Home Lançamentos Netflix: ‘Se Algo Acontecer… Te Amo’ e o alívio do trauma compartilhado
Netflix: ‘Se Algo Acontecer… Te Amo’ e o alívio do trauma compartilhado
CINÉFILOS
10 dez 2020 | Por Lívia Magalhães (liviabmagalhaes@usp.br)

Se Algo Acontecer… Te amo (If Anything Happens I Love You, 2020) é o novo curta-metragem animado da Netflix. Em apenas 12 minutos, a audiência é conduzida pelas tentativas que uma família faz para curar a ferida que nunca é totalmente cicatrizada, a perda de uma filha. O tema, já muito pesado, se torna ainda mais difícil de abordar (e de digerir) quando levamos em consideração que a criança morreu vítima de um problema endêmico nos Estados Unidos, país de origem do filme: os tiroteios em escolas. 

Já na primeira cena, vemos o pai e a mãe jantando em uma mesa que os distancia pelo que parecem ser quilômetros. Não é muito provável que a mesa realmente seja tão longa assim, mas sim uma representação da distância emocional que há entre os dois. Como ninguém de fato sabe como lidar com o luto, especialmente em casos como este, as sensações que preenchem ambos são a culpa e o ressentimento.

 

Na primeira cena de Se Algo Acontecer... Te Amo vemos o pai e a mãe jantando em uma mesa que os distancia pelo que parecem ser quilômetros, uma representação da distância emocional que há entre os dois. [Imagem: Divulgação/Netflix]

[Imagem: Divulgação/Netflix]

Assombrados pelos fantasmas do trauma, duas sombras pretas, seguimos o pai e a mãe, mergulhados em um luto irreparável. Eles não conseguem falar um com o outro, e o filme não tem diálogo, apenas música. Aliás, é através da música que o casal começa a recordar o passado. 

A porta do quarto da criança, que estava fechado até então, abre por acaso. Uma bola de futebol atravessa o cômodo até bater em uma vitrola, que imediatamente começa a tocar a música pop 1950, da artista King Princess. Ouvindo a canção, que deveria ser uma das favoritas da filha, a mãe e o pai entram no quarto e começam a lembrar.

Viajando pelo passado, eles vão a tempos mais coloridos. A animação, que antes era toda em preto e branco, ganha novos tons em aquarela. A cor é a filha – ela é representada pelo azul. Essa cor geralmente quer dizer paz e calma, mas também significa segurança. 

Segurança, infelizmente, foi algo que os pais não conseguiram lhe garantir. A filha caminha em direção à escola e as sombras dos pais tentam impedi-la, mas não é possível.

 

Em um momento da animação, que antes era toda em preto e branco, ganha novos tons. A cor é a filha. Os pais estão sentados a cama, ainda sem  cor, mas a camisa ganha a cor azul.  [Imagem: Divulgação/Netflix]

[Imagem: Divulgação/Netflix]

A história contada por Se Algo Acontecer… Te amo infelizmente é mais comum do que deveria ser. Em 10 anos, houve cerca de 180 tiroteios em escolas nos Estados Unidos, que totalizaram 114 vítimas fatais. Isso são 114 famílias que passaram por uma dor imensurável e que sempre carregarão uma ferida aberta. 

Após revisitarem a vida da filha, a dor aumenta – mas depois vem certo alívio. O casal acaba encontrando conforto no trauma em comum. Afinal, apenas eles dois sabem como cada um se sente. Se abrindo para o passado, eles param de culpar um ao outro (e a si mesmos) e relembram o que tiveram. Mesmo que a criança tenha partido, o amor deles por ela é inacabável. Juntos, eles conseguem relembrar aquela faísca – que continua brilhando, em um azul incandescente.  

O curta já está disponível para os assinantes da Netflix. Confira o trailer

 

*Imagem de capa: Divulgação/Netflix

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*