O hip hop não começou com Snoopy Doog e Dr. Dre nos anos 90, culminando, hoje,  no icônico hit pop, One Dance, do Drake. A história do hip hop começa nos anos 70. Enquanto  o disco estava no topo das  paradas,  na periferia de Nova Iorque, em meio a prédios abandonados, surgia um movimento de subcultura. As palavras, os versos, a rima e a batida não compunham apenas uma música, englobavam toda uma realidade latente. Era uma das únicas formas de resistência e combate às desigualdades da sociedade capitalista.

Filho de negro e latino, Ezequiel (Justice Smith), cujos pais morreram, vive nesse cenário de descaso e abandono da população negra e latina no South Bronx, Nova Iorque de 1977. Por meio das palavras, Zeke expressa seus sentimentos em relação à situação socioeconômica do seu bairro e, principalmente, seu amor por Mylene (Herizen Guardiola) – “esse verão, você pode ser minha garota e eu seu rei?”- escreve em seu caderno de versos no primeiro episódio da série.

Presa pelo conservadorismo do pai, o pastor Ramon Cruz (Giancarlo Exposito), Mylene sonha em ser uma grande diva da música disco, a próxima Donna Sumer, mas para o pai, a música e dança disco eram coisas do diabo, pura encarnação do satanás. No entanto, Mylene nunca desistiu desse sonho, mesmo tendo que brigar com os pais e pedir ajuda para seu tio, Francisco ‘Papa Fuerte’ Cruz (Jimmy Smits).

Momento em que  Shaolin, o dj e os The Get Down Brothers descobrem o beat perfeito para a rima do seu rap

Quando Zeke percebe que Mylene acha que seu amor pode ser um empecilho para o sucesso da carreira na música disco, passa a pensar na possibilidade de aliar sua poesia à música. Com a ajuda de Shaolin Fantastic (Shameik Moore) descobre uma outra Nova Iorque, a Nova Iorque do “the get down” – é a parte da música que todos querem dançar – o famoso break do DJ. Assim, junto com os irmãos Kipling: Ra-Ra (Skylan Brooks), Boo Boo (Tremaine Brown Jr.) e Dizzee (Jaden Smith), Saholin e Zeke formam The Get Down Brothers.

Dirigida pelo exótico Baz Luhaman, conhecido por Moulin Rouge: Amor em Vermelho e O Grande Gatsby, as cenas possuem sua típica paleta de cores muito vibrante. Mas diferente dos seus trabalhos anteriores, há 10 anos o diretor dedica-se a essa série em longa processo de pesquisa e apuração. No entanto, resta-nos uma questão em relação ao seu lugar de fala: como um homem branco de uma cidade pequena no sul da Austrália, acabou contando a versão mais completa e detalhada da origem do Hip Hop norte americano?

Para garantir toda a precisão histórica, Baz contou com a ajuda do jornalista norte-americano Nelson George, uma das vozes mais respeitadas da comunidade negra e da cultura do hip hop. Mas não apenas. Um dos maiores protagonistas do gênero musical, conhecido como Grandmaster Flash, virou produtor e personagem fictício interpretado por Mamoudou Athie.

Grandmaster Flash é uma das figuras mais importantes do hip hop. Quando começou sua carreira na década de 70 no Bronx, ficou conhecido por ter inventado a técnica Quick Mix. Ouvindo discos de pop, rock, jazz, blues, funk, disco, r&b ou música caribenha, ele percebeu que em todos sempre havia uma batida de bateria, um break. Assim, com dois toca discos, ele conseguia extrair o break de 10 segundos de um disco e colocar no outro, criando a ilusão de um break infinito.

“Foi preciso treinar muito para entrar naquela mentalidade dos anos 70, tem que saber muito sobre a época para realmente vivê-la”, afirma Jaden Smith em entrevista ao Good Morning America. Os atores passaram por uma espécie de acampamento com Nelson e Flash. Sem computadores, estúdio, mídia social, sem tecnologia- apenas os dois discos nos toca discos eram o suficiente para contar a origem do hip hop nos anos 70.

Luhmann busca extrair e transmitir a essência desse período na série – um grupo de jovens ambiciosos descobrindo a vida. Só que essência não é apenas o ritmo e a música, é sobre sentimento, perigo, gangues, senhores de guerra, tráfico de drogas, um pouco sobre política e muito sobre grafite. É uma série contada por negros no momento que Hollywood discute a falta de representatividade e os EUA debatem racismo e violência policial.

“Tenha em mente que quando os irmão começa a brincar com palavras, com a habilidade verbal, isso sempre reflete o que está acontecendo política, social e economicamente” – músico Davey D

Cenas reais do South Bronx na década de 70/ Créditos: documentário Decade of fire

O South Bronx de 1977 assemelha-se, mesmo que em uma escala menor, à Aleppo de 2016, só que a destruição do bairro de Nova Iorque era causada por bombas caseiras de negligência policial, corrupção, crime e pobreza. O hip hop nasce dessa rachadura, nesses escombros, e pela primeira vez possibilita concretamente uma oportunidade financeira e criativa para a população negra e jovem com maiores taxas de desemprego e encarceração, diante da casa grande branca de Manhattan.

O hip hop, no entanto, não surgiu apenas como uma forma da população negra marginalizada sobreviver ao capitalismo. O hip hop sempre foi uma ferramenta de resistência cultural a esse próprio sistema. A dança, o grafitte e o rap desafiam o status quo, explicitando o racismo, o sexismo e outras injustiças sociais.

Em 1970, 80% das casas foram devastadas por incêndios, cerca de 100 000 pessoas perderam suas moradias, segundo dados do documentário Decade of fire. Prédios eram queimados, enquanto o poder público fechava os olhos. O bairro mais integrado de Nova Iorque, onde negros e imigrantes porto riquenhos viviam lado a lado, tornou-se um bairro vazio. O medo imperava.

A mídia branca criou um culpado para a situação: era a própria população que queimava seu bairro. Enquanto isso, os moradores o reconstruíam tijolo por tijolo em verdadeiros mutirões auto organizados. Em 13 de  julho de 1977, depois de atingir as máximas com uma onda de calor, um raio deixou o bairro sem luz por 25 horas. Esse episódio é retratado na série, misturando cenas documentais com fictícias,no episódio 3, “A escuridão é sua vela”. Nos vemos dentro de uma realidade de desespero, onde as pessoas passam a invadir os comércios e furtar os itens, que no dia seguinte serão vendidos em um mercado negro.

Com o protagonista Zeke metade porto riquenho, a série mostra a participação latino-americana na invenção do hip hop, assim como influência política na região. O tio de Mylene, Francisco ‘Papa Fuerte’, pode ser considerado como um político populista, um “cafetão da pobreza”, conforme o prefeito de Nova Iorque, Edward Koch, cunhou. Francisco foi inspirado em Ramón S. Velez, porto riquenho que fez um governo voltado para o South Bronx, promovendo serviços médicos e sociais, além de ter transformado a parda nacional do dia de Porto Rico em um grande evento.

Da direita para a esquerda, Boo-boo, Zeke, Shaolin, Dizzee e Ra-Ra/ Crédito: gettyimages

Nessa veracidade de resistência que o hip hop germina. Na sua habilidade de sobreviver, de ensinar como viver, de união e de ser uma forma das pessoas se expressarem, que o hip hop nunca pode esquecer sua raiz, a cultura de desafiar a opressão, enquanto aumenta a consciência.

Tanto o poema de Zeke como a música Levanta e Anda, do Emicida, parecem vir do mesmo local.  “Foi foda porque mesmo sendo uma história original dos EUA, a quebrada é tudo igual. Favela é tudo igual ”, afirma o rapper brasileiro após visita ao set com PapelPop.

A série The Get Down mostrou em seis episódios o início de um movimento dominante nos dias de hoje. E assim como o Hip-Hop se expressa em mais de um formato, get down também é uma forma de dizer que a pessoa pode se expressar e resistir do jeito que quiser, mas precisa ter espaço para isso.

“Em todos os jornais impressos

A morte da Mamãe não foi reportada

Nenhum sopro, palavra ou dica

Eles não ligam para nós negros

Foi como meu pai me explicou

Mas eu não sabia que eu era negro

Até que meu pai declarou

Seis meses depois meu pai estava morto também

Tiros relacionados a drogas disparados

Sua pele ficou fria e azul

No jornal naquela noite

A mulher do Presidente fez um novo corte de cabelo

O cara do jornal disse “Eu gostei e você? “

Nenhuma palavra na Cbs, o que foi isso você pergunta

Adivinhe, caralho”

Zeke, I am the one 

“Eu sei, sei, cansa

Quem morre ao fim do mês

Nossa grana ou nossa esperança?

Delírio é

Equilíbrio entre nosso martírio e nossa fé

Foi foda contar migalha nos escombros

Lona preta esticada, enxada no ombro e nada vim

Nada enfim, recria

Sozim, com alma cheia de mágoa e as panela vazia

Sonho imundo

Só água na geladeira e eu querendo salvar o mundo

No fundo é tipo David Blaine, mãe assume, pai some

De costume, no máximo é um sobrenome”

Emicida, Levanta e Anda

Confira a trilha sonora original da série The Get Down e uma playlist com sucessos do rap nacional e internacional:

Por Giovanna Querido
gioquerido@gmail.com

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