Veep

Há alguns anos, quando falávamos em Julia Louis-Dreyfus, era difícil pensar em outra coisa que não Seinfeld (1990 – 98); talvez forçando a barra, alguém a lembre em Saturday Night Live (1975 – ). Mas isso mudou em 2012, quando a política desbocada Selina Meyer lhe garantiu por 5 anos seguidos o Emmy de melhor atriz em série de comédia, por Veep (2012 – ). Agora nessa sexta temporada (que estreia hoje), a ex-presidente Selina tenta manter sua popularidade participando de programas de televisão para divulgar seus projetos e causas sociais. E com isso mantém a persona que construiu ao decorrer das temporadas: publicamente consciente e respeitosa (como a campanha para o tratamento da AIDS), mas que pelos fundos debocha e varre para os cantos tudo o que discursa (numa cena, um senhor grita que a ama, que foi uma ótima presidenta. Ela vira para agradecê-lo, mas quando percebe que o homem é na verdade um mendigo, vira as costas e segue em frente).

Caricatura esta que a faz tão carismática e engraçada. Seja pelas tentativas de parecer íntegra, seja pelas patadas que dá nos outros. Algumas, por outro lado, surgem de forma mais dramática, como o descaso com que trata sua filha, Marjorie (Clea DuVall) – o que ainda é mais acentuado pela maneira totalmente contrária e carinhosa que o faz com sua outra filha, Catherine (Sarah Sutherland). Mesmo assim, a comicidade consegue imperar. Em algumas circunstâncias, no entanto, os roteiristas erram o tom com piadas sobre trans e gagos, reforçando estereótipos bastante criticáveis a uma série tão empoderada.

Empregando uma linguagem levemente documental, com câmeras caóticas que dão a sensação de que de fato estamos nos backstages de uma corrida presidencial, o episódio se encerra com a promessa de que Selina concorrerá mais uma vez à presidência. Se fosse por ela, inclusive, já estaríamos lá, mas faltam as alianças. E nisso, podemos ter certeza que Dreyfus será implacável para tirar as risadas mais improváveis de cada uma das situações até o fim sonhado.

The Leftovers

Além dos grandes dramas da HBO (Game of Thrones (2011 – ) e Westworld (2016 – )), existe uma gama de séries menos conhecidas que segue com um público igualmente fiel. Uma delas é The Leftovers (2014 – 17). A trama que mistura apocalipse, religiosidade e drama familiar entra agora em sua terceira e última temporada, mais intrincada do que nunca, que também retorna hoje às telinhas.

Após voltar da morte certa, Kevin Garvey (Justin Theroux) retoma o posto de policial, precisando lidar com a ameaça de que algo grave aconteça, em proporções semelhantes às do desaparecimento de 2% da população mundial durante a “Partida”. Antes de revisitarmos as personagens, os primeiros dez minutos do episódio se ocupam de narrar um pequeno conto de desilusão com a fé, onde uma vila medieval vai pouco a pouco desacreditando das promessas de fim do mundo. Ao fim do trecho, a família que acompanhávamos é desmembrada, com pai e filho abandonando a seita, enquanto a mãe se mantém fiel a seus princípios. Ao fim do episódio, talvez como reflexo de toda dimensão cética com relação à religião, essa mesma mulher voltará muitos anos depois, só, desacreditada e, de certa forma, amaldiçoada pela farsa que viveu tão fortemente.

Frente a essas imagens, chegamos a um Texas totalmente tomado por hippies, religiosos e pessoas de todos os cantos, esperando a revelação que se dará em 14 dias. Aura essa que é ainda reforçada pelos evangelhos de Matt Jamison (Christopher Eccleston). No entanto, não é somente a cidade que se envolve nessa bolha milagrosa, como também Kevin, que pelo histórico de ressurreições, passa a ser tomado por Matt e outros amigos como o próprio Messias – história que eles começam a documentar numa espécie de Novíssimo Testamento. Inclusive, a imortalidade de Kevin nos é lembrada numa breve cena em que ele se sufoca com um plástico, aparecendo logo a seguir caminhando pelas ruas.

Complexificando ainda, Dean (Michael Gaston) reaparece para alertar Kevin de que o ser que deixava os cães raivosos se adaptou, e começou a se hospedar em seres humanos. Não só isso, como as provas que ele reuniu apontam que o hospedeiro foi um político, ao que ele supôs ser uma ação que pretende chegar até o presidente dos EUA. Negando a hipótese, Dean tentará assassiná-lo, sendo morto antes pelo filho de Kevin, Tom (Chris Zylka). Por fim, corroborando ou não, um cão corre em direção à Dean e come justamente a prova (lanche que possuía DNA canino).

Prometendo intercalar todas essas linhas narrativas durante a temporada, The Leftovers infelizmente acaba confundindo às vezes o estranho com um melodrama novelesco, fazendo algumas cenas muito mais cafonas do que misteriosas – como na constante contemplação com que Kevin olha para Nora (Carrie Coon). Essa estética é ainda reforçada pelos flashbacks a cada ideia que remonta a algo ocorrido nas temporadas anteriores. É claro que para atender à grande massa, ainda mais se considerarmos que a segunda temporada já data de dois anos, é nada mais do que justo que haja essa lembrança. No entanto, não há como negar a breguice dessas inserções.

No mais, aqueles que já puderam conferir a temporada na íntegra elogiam muito o desfecho e condução de uma das tramas mais complexas e bizarras da TV americana – garantindo por ora seu 9.8, de 11 críticos, no Rotten Tomatoes.

Por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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