uma mistura de coisas. Na carreira solo tem um pouco de tudo, porque de fato um pouco de tudo é o que eu gosto”.

 


(Tem Mais Que Eu)

 

Além das referências, grande parte da força de suas canções reside justamente em suas letras. Não só brincando com a musicalidade das palavras, Castello muitas vezes altera ou acrescenta uma ideia ao sentido que vinha trazendo, fazendo com que cada novo verso seja uma descoberta singular de se acompanhar. Peguemos, por exemplo, as duas primeiras estrofes de Crer-Sendo:

 

“Preciso amar de menos / De menos a mim e mais atento / Preciso amar atento / Atento pra não ceder por dentro // Por dentro que está / Por dentro que palpita aqui por dentro / Amar jamais será demais / E equilibrar”

 

Logo de cara, as palavras “amar”, “menos”, “atento” e “dentro” saltam, trocando suas posições e formando um sonoro jogo de sentidos. A ideia inicial é que se ame menos. Essa imagem, no entanto, é logo desfeita: o que se tem é amar menos a si, e mais ao redor. Mas a letra é então mais uma vez sagaz ao retornar à ideia inicial, concluindo que é preciso amar mais ao redor, para que justamente não nos deixemos amar menos a nós. E ainda, se a ideia dos primeiros versos era a de “menos”, o penúltimo da segunda estrofe dirá exatamente o contrário, alertando-nos, como o último verso, do equilíbrio com que devemos amar. Numa análise espacial, “menos” e “demais” são também as palavras mais distantes, denotando também uma harmonia da letra. Assim, o equilíbrio rítmico e temático, e as ideias e palavras simples que dão suavidade às canções estão presentes em grande parte de suas composições, , tornando-as sonoramente ricas e agradáveis.

 


(Crer-Sendo)

 

Curiosamente, quando questionado da letra que mais o agrada, Castello responde justamente uma que não tem: Palavra Divina. “As palavras são perigosas, porque a gente coloca onde quiser e cria elas para imprimir símbolos, sendo que muitas vezes os símbolos não precisam de palavras”. De fato, a música por si só já é um símbolo, que muitas vezes ecoa muito mais do que as palavras em si. Como ele ainda completa, “parece que (quando) eu digo essas coisas, eu vivo isso 100% do meu dia, mas não, inclusive, escrevo certas coisas para me lembrar delas”. Palavras estas que muito vêm de seu melhor método de aprendizagem: a observação – “eu preciso viver as coisas para sentir e traduzir”. Ele comenta, por exemplo, que os versos de Céu da Boca saíram dele “observando o relacionamento” de outras pessoas.

Aliás, foi guiado por esse entusiasmo que Castello caiu na estrada, onde passou os últimos três anos tendo experiências que ele sintetizaria no livro de poemas Simpatia (2016, que só é possível ser adquirido com o próprio). Nele, ele coloca o que aprendeu com os relacionamentos e paixões que desenvolveu, as percepções e sensações que teve tomando ayahuasca, ou frases que ouviu ou mesmo disse; em outras palavras, é uma reação às “coisas que despertam, comovem ou agridem”.

 

“Sobre começar algo / nunca vi coisa tão burra e / inteligente ao mesmo tempo / burra porque tudo acaba / inteligente porque tudo acaba”

– Castello Branco, no livro Simpatia (2016)

 

Para isso, em alguns poemas, uma preocupação foi conseguir não apenas ver, mas sentir o outro. E nisso ele diz ser importante estar e se fazer presente no dia-a-dia das coisas, para entendê-las melhor. Assim, não à toa o livro traz logo em sua contracapa a frase “Nascer do sim sem som”, pois assim como Palavra Divina, o mais significativo às vezes não se encontra nas palavras, mas nas entrelinhas. Ele explica então que a “simpatia” do título não é a busca com o outro, mas aquilo presente em todo indivíduo na sua essência; ou você tem ou você não tem. E é por isso que não há um certo, pois cada um tem seus próprios jeitos e símbolos para se expressar.

 

“Já morri diversas vezes / na minha cabeça / nenhuma delas me levou / a total compreensão / do que é o ser infinito / \ / somente uma coisa / me fez enxergar e / experienciar isso / / / o outro”

– Castello Branco, no livro Simpatia (2016)

 

Essa pujança pela expressão se deu para Castello nas reflexões que compõem suas sínteses (Serviço e Simpatia), como ele gosta de chamar. Sínteses de suas vivências e de sua formação passada que agora alcançam uma nova etapa: a música eletrônica – “estou num momento de entender o som, (que será) o próximo disco (ainda sem nome)”, com lançamento ainda para esse ano, e com alguns singles e clipes também já programados. Equiparada a outras metrópoles da música, São Paulo cresce cada vez mais no cenário eletrônico: além de artistas como Céu e Mahmundi, que já utilizam desses recursos em suas músicas, temos hoje um dos DJs mais proeminentes de deep house do mundo, Alok. Castello já alerta que o disco não será apenas eletrônico, pelo prazer que tem pela composição e por querer equilibrar a comunicação. “Grandes gênios já exploraram a MPB, já a música eletrônica (ainda) é um bebê. É a síntese do som”, defende, maravilhado com a ideia de que os sintetizadores, como diz o nome, são aparatos que sintetizam o som.

Dessa vez, ele pretende fazer o lançamento de forma mais profissional que em Serviço (que não tinha pretensões comerciais) – embora se orgulhe muito da intenção que tinha e do alcance que teve. Na verdade, com Simpatia, Castello vem traçando uma rota que una todas as produções num caminho cada vez mais maior de sínteses, que suscite enfim em uma única obra. Castello, que apesar de observar e tentar se fazer presente em suas produções, se vê apenas como “um instrumento de uma frequência maior” que, bastando permitir-se a conhecer o outro, acaba ao fim pelo menos tentando conectar-se ao máximo a tudo e a todos.

“Permitir é um gesto sagrado”

– Castello Branco, no livro Simpatia (2016)

Por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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