Durante o período de Ditadura Militar no Brasil, muitos lutaram e foram a favor da democracia no país e, por isso, sofreram uma enorme repressão: foram presos, torturados, e muitas vezes até mortos. Mas, e se toda a memória desses brasileiros fosse preservada e sua luta fosse motivo de orgulho para a sociedade atual? E se, hoje, pudéssemos sentir um pouco da dor sentida pelos que batalharam e esse sentimento servisse para nos educar, conscientizar e tornar críticos?

Esse é o intuito do Memorial da Resistência, instituição da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e instalado no antigo centro da capital, onde entre 1940 e 1983 funcionou o DEOPS, Departamento Estadual de Ordem Política e Social. O Memorial foi inaugurado em 2002 sob o nome de Memorial da Liberdade; em 2008, quando já estava vinculado ao prédio da Estação Pinacoteca, teve seu projeto alterado para a preservação e restauração da memória do período Militar do país, e então passou a ter o nome que carrega até hoje.

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Entrada do Memorial da Resistência. Imagem: Reprodução.

 

Nas décadas de 60, 70 e começo de 80, o DEOPS funcionava como local de prisão daqueles que cometiam delitos considerados contra a ordem e a segurança do Estado. Ali, pessoas eram trazidas a todo tempo e jogadas em celas, onde eram mal tratadas e ficavam sem comer por longos períodos de tempo. Além disso, eram interrogadas e obrigadas a dar informações às autoridades, podendo ser torturadas e abusadas de diversas formas quando não o fizessem. Protagonistas do local, as lembranças e os sentimentos de quem por ali passou marcam presença em todo o espaço.

Celas, corredores, grades: A reconstrução da luta

Num primeiro espaço do Memorial, foi construída uma grande linha do tempo, que traz os fatos políticos ocorridos no Brasil e no mundo desde a Proclamação da República em nosso país. Ali, fica fácil identificar a relação que existe entre fatos que acontecem dentro e fora do país (como a ascensão de governos totalitários na Espanha e na Alemanha, por exemplo, quase concomitantemente ao início do Estado Novo de Vargas no Brasil), e como decisões tomadas em outras nações podem influenciar nos caminhos seguidos por aqui. Além disso, é dada ênfase aos mais diversos processos de repressão que ocorreram em nosso país ao longo dos últimos mais de cem anos.

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Linha do Tempo no museu. Foto: Bruna Martins.

 

Mais à frente, surge diante do visitante a reconstituição do cenário vivido pelos encarcerados que ali estiveram, o conjunto prisional. É possível sentir a dor e a angústia ocultos em cada inscrição nas paredes, ou mesmo no corredor que, à época, era vigiado 24h e poucas vezes utilizado pelos presos.

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Corredor onde era possível tomar sol, com o escrito: “A vinda ao corredor era uma vez por semana, por uma hora, uma cela de cada vez. Mas nem todos vieram”. Imagem: Bruna Martins.

Nas antigas celas, chegavam a ficar 40 pessoas em cada, em épocas mais agitadas. Nelas, é possível ver a reprodução de inscrições nas paredes, com gritos de socorro ou mesmo a lembrança de que a pessoa “esteve ali”, de forma muito parecida com a qual eram realmente feitos esses escritos. Em uma das celas, o visitante pode se sentar e ouvir relatos de pessoas que passaram pelo DEOPS; com essas falas, é possível ficar sabendo sobre hábitos presentes no do dia-a-dia na prisão, e também perceber a fraternidade que acabava por existir entre todos os que eram trazidos para ali.

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Sala onde é possível ouvir depoimentos de ex-presos. Imagem: Bruna Martins.

 

Vale destacar, também, que fica claro como a música era de importância fundamental para os encarcerados, podendo trazer um pouco de conforto às suas difíceis rotinas. Uma ex-presa cita, por exemplo, que a música Suíte do Pescador, de Dorival Caymmi, tornou-se símbolo de comemoração daqueles que conseguiam sair do DEOPS.

Ausenc’as e o retrato da dor e da impunidade

O Memorial ainda apresenta a seus visitantes, desde março de 2015, a exposição Ausenc’as (lê-se “Ausências”) do fotógrafo argentino Gustavo Germano. Essa exposição traz imagens antigas de mortos e desaparecidos políticos das ditaduras brasileira e argentina junto de suas famílias, contrapostas a imagens atuais de seus familiares, com o intuito de nos causar a reflexão sobre o assunto, para que não deixemos de lutar pela memória destas vítimas e pelo respeito aos direitos humanos, principalmente no momento atual, em que é tão necessário defender os princípios democráticos do país.

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Duas das imagens apresentadas na exposição Ausenc’as. Créditos: Bruna Martins.

Com a missão de reconstruir e conservar a história política e de repressão vividas por nosso país, o Memorial da Resistência de São Paulo cutuca na ferida: mostra todos os caminhos que levaram o Brasil a condicionar tal cenário e mantém viva a lembrança de toda a dor causada durante o Regime Militar. Vale a pena sentir um pouquinho daquilo que foi vivido pelas centenas de pessoas que passaram pelo antigo DEOPS e compreender que a luta foi e continua sendo de todos nós, brasileiros.

O Memorial funciona de terça a domingo, das 10h às 18h, no Largo General Osorio, 66, na Santa Efigênia em São Paulo; a entrada é gratuita.

A exposição Ausenc’as fica logo na entrada do Memorial e será exibida até dia 12 de julho, então corre que ainda dá tempo de ver!

 

Por Bruna Martins 
bcmartins26@gmail.com

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