O grafite invade a Campus Party

05 de fevereiro de 2017  |  por Sala 33
O grafite invade a Campus Party

A Campus Party Brasil recebeu  na sexta-feira (03) ,em seu Palco Principal, o grafiteiro Eduardo Kobra. Com meia hora de atraso, algo incomum no evento, o artista deu uma palestra sobre sua trajetória na arte de rua para uma das maiores plateias da Campus. Conheça mais sobre ele, que recentemente teve uma de suas obras emplacada no Guinness World Records.

Kobra contou que, apesar da resistência da família, sempre teve vontade de pintar – seja os papéis, quando criança, ou as paredes, quando adulto. “Nada me emocionava tanto quanto pintar”, disse ele. Era mau aluno, sentava no fundo da sala. O grafiteiro mostrou, inclusive, uma advertência do colégio em que estudava ,  recebida por ter pichado o teto da escola.

Começou a pichar as paredes da cidade de São Paulo com 12 anos de idade, em 1988. Nessa época, começou a andar com a turma do rap e hip hop, envolvida com a pichação e o grafite, mas também com o crime. Diante da vida que poderia ter levado, disse ter feito a escolha em prol da arte.

Ele mostrou também seu primeiro trabalho com o grafite, um dragão verde simples, pintado com uma mistura de cal, pigmento e óleo, uma alternativa às caras tintas, que na época não podia pagar. Na disputa urbana entre pichadores e grafiteiros, chegou a ser detido três vezes. Por volta da maioridade foi colocado para fora de casa pelos pais, que não aprovavam o estilo de vida do filho, passando a viver num aperto financeiro.

Foi só quando começou a pintar – qualquer coisa que o pedissem, disse Kobra – no antigo parque de diversões Playcenter que conseguiu fazer seus trabalhos de grafite com segurança. Permaneceu lá por 10 anos, período durante o qual continuou a investir no seu sonho. A partir daí, foi aos poucos espalhando suas obras pela cidade de São Paulo, até conseguir atingir um estilo próprio.

O grafiteiro contou que o momento em que teve contato com o grafite de fora do país foi importante para expandir seu repertório. Esse contato, segundo ele, ocorreu por meio dos livros Subway Art, de Henry Chalfant e Martha Cooper, e Spraycan Art, também de Henry Chalfant e James Prigoff. Ele ainda disse que teve grande inspiração dos artistas de rua estadunidenses na busca de sua identidade.

Falou também da importância da cultura do rap e hip hop na sua formação. Tendo crescido na periferia, ele se enxergava nas letras das músicas, muitas delas com forte teor político e social. O impacto que essa cultura causou nele até se mostra em seus trabalhos, que muitas vezes tentam levantar reflexões acerca de questões políticas e sociais, como uma série de grafites em que tratou da exploração de animais para entretenimento.

Dentre suas influências, Kobra citou o nova iorquino Jean-Michel Basquiat, o mexicano Diego Rivera, Eric Grohe e o icônico Banksy. Descobriu em certo momento as pinturas em murais, com as de Rivera, que também contribuíram para ampliar o que conhecia sobre arte na rua.

Durante seu percurso no grafite passou a enfrentar uma intoxicação por metais pesados devido à tinta que usava. A doença o levou à depressão, chegando a pesar 60kg e tomar 12 remédios tarja preta por dia.

Muro das Memórias, criado por Eduardo Kobra e localizado na avenida 23 de Maio, em São Paulo. Imagem: Reprodução

Kobra contou qual foi a sua inspiração para pintar uma de suas obras mais conhecidas, o Muro das Memórias, que recentemente esteve envolvido em uma polêmica devido ao programa Cidade Linda do novo prefeito de São Paulo, João Doria. O mural, que havia sido preservado pela gestão Doria, foi parcialmente pintado de cinza, a mesma cor que está apagando grafites e pichações dos muros da cidade, em forma de protesto, juntamente com um lambe-lambe com o rosto do prefeito. Apesar disso, ele não fez nenhum comentário sobre o assunto.

Além do Muro das Memórias, o grafiteiro falou de outros destaques de sua carreira. Em “São Paulo: uma Realidade Aumentada”, tentou mostrar problemas da cidade que às vezes passam despercebidos, como a falta de moradia e o desemprego. Falou também dos seus destaques internacionais, dado que já deixou trabalhos em todos os continentes do mundo. O prédio em que pintou sua representação do famoso beijo da Times Square, em Nova Iorque, chegou a ser um dos 10 pontos turísticos da cidade em que as pessoas mais tiravam selfies. O trabalho foi apagado após o dono do prédio ter sido notificado de que o empreendimento se tornaria um patrimônio histórico, e por isso não poderia ser modificado ou vendido.

Mas talvez seu trabalho mais ambicioso foi o que o levou a atingir um recorde mundial. O mural Etnias, feito à época das Olimpíadas do Rio no ano passado, é o maior do mundo. Com 2550m², o mural demorou cerca de 2 meses para ser concluído. Nele, Kobra, com a ajuda de outros artistas, retratou indígenas dos cinco continentes, inspirado pelos aros olímpicos. Ele foi feito após a organização das Olimpíadas se recusar em fazer uma parceria com o artista por questões políticas.

Por Gustavo Drullis
gudrullis@gmail.com

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