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Semana de Fotojornalismo | Dia 2 – Cláudia Ferreira e Geraldo Garcia
Eu Fui
21 ago 2013 | Por Jornalismo Júnior

O segundo dia da VII Semana de Fotojornalismo contou com a presença da fotojornalista Cláudia Ferreira, autora da obra “Mulheres em Movimento” (Editora Aeroplano), em parceria com Claudia Bonan, que consiste em um registro fotográfico de importantes movimentos sociais no Brasil e no mundo, marcados pela presença feminina; e do fotografo profissional, professor de fotografia e sócio-diretor da Imagem Impressa, Geraldo Garcia para mediar um debate acerca do tema “As mulheres e a luta”.

Foto Valdir Ribeiro Jr.

Foto Valdir Ribeiro Jr.

Claudia Ferreira, em sua fala de abertura, discorre sobre como as manifestações que eclodiram em todo território nacional desde junho desse ano, a fizeram alterar sua perspectiva acerca seu próprio trabalho. Traça um paralelo entre os movimentos que ocorreram nos últimos meses com todos os outros movimentos que acompanhou, como fotógrafa e militante, desde os anos 80. Ressalta principalmente a mudança de paradigma que essas manifestações atuais trouxeram principalmente na forma de fazer jornalismo e de fotografar, com o grande papel das redes sociais, a criação de formas midiáticas independentes que traziam informações em tempo real, citando principalmente o Mídia Ninja, como forma de combater o conservadorismo do jornalismo das grandes mídias. Fala sobre como essas refletiram até mesmo em uma mudança de comportamento por parte da policia, que passou a usar diferentes métodos para fugir das câmeras e dos fotógrafos.

A fotojornalista brinca acerca o significado da sigla que nomeia a nova mídia “Ninja” – Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação; dizendo que sempre se enquadrou nessa forma de fazer jornalismo, mas não conhecia um nome para tal. Contextualiza essa afirmação contando sobre como eram os movimentos nos anos 80 e as diferenças com os tempos atuais, como por exemplo como a quantidade de fotos tiradas era bastante inferior e que as poucas selecionadas iam somente para os jornais impressos, sendo vistas por um número seleto de pessoas, enquanto em suas coberturas recentes, além de um número muito maior de imagens, tem a possibilidade de coloca-las na Internet poucas horas depois, podendo chegar `a uma quantidade impressionante de pessoas.

Claudia Ferreira ressalta que se hoje, com a grande facilidade de acesso de informações, é impossível que os movimentos não sejam vistos, antes sentia-se uma espécie de guardiã de historias que ninguém contava – muitas passeatas feitas por mulheres eram ignoradas ou, quando publicadas, comentadas com teor pejorativo. Diz que, tudo isso acontecendo e ninguém falando sobre, a angustiava muito, pensava: “Meu Deus, e ai? Quem é que vai contar essa história depois?”. Dessa forma iniciou-se cada vez mais no movimento feminista, culminante em seu livro “Mulheres em movimento” e, somada ao desejo de disponibilizar tantas imagens que tinha guardada, montou um banco de imagens online.

O fotografo Geraldo Garcia, por sua vez, entra no debate falando que não se considera um fotojornalista, mas sim um retratista – e foi dessa forma que cobriu movimentos como a Marcha das Vadias, em 2011 e esse ano: buscando sempre retratar as pessoas e suas ideias em conjunto. O que o impulsionou `a ir fazer a cobertura das Marchas foi, principalmente, o medo que sentia da forma que seriam feitas as reportagens sobre elas, dizendo ainda que disponibilizou em seu blog as fotografias que havia tirado no mesmo dia, para contrapor com a imagem que seria passada pelas grandes mídias.

Foto Daniel Morbi

Geraldo relembra a história da Marcha, ressaltando que o próprio nome já carrega fortemente a ideologia da mesma, que é o fato de não existir nada que justifique a violência à mulher. Quase como uma forma de provocar, o nome representa o questionamento: é mais crime agredir e violentar um freira, do que uma prostituta? Ser ou não ser “vadia” justifica a violência?

Como forma de ilustrar sua experiência, mostra diversas fotos tiradas em suas coberturas das duas Marchas, colocando pontos importantes em questão como, por exemplo, a forma de protestar com os seios de fora ser marcante, como um traço extremamente feminino, mas por outro lado isso deixa transparecer uma ditadura da beleza, a partir do momento que muitos fotógrafos buscam mostrar a garota “mais bonitinha”. Fala também sobre as diferenças entre a marcha de 2011 e a que ocorreu há poucos meses, ressaltando a vinda do papa como um fator que modificou a Marcha – mas não do modo que as grandes mídias mostraram.

No dia programado para acontecer a Marcha, o papa e a Jornada Mundial da Juventude, estariam à 40 km de Copacabana, lugar onde ocorreria o movimento. Devido a chuvas fortes, porém, o papado e a Jornada voltaram-se a Copacabana, e então a passeata alterou seu destino para a outra direção, sentido Ipanema. Geraldo comenta que não houve conflitos e até algumas jovens participantes da Jornada entraram na Marcha com cartazes de defesa aos direitos da mulher. O caso, pontual e isolado, de um casal, cujo participantes do movimento não sabem quem são, que em meio a uma performance destruiu símbolos religiosos, ao invés de tratado como algo que não retrata de forma alguma a ideia da manifestação, tornou-se o tema central nas grandes mídias, distorcendo completamente o que realmente aconteceu.

Geraldo finaliza a palestra com uma imagem bastante significativa, que simboliza tudo o que foi falado primeiramente pela fotojornalista Claudia Ferreira e em seguida pelo próprio fotografo, onde uma mulher em meio à Marcha segura um cartaz com os dizeres: “Lugar de mulher é na revolução”. Encerra-se, assim, a primeira parte do segundo dia da VII Semana de Fotojornalismo.

Por Ana Luisa Abdalla
anita.abdalla.usp@gmail.com

 

 

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