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Abram alas para a resistência

As escolas de samba cariocas e seu poder de levar à avenida temas urgentes para a sociedade

Em Cena
13 ago 2021 | Por Laura Guedes (lauraguedes@usp.br)

É de conhecimento mundial que o carnaval é uma das maiores marcas da cultura brasileira. Em meio aos seus múltiplos formatos, as escolas de samba do Rio de Janeiro são personagens populares dentro e fora do país, realizando desfiles antológicos todos os anos. Contudo, é um erro acreditar que essa expressão se resume à festa e diversão. Desde sua existência até os assuntos que levam à Marquês de Sapucaí, as agremiações possuem notável importância em trazer para o público mensagens ignoradas por grande parte da sociedade, servindo — em diversos momentos — como um instrumento de resistência e crítica política.

Entretanto, nem sempre o samba foi uma manifestação enaltecida ou um símbolo cultural. Em 1890, dois anos após a proclamação da Lei Áurea, que extinguiu a escravidão, foi decretada uma lei que proibia a “vadiagem” — quando o indivíduo estava na rua e não comprovava que era por razões de trabalho. Em um país estruturalmente racista como o Brasil, o samba — ritmo criado e difundido pela comunidade preta — foi enquadrado como crime. Caso uma pessoa fosse vista nas ruas com um violão, um pandeiro ou um tamborim, seria levada para a delegacia.

Homem toca cavaquinho

[Imagem: Reprodução/Freepik]

Esse quadro só mudou na década de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Em seu afã pela imagem de uma cultura calcada no nacionalismo, o governante passou a estimular a valorização do samba. Contudo, os sambistas sofriam com a censura a suas composições durante o Estado Novo (1930-45).

Nos dias de hoje, em pleno 2021, as escolas de samba cariocas continuam a desfilar poderosas em um carnaval assistido pelo mundo inteiro. Ao longo de décadas de história, muitos enredos que defendiam causas de resistência e temáticas politizadas foram à Passarela do Samba e refletiram seus tempos. 

 

Ensinando o Brasil para o Brazil

É impossível falar sobre resistência no carnaval sem citar a Revolução Salgueirense nos anos 1960. Nessa década, o Acadêmicos do Salgueiro foi pioneiro: pela primeira vez uma escola trazia um personagem negro como enredo. O carnavalesco Fernando Pamplona trouxe Zumbi dos Palmares — líder do maior quilombo durante o período colonial — como tema em 1960. 

Em 1963, foi a vez de Arlindo Rodrigues levar a trajetória de Chica da Silva — uma mulher escravizada que conseguiu sua alforria e viveu uma vida de rainha ao lado do marido contratador de diamantes no século 18 — para ser estrela da vermelha e branca. Para completar a consagrada trilogia, a agremiação do Andaraí teve Chico Rei, personagem lendário que haveria sido monarca do Congo antes de ser escravizado — após comprar sua alforria, libertou muitos escravizados — em 1964.

Hoje, esses nomes são conhecidos por boa parte da população, mas não era assim até o carnaval revelar essa memória. Assim, inicia-se com afinco a posição que muitas escolas de samba do Rio assumiram em diversos desfiles: ensinar aos brasileiros a história de pessoas essenciais para a formação do país, mas escondidas por opção de uma elite dominante.

Pós-doutora em História Comparada e coordenadora da Liga Universitária de Pesquisadores e Artistas do Carnaval da UFRJ, Helena Theodoro disse à Jornalismo Júnior: “As escolas de samba mostram o Brasil dos brasileiros. Elas contam histórias que só elas contam e que dificilmente o povo brasileiro como um todo conheceria se não fosse através dos desfiles, das letras, das melodias, dos sambas-enredo e dos personagens incríveis”.

Quase 60 anos depois da Revolução Salgueirense, seu legado permanece forte. O mais famoso exemplo dos últimos anos é o desfile campeão de 2019, da Estação Primeira de Mangueira, cujo enredo foi “História Para Ninar Gente Grande”. O carnavalesco Leandro Vieira desenvolveu um trabalho que desconstruiu mitos e falou sobre verdadeiras figuras heróicas da história nacional, contando, como diz o samba, “a história que a história não conta”.

Homem veste a bandeira verde e rosa como capa

[Imagem: Reprodução/Instagram/@felippemoraes]

A verde-rosa contou sobre figuras essenciais da luta dos povos preto e dos indígenas, como Dragão do Mar, Dandara, os negros e indígenas que lutaram pela Independência — “caboclos de julho” —, Luiza Mahin e Luís Gama, Tereza de Benguela os malês e os índios Cariris e Tamoios. Ainda homenageou Leci Brandão, Jamelão e Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018. 

Ao mesmo tempo, rompeu com narrativas comumente ensinadas: classificou como invasão e não como descobrimento a chegada dos portugueses; afirmou que a alforria não veio das mãos da Princesa Isabel, mas da enorme batalha desses grupos; colocou Duque de Caxias sobre caveiras dos povos que dizimou; chamou a Ditadura Militar de assassina e militou contra o racismo.  

A bandeira do Brasil que fechou o desfile — estilizada pela substituição de “ordem e progresso” por “negros, pretos e pobres” — virou um símbolo da resistência contra o racismo e o fascismo crescentes. Assim como o samba-enredo, ela pode ser facilmente vista em protestos organizados por setores progressistas, como no dia 29 de maio, em passeata contra o governo de Jair Bolsonaro. Para o especialista em carnaval Fábio S. Freitas, essa performance mangueirense é a mais antológica — catártica e bem feita — no que diz respeito às pautas politizadas.

[Imagem: Reprodução/Globo]

 

Os orixás representados no carnaval

Segundo a Dra. Helena Theodoro, as cores das agremiações já correspondem aos orixás para os quais seus tambores irão tocar no ritmo dos ogãs. Fica clara a ligação ancestral que o samba possui com práticas religiosas da Umbanda e do Candomblé, o que por si só já é um ato de resistência da cultura negra perante uma sociedade colonial que tanto tentou apagar suas raízes.

Em 1966, Império Serrano e São Clemente foram as primeiras a falarem de orixás no enredo — 30 anos após o início dos desfiles — e começaram uma tradição que se estende até hoje no carnaval fluminense. As duas escolas, naquele ano, realizaram temas relacionados com a Bahia, em referência a Iemanjá. O Brasil naquela época — e, infelizmente, ainda hoje — possuía elevados índices de intolerância religiosa, principalmente contra essa fé. Portanto, a representação dos orixás e de outras entidades dessas religiões ajudou a desmistificar o assunto e gerar mais respeito.

 

Sobrevivendo à Ditadura Militar

Após o golpe militar de março de 1964, a maioria das agremiações intimidou-se e o fluxo de enredos críticos foi atenuado, entretanto, o samba não assistiu mudo ao período. Ainda que mesmo antes do novo regime as escolas já tivessem que dar explicações às autoridades sobre seus temas, com a ditadura, até os figurinos e desenhos das alegorias eram fiscalizados na censura.

De acordo com Fábio S. Freitas, o compositor Martinho da Vila foi o principal nome desse meio a desafiar a censura: Em 1972, o enredo da Vila Isabel era “Onde o Brasil aprendeu a liberdade” e o samba do Martinho foi o escolhido. O tema incomodou os militares, apesar de não haver uma repressão direta ao samba e ao desfile. Em 1974, o samba dele foi cortado nas eliminatórias a pedido dos censores. Ele abordava sobre os danos que a obra da Transamazônica levava aos indígenas da região. A escola escolheu (ou teve de escolher) um samba que exaltava a rodovia. E em 1980, em um enredo sobre o poema “Sonho de um Sonho”, de Carlos Drummond de Andrade, Martinho da Vila escreveu versos onde alfinetava o regime militar com até um ‘a prisão sem tortura’”.

[Imagem: Reprodução/YouTube/Daniel Assumpção]

Em 1969, o Império Serrano trouxe “Os Heróis da Liberdade” para a Sapucaí. Pouco tempo depois da proclamação do AI-5, a escola fez uma clara posição crítica aos ditadores. O samba-enredo teve até mesmo que alterar a palavra “revolução” por “evolução”. Em 1967, o Salgueiro já havia desfilado “A História da Liberdade no Brasil”, cujos ensaios chegaram a ser acompanhados por agentes do Dops.

Nos anos 1980, com o processo de reabertura política, os enredos politizados voltaram a pipocar. A Unidos da Tijuca, em 1981, fez uma crítica aos norte-americanos — aliados do governo — e à presença de suas multinacionais no Brasil, além de efetuar uma metáfora para falar da pobreza e da opressão, com “Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar”.

Macobeba era um monstro que representava esses estrangeiros e Mitavaí era o herói brasileiro que o expulsava. Em 1984, a Caprichosos de Pilares homenageou Chico Anysio e, a partir de seus personagens, abordou a questão política nacional. O carnaval do ano de 1985, que marcou o fim da ditadura, ficou conhecido como o “carnaval da democracia”.

 

A Passarela do Samba após a redemocratização

No ano de proclamação da Constituição Cidadã, a Mangueira mostrou que, para muito antes de 2019, já questionava o modo com o qual foi realizada a libertação dos escravos. “100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?” levava ao público o urgente problema social da falta de auxílio por parte do governo aos alforriados, que foram marginalizados pela sociedade racista em situações de miséria perpetuadas, lamentavelmente, até a atualidade.

Quem viu nunca esqueceu: em 1989 a Beija-Flor entrou na Avenida com um Cristo coberto pela frase “mesmo proibido, olhai por nós”, de Joãosinho Trinta. A gigante de Nilópolis eternizou esse desfile após ser censurada pela Igreja Católica, que não permitiu que a azul e branca trouxesse um Cristo vestido de mendigo. “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” trazia mendigos e miseráveis como protagonistas, contrastando ao luxo costumeiro da escola, que classificou o enredo como um protesto contra a negligência com a população brasileira.

Cristo redentor coberto por sacos pretos e uma faixa que anuncia "mesmo proibido, olhai por nós!"

[Imagem: Reprodução/YouTube/TaNToS CarNAVaiS]

O Império Serrano, em 1996, promoveu uma homenagem para o sociólogo Betinho, expoente da luta contra o regime militar. O momento era complicado para o país com as políticas econômicas do governo FHC, que afetavam direitos trabalhistas. A fome e as desigualdades também cresciam. A figura do intelectual representava a luta contra a insegurança alimentar, o que acentuou a crítica ao governo vigente.

Mais recentemente, em 2017, a Imperatriz Leopoldinense causou repercussão com um enredo defensor dos povos originários. “Xingu – o clamor que vem da floresta” trazia já em seu samba os dizeres “o monstro que roubou as terras dos seus filhos, devora as matas e seca os rios, tanta riqueza que a cobiça destruiu”. Há, ainda, uma menção à polêmica Usina de Belo Monte em “o belo monstro rouba a terra de seus filhos”. O agronegócio reagiu, rechaçando o enredo e se sentindo criticado. 

O vice-presidente cultural da escola, André Bonette, contou ao Sala 33 que a escola não esperava essa resposta desse setor, pois acreditavam que a preocupação com a proteção dos indígenas era unanimidade. Diante disso, ainda que não tivessem a intenção inicial de criticar os ruralistas, Bonette diz que mantiveram a posição de defender o parque do Xingu e levantaram e levantaram a bandeira da questão dos garimpos e dos problemas de Belo Monte. Até mesmo o cacique Raoni, uma das mais importantes lideranças da causa, participou do desfile.

[Imagem: Reprodução/Globo]

 

2018: ares políticos levantam a Sapucaí

O ano de 2018 foi marcante no cenário nacional com uma eleição disputada, uma crise econômica, uma intensa polarização e a ascensão da extrema-direita ao poder. Todo esse ambiente foi refletido em desfiles naquele ano, um dos mais politizados da história, e o sucesso desses temas na avenida abriu caminho para que o mesmo se repetisse nos carnavais seguintes.

Naquele carnaval, campeã e vice-campeã trouxeram críticas explícitas em seus desfiles. A vencedora, Beija-Flor, entrou com enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados na pátria que os pariu”. Com um paralelo entre o romance Frankenstein (1818) e os problemas sociais do Brasil, os nilopolitanos foram incisivos contra políticos e empresários. Houve até a reprodução de uma cena em que crianças retiravam colegas mortos de uma escola.

Escola de samba "Paraíso da Tuiuti" teve pessoa fantasiada de Temer vampiro no carnaval de 2018

[Imagem: Reprodução/Globo]

Em segundo lugar ficou a Paraíso do Tuiuti, que fez um imenso sucesso ao representar o então presidente Michel Temer como um “vampirão”, de modo a responsabilizar seu governo pela retirada de diversos direitos trabalhistas. Sobre o histórico “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, o presidente da escola, Renato Thor, contou à Jornalismo Júnior que: “O enredo foi desenvolvido pelo nosso carnavalesco da época (Jack Vasconcelos). Ele fez uma pesquisa crítica sobre os 130 anos da assinatura da Lei Áurea. Será mesmo que a escravidão acabou? Foi com base nessa pergunta que ele elaborou o desfile. Por isso, nosso último setor do desfile trazia uma referência às ditas reformas trabalhistas, que só prejudicaram os trabalhadores”. Ele ainda complementa que “Nós somos oriundos de uma comunidade pobre, de homens e mulheres batalhadores. Ou seja, temas como esses mexem diretamente no nosso cotidiano”.

Novamente, para além de 2019, a Mangueira já trazia críticas ao governo, com o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, em 2018. O principal alvo das reclamações foi o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que havia cortado verbas para as escolas de samba e não mostrava apreço pela festa tão relevante para a cidade maravilhosa.

Em 2020, a Estação Primeira foi ainda mais afiada ao trazer o “A verdade vos fará livre”. Entre os temas tratados pelo desfile, destaca-se a desigualdade social e as críticas aos “falsos profetas” e ao atual presidente Jair Messias Bolsonaro. A escola ainda retratou a violência policial contra jovens pretos e pobres no país. Além disso, houve menções à causa LGBT, em uma clara oposição a declarações do chefe do Executivo. O samba continha frases como “não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão”.

A coragem e criatividade do carnavalesco Leandro Vieira em 2018, 2019 e 2020 à frente da verde e rosa vêm sendo consideradas, por muitos, como uma nova revolução no carnaval. André Bonette pontua que, com o sucesso desses desfiles de Vieira, outras escolas se sentiram seguras para perseguir esse caminho, uma porta foi aberta.

 

O que vem por aí

Diante de um país que enfrenta múltiplas crises — econômica, sanitária, política e social — e tendo em mente o cenário apontado acima, mais uma vez a Passarela do Samba trará enredos que expressam as angústias e vontades do nosso tempo. Ainda não se sabe ao certo, por causa da pandemia, quando os desfiles serão realizados, porém, as escolas já preparam seus temas.

O Acadêmicos do Salgueiro levará à avenida a “Resistência”. A Dra. Helena Theodoro, a enredista da vermelha e branca nesse carnaval, nos deu um panorama do processo de formação do tema, que fala sobre a resistência do povo preto. Segundo a pós-doutora em História Comparada, é importante ter em mente as primeiras formas de resistir, com destaque para a história da Rainha Nzinga de Angola, que fez uma aliança com o Congo contra o exército português.

Escola de samba salgueiro celebra a resistência política em cartaz alaranjado com punho erguido

[Imagem: Divulgação/Salgueiro]

O culto à ancestralidade também é essencial. A temática passa pela filosofia do Ubuntu, pela introdução de tambores em celebrações católicas e pelas irmandades religiosas feitas — principalmente — por mulheres pretas. A relevância — historicamente apagada pela elite dominante — da luta dos quilombos e dessa comunidade para a economia do país é outra peça-chave nesse estudo. O enredo fecha com a visão da escola de samba: a festa — “festejar é resistir, é dar condição de mostrar capacidade de criar, de estar junto”, complementa Helena.

Outras agremiações também preparam enredos sobre a resistência e história dos negros: “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor” (Beija-flor), “Fala, Majeté! Sete chaves de Exu” (Grande Rio), “Angenor, José e Laurindo” (Mangueira), “Batuque ao Caçador” (Mocidade), “Ka ríba tí ÿe — Que nossos caminhos se abram” (Paraíso do Tuiuti), “Igi Osé Baobá” (Portela) e “Canta, canta, minha gente! A Vila é Martinho!” (Vila Isabel).

 

Mais do que confete e serpentina

Após essa exposição, fica claro que os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro representam muito mais do que apenas diversão. Ainda que essa alegria também seja uma forma de resistir ao sofrimento imposto diariamente a imensas camadas da população durante o ano inteiro. Porém, os aprendizados não ficam só em fevereiro, estendem-se pelas décadas.

É imprescindível assinalar que apenas a existência dessas escolas já é, por si só, um grande ato de resistência ao racismo e a um Estado que pouco olha para os mais pobres, dado que são esses grupos os principais realizadores dessa festa. A Dra. Helena Theodoro afirma que existe um impacto muito grande do carnaval na sociedade, que além de produzir emprego, gera informações que dificilmente chegariam ao público geral. Assim, as agremiações proporcionam mudanças de comportamento. Segundo ela, “as escolas de samba são memória viva e elas preservam nosso patrimônio”.

A cultura brasileira resiste ao retrocesso. Como canta a Mangueira: “a esperança brilha mais na escuridão”.

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COMENTÁRIOS
Solon Ferreira dos Santos Filho
Parabéns Laura, você continua com os desafios porque o seu caminho já está traçado mais os resultados são maravilhosos porque não faltam inteligência, vontade, continue sempre e tenha certeza que vai conseguir o seu objetivo.
16 ago 2021
 
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