Contém spoiler

The Get Down é o projeto mais-ou-menos-novo — sua primeira temporada foi lançada em duas partes, a primeira em agosto do ano passado e a segunda, na última sexta-feira (7) — e caracteristicamente ambicioso de Baz Luhrmann, diretor australiano conhecido por filmes extravagantes como O Grande Gatsby (2013), Romeu + Julieta (1996) e, claro, o clássico musical Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001), considerado por muitos o responsável por reviver o gênero neste século. Suas produções são unidas por uma aparência glamurosa e um ritmo frenético, executado por meio de intensos estímulos sonoros e visuais, uma edição repleta de cortes e uma tentativa constante de trazer histórias “de época” para a atualidade e, assim, causar o maior abalo possível: em sua adaptação de O Grande Gatsby, por exemplo, as festas de Jay Gatsby têm magnitude e trilha sonora modernas, recheadas de hip hop e pop com um perfume de jazz. É comum encontrar uma divisão um tanto marcante entre aqueles que amam o diretor e os que não aguentam consumir um segundo daquilo que ele faz.

Em sua primeira produção seriada — ainda que com episódios longos à la Sherlock (BBC) — seu estilo parece encontrar um meio termo mais palatável, seja pela profundidade do tema tratado, pela equipe que o acompanha (em uma entrevista concedida à revista Vulture, Luhrmann conta que o diálogo com pessoas da comunidade do Bronx é constante e necessário) ou pelo formato. The Get Down se propõe a contar a história do nascimento do hip hop, personificada na experiência dos Get Down Brothers, um grupo de garotos adolescentes do Bronx que, junto a um DJ respeitado, começam a introduzir palavras a uma arte que antes se fazia somente com discos de vinil e alguém que soubesse girá-los do jeito certo. O elenco central — composto por Justice e Jaden Smith (Ezekiel Figuero e Dizzee Kipling, respectivamente), Shameik Moore (Shaolin Fantastic), Herizen Guardiola (Mylene Cruz), Skylan Brooks (Ra-Ra) e Tremaine Brown Jr. (Boo) — tem uma química natural e explosiva, adjetivos que, apropriadamente, também descrevem bem todos os outros aspectos da série.

O grande casal da série, em uma virada à la La La Land, se afasta cada vez mais em busca dos seus sonhos

Na segunda parte de uma temporada de 11 episódios, composta por 5 deles, partimos do ápice em que fomos deixados ao fim do sexto episódio da série: os Get Down Brothers acabaram de ter a sua melhor apresentação e provar que seu formato dá certo, Mylene Cruz conseguiu um single de sucesso e um equilíbrio frágil entre apelo comercial e respeito ao seu pai ultraconservador, Zeke conseguiu um estágio que pode levá-lo a uma ivy league. No início dos novos episódios, a narrativa continua em ascensão, ainda que com conflitos: as agendas de Mylene e Zeke os afastam; o tráfico se torna mais pernicioso e engole ainda mais Shaolin Fantastic e toda a comunidade do Bronx; acusações assombram Papa Fuerte. A todo momento, sabemos que o declínio está por vir.

E ele chega. Apesar de, como de costume, alinearmente. Mesmo com um visual vibrante que beira o realismo fantástico, a progressão narrativa de The Get Down nunca abre mão da verossimilhança — apesar de existir, de fato, uma grande ascensão, ápice e queda ao longo dos onze episódios, o caminho está longe de ser uma linha reta. Seu grande tema central — a libertação — torna-se ainda mais latente em sua segunda parte, como se a sede por liberdade adquirisse uma maior urgência na medida que os conflitos — dentro da família de Mylene; entre Shaolin e Fat Annie; e dentro dos Get Down Brothers — se intensificam.

A característica coming-of-age (como se denominam as produções que retratam a passagem da adolescência para a idade adulta) da trama também aflora e se desenvolve nos últimos cinco episódios. Com seus destinos relativamente escolhidos, as personagens — em particular, o casal central — devem lidar com as expectativas alheias e encarar a adrenalina de serem os únicos responsáveis por decisões cruciais acerca da própria vida, cada uma delas com o poder de construir uma pessoa diferente. E vemos essa narrativa em diversos contextos diferentes, ainda que todos dentro do microcosmo do Bronx nova-iorquino: Mylene Cruz lida com a dicotomia da sexualidade e da “decência”, sendo que a primeira alinha-se às suas ambições de estrelato e a segunda está mais próxima de uma família que ela também valoriza; Ezekiel Figuero se vê com uma oportunidade de ocupar um lugar de prestígio em um mundo racista, adequando-se àquilo que os detentores (brancos) do poder esperam dele, ou de forjar um espaço completamente novo de expressão dentro de seus termos; Dizzee Kipling tenta domesticar sua forma de arte arriscada — o grafite — e se aceitar plenamente como um “alienígena”, um homem negro que diverge do padrão de masculinidade que lhe foi estabelecido, marcadamente na sexualidade (Dizzee é, como descrito pelo autor da série, “um bissexual com preferência por um homem chamado Thor”). No coração de todos os conflitos — perpassados por machismo, racismo e lgbtfobia — a grande oposição entre a individualidade e o coletivo: a primeira alinhada ao futuro e inovação e o segundo, ao passado e à convenção. A diferença entre aquilo que se deseja e o que é estabelecido é sempre gritante, deixando claro que nosso núcleo de protagonistas está ali não só para se encontrar como para transcender.

Zeke se divide entre o mundo de respeito das grandes universidades americanas e o movimento que encabeça no Bronx

Ao fim da temporada, o único conflito com um relativo final é o de Mylene: ela escolhe repetidamente o caminho da libertação e do estrelato, atingindo seu ápice na apresentação de uma música ousada em um clube noturno em busca de um papel em um importante filme musical. Em seu lugar, surge o problema clássico do preço daquele estilo de vida: a distância de Zeke, as longas noites que tornam drogas atraentes, a eterna batalha para permanecer relevante em um mundo repleto de estrelas em ascensão.

A autodescoberta de Dizzee permanece, assim como na primeira parte, estranhamente púdica, de um modo que não condiz com a abordagem liberal da série de questões como as drogas. Depois de protagonizar um beijo incompleto — a cena é cortada antes de que ele se concretize de fato — com Thor, as poucas cenas do casal na segunda parte da série parecem pedir por mais ação do que acontece: existe afeto, mas nunca um verdadeiro beijo. É difícil dizer se a intenção é construir o romance lentamente — dada a confusão das próprias personagens — ou se estamos de frente a mais um tratamento injusto de um par homossexual na televisão. Seria estranho partindo de uma produção que se propõe a explorar essa e outras questões sem medo, mas esse é um padrão desagradável que infelizmente esperamos ao consumir obras audiovisuais.

Dentre todos os desenvolvimentos de personagens, dois — nenhum deles no núcleo “jovem” — se destacam: a dinâmica venenosa entre Shaolin Fantastic e Fat Annie se torna mais evidente, e a fragilidade do DJ (e sua resultante tendência à agressividade) vêm à tona e acrescenta uma camada de complexidade que, apesar de deixar a sensação de que poderia ter sido explorada mais a fundo, quebra a ideia de Shaolin como uma figura forte e impassível. Além dele, temos Lydia Cruz, mãe de Mylene, com um belíssimo arco de rebelião contra um marido que, em suas palavras, agora tenta sugar a vida de sua filha assim como fez com ela por anos — nesse caso, é especialmente tocante perceber que a busca da filha por liberdade reverbera na mãe, que, por sua vez, também precisa oferecer apoio à filha para que seus planos sejam bem-sucedidos.

Mylene Cruz rompe com sua imagem religiosa performando “Toybox”

Um aspecto da narrativa — já presente em sua primeira parte — que também merece elogios é seu tratamento completamente multidimensional da questão das drogas: apesar de retratadas como algo perigoso, tanto no núcleo das ruas como naquele do showbiz, seus usuários são mostrados como pessoas normais, funcionais e criativas. Notadamente, temos o grande parceiro criativo de Mylene, Jackie Moreno (Kevin Corrigan), que é dependente de cocaína. Na segunda parte, no entanto, também vemos a droga ser usada casualmente por personagens centrais sem que isso se torne uma parte essencial de sua caracterização.

No plano da forma, temos uma grande inovação na segunda parte da série: sequências de animação. Seguindo a natureza de “colagem” da série — que já misturava imagens originais com fotos e vídeos de arquivo — as ilustrações chegam por meio de um gibi que Dizzee produz para contar a Thor, que foi preso após ser flagrado grafitando, sobre as aventuras dos Get Down Brothers. A partir disso, chegamos ao ponto de ter sequências inteiras de perseguição, por exemplo, mostradas por desenho. Quando questionado sobre essa abordagem no Twitter, o co-criador e produtor Stephen Adly Guirgis disse que foi uma maneira “inspirada nas fanarts (desenhos produzidos por fãs)” de “contar mais da história após a filmagem com os atores ter terminado”. É impossível saber ao certo, mas o formato parece, em alguns momentos, uma tentativa de cobrir um enredo prejudicado por filmagens insuficientes. A inovação é interessante e se alinha à celebração de todas as artes da série, mas o tempo de tela dos atores é reduzido de modo a deixar o espectador com uma sensação de ausência.

Uma segunda temporada ainda não foi confirmada — a equipe e os fãs tentam emplacar a hashtag #RenewTheGetDown (#RenovemTheGetDown, uma referência à renovação do contrato) — e o destino da série é especialmente incerto devido à uma recepção morna quando comparada àquela recebida por outras séries originais Netflix como Stranger Things e, recentemente, Os 13 Porquês. Também há o problema do distanciamento crescente de Baz Luhrmann, que enfrenta dificuldades para lidar com o papel necessariamente presente de showrunner. Segundo ele, no entanto, a companhia tem grande interesse em levar o projeto à frente — e citou uma das executivas, que disse que a Netflix “não tem o hábito que criar grandes personagens e simplesmente jogá-los no lixo”, e reiterou o compromisso que a equipe deve ter com essas vidas que criam. Bons personagens é o que The Get Down tem de sobra. E com tantos arcos sem finalização e tanto potencial não explorado, é impossível imaginar a série terminando aqui.

Por Bárbara Reis
barbara.rrreis@gmail.com

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