Há quarenta anos, em 1974, era lançado um dos discos mais impressionantes e originais de que a música brasileira já teve notícia. A estranheza e o encanto começavam logo no título: A tábua de esmeralda. Seu autor? O carioquíssimo Jorge Ben, que, para muitos, atingiu seu ápice nesse álbum, classificado como o sexto melhor na famosa lista da revista Rolling Stones BrasilOs 100 maiores discos da música brasileira”.

Foto: Reprodução.

Jorge Ben (Jor) apareceu para o grande público onze anos antes, maravilhando críticos e outros músicos com sua voz peculiar e, especialmente, seu modo próprio de tocar violão. Bom, ninguém pode se queixar de que não foi avisado. Afinal, no título de seu primeiro disco (Samba Esquema Novo), de 1963, ele já dizia, em letra garrafais, que era um novo jeito de se tocar samba. Com advertência prévia ou não, o Brasil se rendeu a Jorge.

Não foi antes de ganhar maturidade com o meio fonográfico e com o público que ele se empenhou em fazer um trabalho que misturava duas paixões antigas: música e alquimia. A essa altura já possuía dez discos lançados e vislumbrou nessa temática uma fonte de criatividade. Segundo Jorge, o disco foi feito “ao vivo”, isto é, os músicos gravaram todas as faixas em sequência, com apenas alguns segundos de descanso. Um dos charmes do álbum são os comentários do estúdio que ficaram na versão final.

Mas se engana quem pensa que fazer A tábua de esmeralda foi simples, sendo Jorge Ben um artista já amado e com a carreira consolidada. “Esse disco tem uma história maravilhosa porque só uma pessoa apostou nesse disco. E essa pessoa era o chefe da gravadora, foi o único que apostou e falou: ‘você pode fazer esse disco’”, declarou Jorge numa entrevista recente. Ele fazia referência a André Midani, então presidente da Polygram e um dos nomes mais influentes do mercado fonográfico no Brasil entre os anos 60 e 90, que confiou nessa tema aparentemente estranho. E foi uma das decisões mais acertadas da carreira de Midani, que viu no casamento entre som e alquimia uma obra única na música popular brasileira.

“Época de 70 ninguém sabia o que era ‘alquimista’. No Aurélio não tinha ‘alquimista’. Então eu estava lançando um disco totalmente hermético, com letras diferentes, harmonia diferente. Consegui estudar um pouquinho daquelas harmonias renascentistas pra botar”, completou ele.

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E se ninguém sabia o que raios era um alquimista, Jorge Ben não titubeou e já bradou repetidamente na primeira faixa que “Os alquimistas estão chegando! Estão chegando os alquimistas”, como quem dá boas-vindas a quem o ouvia e iria adentrar naquele mundo fantástico.

A Tábua de Esmeralda, nome que batizou o disco, é o texto mais importante da alquimia, e onde estão definidos os preceitos dessa arte milenar. Ela foi escrita por Hermes Trismegisto, uma divindade originada do sincretismo entre Hermes, deus da mitologia grega, e Toth, deus egípcio do conhecimento, da sabedoria e da magia. “Trismegisto” significa “três vezes grandioso”, pois ele conhece as três partes da filosofia universal, que são a alquimia, a astrologia e a teurgia.

Assim, o mundo foi criado.
Disso sairão admiráveis adaptações,
das quais aqui o meio é dado.
Por isso fui chamado Hermes Trismegisto,
tendo as três partes da filosofia universal.
O que disse da Obra Solar está completo.
Hermes Trismegisto escreveu
com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda.
– trecho da faixa “Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda”

A frase “É verdade sem mentira, certo muito verdadeiro”, que consta na capa do álbum, é o primeiro trecho do texto da Tábua de Esmeralda.

Com um olhar desatento, é de se pensar que o disco tem menos de alquimia do que ele de fato tem. A segunda faixa fala de um “homem da gravata florida”, que, aparentemente, é um sujeito qualquer, um anônimo. Na realidade, Jorge está se referindo a Paracelso, um dos alquimistas mais conhecidos do século XVI, e que foi um médico excepcional, tendo herdado do seu pai o conhecimento místico das plantas e das ervas medicinais, arte chamada de agricultura celeste. Paracelso – que, literalmente, significa “superior a Celso”, um médico romano – costumava usar uma echarpe colorida.

Já em “O namorado da viúva” o protagonista é Nicolas Flamel, talvez o nome mais famoso da alquimia. A esposa de Flamel era rica e já havia sido viúva três vezes, por isso os homens a temiam e, como diz a música, “as apostas subiram dizendo que ele não vai dar conta do recado”.

Apesar de todo o fascínio de Jorge Ben pela alquimia, que ele estudava desde adolescente, A tábua de esmeralda trouxe canções que pouco ou nada têm da magia de Hermes Trismegisto. Jorge não deixa de lado os assuntos mais costumeiros de sua música: as mulheres, os amores, o cotidiano, o futebol.  Em “Menina mulher da pele preta”, até hoje um clássico, e “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, fala-se das angústias e delícias da sedução. “Magnólia” é um inequívoco sucesso que trata de uma mulher amada e de paz de espírito, mas sem deixar de lado trechos místicos, como o de que Magnólia, após uma consulta aos astros, chegará voando numa nave feita de um “metal miraculoso”. Paz que também é objeto de “Eu vou torcer”. Jorge também não deixa de lado sua negritude e canta “Zumbi”, uma das músicas mais poderosas e belas que falam dos povos negros e da escravidão.

A tábua de esmeralda é um disco que não sai facilmente da cabeça e reescutá-lo é sempre uma surpresa. A impressão que dá, afinal, é que Jorge Ben atingiu, com esse disco, a transmutação. Ele conseguiu transformar em ouro o que já era preciosíssimo: a sua criatividade e o seu som. Salve Jorge!

Por Matheus Pimentel
matheus.pimentel.aguiar@gmail.com

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