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Sobre Luta, Vida e Morte
CINÉFILOS
20 fev 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Mirella S. Kamimura
mirellask317@gmail.com

O filme sobre um portador de HIV, que junto com uma transexual e uma médica, consegue prolongar seus dias e ajudar outras pessoas soropositivas é realmente digno de destaque.Não é à toa que Clube de Compras Dallas (Dallas Buyer’s Club, 2013) recebeu cerca de 14 indicações de prêmios como o Oscar, o Globo de Ouro, Critic Choice Awards e SAG Awards.

O longa se passa na cidade de Dallas, Texas, em 1985 e conta a história verídica de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um cowboy valentão heterossexual que tem como hábitos o rodeio, bebidas, drogas e mulheres. Após um acidente de trabalho, Ron vai parar no hospital e acaba descobrindo ser portador do vírus HIV e ter expectativa de apenas 1 mês de vida. Machão e homofóbico, ele não aceita sua situação por acreditar que AIDS é uma doença apenas para homossexuais. Com a imunidade baixa e sempre doente, Ron resolve pesquisar sobre a doença e tem que enfrentar o preconceito dos outros, além do dele próprio.

Durante esse período entre a negação e a aceitação, Ron conhece duas personagens com papel essencial na história: Rayon (Jared Leto) e Eve (Jennifer Garner). Rayon é uma transexual que também tem AIDS e faz um tratamento experimental com a droga AZT no hospital em que a médica Eve trabalha. Desesperado, Ron começa a contrabandear AZT do hospital – uma vez que a droga ainda não é aprovada e legalizada. Tudo corria bem, até que o enfermeiro que arranjava o medicamento pra ele diz que não conseguiria mais caixas, e passa o telefone de um médico do México que poderia ajudá-lo.

É aí que o enredo realmente se desenvolve… A descoberta da toxicidade do AZT durante uma viagem ao México, a “jornada” de Ron em busca de alternativas de tratamento e a criação do Clube de Compras Dallas. Este, funcionava como uma espécie de clube, no qual com o pagamento de uma taxa mensal, o associado tem acesso a medicamentos eficazes não-tóxicos, porém ainda não aprovados pela FDA (Food and Drug Administration). Com a ajuda de Rayon e a colaboração hesitante de Eve, Ron passa por diversos entraves com a justiça. Numa batalha judicial para que as pessoas tenham o direito de escolher seu próprio tratamento, Ron perde a causa, mas adquire o direito de utilizar suas medicações ilegais, o que lhe prolonga 7 anos de vida e o torna um símbolo de luta.

O destaque do filme não se baseia apenas em sua temática polêmica. A entrega de Matthew e Jared aos papeis é evidente e chocante. Enquanto o primeiro emagreceu 22 kg pra viver Ron, o segundo emagreceu 18 kg por Rayon. Em entrevista ao jornal britânico “The Independent”, McConaughey descreveu a missão de perder todo esse peso como um dos maiores desafios de sua carreira. “Foi difícil. Eu cheguei a pesar cerca de 60 kg e estava sempre com fome e irritado. Meu corpo parecia um bebê pássaro com a boca aberta, gritando ‘Me alimente, me alimente!’ e aí você percebe que a mmãe pássaro não avai alimentá-lo. É difícil“. Para Leto, essa mudança drástica na balança não é uma novidade, já que o ator já havia emagrecido e engordado espantosamente por outros filmes, como Réquiem Para Um Sonho e Capítulo 27.

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Fora o visual chocante dos personagens principais, macérrimos e com traços dos maus-tratos causados pela doença, a atuação é algo louvável. McConaughey incorporou ao seu papel uma carga emocional pesada, como nunca antes vista em outra atuação sua. É possível sentir toda a confusão, toda a raiva, todo o desespero de Ron Woodroof. Tanto na descoberta da doença, como em sua batalha pela vida. Já Leto se transformou completamente pra dar vida à feminina Rayon, tanto fisicamente como nos trejeitos. Com uma atuação de tirar lágrimas do espectador, fica claro que o jeito irônico da personagem é apenas um artifício para não deixar que a doença tenha um papel principal em sua vida. Com uma personagem que exigiu menos transformações por parte da atriz, Garner interpreta Eve como uma médica humanizada, que, independente da ética, se envolve emocionalmente com a luta de seus pacientes, principalmente Rayon e Ron.

Um detalhe importante é a crítica à homofobia presente no filme. Apesar de ser abordada de maneira bem sutil, devido a toda carga emocional do enredo estar voltada à luta dos personagens pela vida, ela existe. O próprio protagonista começa a trama completamente preconceituoso e isso é um dos principais motivos para ele não aceitar a doença. Além disso, Ron tem que aturar piadinhas dos amigos homofóbicos, o que acaba fazendo com que se afaste dos mesmos. Abordando ainda esse assunto, Woodroof surpreende ao criar uma bonita relação de amizade com a transexual Rayon, o que resulta numa das mais lindas cenas do longa – com um abraço sincero dos dois amigos que estão passando pela mesma difícil situação.

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Fora todos os pontos já mencionados (o que já seria o suficiente para indicar o longa a várias categorias das premiações), o filme possui imagem e sons acertados, ambos correspondem muito bem ao tempo e espaço no qual a trama se passa. Um detalhe bastante interessante é o efeito nos momentos nos quais o personagem principal tem crises. Ouve-se um zunido que aumenta progressivamente, terminando num estampido, quando o filme fica sem imagem e som, recuperando-se após alguns segundos, como um desmaio.

O filme foi indicado em diversas categorias de diferentes premiações, e inclusive já ganhou em algumas delas. A próxima – e também considerada a maior – premiação é o Oscar, que ocorre dia 02 de março. Clube de Compras Dallas está indicado em 6 categorias e possui grandes chances de levar algumas estatuetas para casa.

CLUBE DE COMPRAS DALLAS

A luta de Ron pela vida e pelo direito a um tratamento eficaz é sim egoísta em primeira instância, afinal, ele estava fazendo por ele mesmo e ainda lucrando em cima. Porém, com o passar do tempo, é possível perceber uma humanização do personagem. Além de estender sua expectativa de 1 mês para 7 anos, a batalha de Ron contra a Lei mudou posteriormente a política do tratamento de pessoas com HIV, concedendo mais tempo, dignidade e qualidade de vida a outros doentes.

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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