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Se a Marvel não é cinema, o que é?
CINÉFILOS
03 nov 2019 | Por Gabriella Sales (gabriellasm@usp.br) e Vanessa Evelyn (vanessaevelyn@usp.br)

O universo cinematográfico teve forte repercussão, no mês de outubro. E essa repercussão não veio somente por suas grandes estreias, como Coringa (2019), mas também por uma discussão muito acalorada, envolvendo grandes nomes do audiovisual, sobre o que seria o verdadeiro cinema.

Tudo começou com uma declaração do cineasta Martin Scorsese a respeito do universo Marvel. No início de outubro, durante uma entrevista à Revista Empire, Martin afirmou que  “aquilo não é cinema” e que, para ele, a coisa que mais se aproximava daquele universo eram parques temáticos. A partir daí, uma grande discussão foi gerada e muitos nomes importantes do audiovisual comentaram o tema.

O diretor de Guardiões da Galáxia (2014) e Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017) James Gunn, se manifestou sobre o assunto. Em um tweet, ele afirmou que Scorsese era um de seus cineastas favoritos e que ficava triste que ele julgasse seu filme dessa forma, mas que, ainda assim, estava ansioso para assistir O irlandês — próximo longa do diretor. 

Além dele, pessoas como Robert Downey Jr., Samuel L. Jackson e Alan Moore, partiram em defesa dos filmes de super-heróis. Enquanto isso, do outro lado, manifestações em defesa de Scorsese geravam ainda mais debate. Como a declaração de Francis Ford Coppola, no qual afirmou que se espera aprender algo com o cinema, e nesse quesito o universo Marvel falharia muito, pois em sua opinião são sempre filmes iguais. Coppola ainda disse: “Martin foi bondoso ao dizer que os filmes da Marvel não são cinema, pois eu os acho desprezíveis”.

Mas afinal, existe uma verdadeira definição do que é ou não é cinema?

Cena de luta em Vingadores: Ultimato (2019) [Imagem: Reprodução]


Uma questão antiga

Não é a primeira vez que esse tipo de polêmica sobre os rumos do cinema contemporâneo encontra lugar nas falas de diretores renomados. As discussões sobre a perda de espaço do cinema como arte já vêm ganhando espaço há algum tempo, desde quando o cinema comercial tomou conta das telonas.

Em 2001, o cineasta Peter Greenaway afirmou, em entrevista à Folha, que estava perdendo as esperanças no cinema. Segundo ele, as produções vinham se restringindo a narrar histórias que poderiam facilmente ser contadas num romance, quando deveriam ir além disso. “É fácil fazer cinema assim. É o modo como os produtores e estúdios estúpidos o concebem. Pensam que, se há um texto, ele pode ser transformado em imagens”, disse. Para Greenway, entretanto, isso não significa que o cinema estaria sumindo: “Envolve muito dinheiro, e Hollywood não deixaria isso acabar. O cinema capta a imaginação dos jovens machos de 18 a 25 anos. Mas para o resto não é mágico. Os que podiam repensar o cinema foram a outro lugar.”

O próprio Scorsese já havia se posicionado anteriormente em relação à suposta “morte” ou “decadência” do cinema. Em 2016, o diretor disse que “o cinema deveria ser uma experiência que fizesse a diferença na sua vida, mas não é o que parece”. Ao invés disso, as produções estariam apenas dizendo à audiência o que pensar.

Ainda, o diretor de Robocop (1987), Paul Verhoeven, condenou as produções contemporâneas, afirmando que elas estariam preocupadas unicamente com o lucro, em entrevista à ThePlaylist. “O cinema americano só faz sentido se fizer dinheiro. Eles se reduziram a isso, e isso é horrível”, opinou. Contudo, acredita que, mesmo nesse sistema, é possível produzir a partir de outros propósitos. Cabe apenas aos estúdios enxergarem isso. 

Já Paul Schrader, roteirista de Taxi Driver (1976), filme dirigido por Scorsese, acredita que os processos de mudança no cinema estão muito relacionados à tecnologia, que permite que mais pessoas possam fazer filmes de forma mais fácil. Porém, isso acaba significando uma produção mais restrita por parte dos grandes estúdios, como declarou ao AdoroCinema, esse ano: “Agora temos apenas alguns tipos de cinema: os eventos, que são os filmes em IMAX; o cinema familiar; o cinema de terror; e o cinema cult. É isto que sobrou do cinema tradicional”.

Martin Scorsese em premiação [Imagem: Reprodução/ Observatório do Cinema]


Outras abordagens

Giordano Toldo, formado em Produção Audiovisual/Cinema pela PUC-RS e mestre em Artes Visuais pela UFRGS, acredita que tentar classificar o cinema como arte ou entretenimento é incoerente. Para ele, esse tipo de questão não tem mais espaço: “Hoje não precisamos mais definir, e sim expandir os conceitos sobre o que é cinema, fotografia, arte, qualquer coisa”.

Giordano acredita que se pode produzir cinema para entreter, como também pode-se fazê-lo no meio da arte: “Gosto de pensar que existe espaço para os dois e ambos são importantes.” Ele afirma que o cinema da arte, por um lado, é gerador de reflexões e questionamentos. Por outro, “o cinema comercial tem uma circulação maior de dinheiro que desenvolve a cultura e a produção audiovisual economicamente. Quando essas premissas se embaralham, fica ainda mais legal”.

Em relação à polêmica sobre os filmes da Marvel, o especialista acredita que o problema é, na verdade, o fato de a indústria, especialmente a estadunidense, estar se voltando exclusivamente para esse tipo de filme. Isso faz com que algumas propostas percam espaço e investimento de produção. “Depois de dizer que os filmes da Marvel não eram cinema, [Scorsese] voltou atrás e disse ter dito aquilo em razão da dificuldade de conseguir financiamento para seu novo filme. É alguém da indústria criticando a própria indústria por estar com dificuldade de fazer seu novo filme”, explicou.


O cinema na atualidade

Em vista desse cenário, a discussão sobre a situação do cinema atual acaba se aflorando. Para Giordano Toldo, a Marvel teria encontrado um pote de ouro e continuará investindo em longas franquias, uma vez que se tem um bom retorno financeiro. Além disso, a produção de filmes direcionados para os streamings, segundo ele, abre uma janela para novas discussão.

No Brasil, filmes como Bacurau (2019) e A vida invisível (2019), que ganharam prêmio em Cannes, mostram que a produção nacional segue mantendo seu viés crítico e político. Segundo Toldo, mesmo com a falta de apoio governamental, o cinema segue firme. “Os artistas em geral sabem da importância política da arte. E como nosso cinema é político, sempre foi e sempre vai ser, temos que enfrentar esse momento ruim.”

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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