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“Sessão da tarde” nunca é demais
CINÉFILOS
22 ago 2019 | Por Adriana Teixeira (adrianateixeira@usp.br)

Troca de corpo não é novidade no cinema nacional. A trilogia de sucesso Se Eu Fosse Você lançada em 2006, 2009 e 2016, respectivamente,ainda toma o imaginário do brasileiro, somando mais de 13 milhões de espectadores que foram aos cinemas. Apesar de ser um clichê cinematográfico, ainda há diversas produções atuais que tratam dessa temática e exploram novos conteúdos.

Socorro, Virei Uma Garota! (2019), dirigido por Leandro Neri, aborda também esse tema. O filme começa com Julio (Victor Lamoglia) inconformado com seu “status” de nerd e excluído da turma. Durante uma chuva de meteoros, o jovem deseja ser a pessoa mais popular do colégio. Seu pedido se torna realidade, mas ele passa a viver em uma realidade paralela em que se torna uma menina. Contudo, apesar de estar no corpo de Julia (Thati Lopes), continua com a mentalidade que possuía antes do desejo se concretizar. Logo, continua apaixonado pela mesma menina, Melina (Manu Gavassi), e se identifica como melhor amiga de Cabeça (Léo Bahia), mesmo não sendo seu amigo nessa nova realidade.

[Imagem: Downtown Filmes]

 A trama do filme gira em torno da adaptação de Julio tanto a um corpo feminino como às alterações do mundo ao seu redor. A construção foi bem feita, de maneira clara e com todos os ganchos criados resolvidos ao final. Apesar da sequência clichê de comédias “sessão da tarde” início, meio e fim esperados no decorrer do longa há momentos de surpresa e risadas. 

Quanto a trilha sonora, faltou atualização. Existem músicas atemporais, desde  Garota de Ipanema (Tom Jobim) até Crazy In Love (Beyoncé), que, apesar de antigas, ainda cabem como background de filmes. Contudo, a seleção feita para o filme inclui “hits” momentâneos como Harlem Shake (Baauer) e I Kissed a Girl (Katy Perry) que já são um pouco anacrônicos. Mesmo assim, foram escolhidas em momentos propícios, sendo condizentes com a cenas que aparecem.

O maior problema do filme foi abordar alguns conceitos antiquados que são perpetuados no imaginário da sociedade. Produções como esta, feitas para jovens, deveriam se atentar a romper com essas ideias ultrapassadas, como a cena em que Julia quer usar um determinado vestido que seus seios ficam à mostra e Renata (Lua Blanco), irmã de Cabeça, a chama de “vulgar”. Apesar de ter sido um comentário rápido, a naturalização do machismo é preocupante e ainda mais quando o público é as novas gerações. 

Diversos estereótipos são utilizados pelo longa. Um deles é Douglas (Lipy Adler), o famoso “heterotop”, com muita autoconfiança e um estilo de ser característico. A amplificação dessas características trazem humor às cenas em que ele aparece, pois quem assiste capazes de identificar muitos homens iguais ao nosso redor. Os trejeitos do personagem, um pouco bobo e inocente, o fazem ser muito cômico. Outro estereótipo, não tão engraçado, é o da amizade feminina sexualizada, onde fica claro que é da visão de um homem. Há uma cena em que amigas apalpam o seio uma da outra, mordem “sensualmente” a bochecha da outra, entre outros takes que reforçam um conceito machista de como mulheres se relacionam.

Em relação à performance dos atores, Thati Lopes como Júlia merece destaque ao interpretar Julio, tanto na personalidade como na maneira de agir. Durante todo o tempo o espectador não esquece que quem está agindo é um menino e não o que a aparência mostra. 

Socorro, virei uma garota! vale a pena ser assistido, pois traz algumas risadas e também trata de assuntos importantes, como representatividade LGBT e aceitação pessoal. Além disso, estimular o cinema nacional ajuda a sempre surgirem novas produções com mais qualidade.

O longa tem estreia prevista para 22 de agosto. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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