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O machismo de Solteira quase surtando é imperdoável
CINÉFILOS
12 mar 2020 | Por Marina Caiado (marinafcaiado@usp.br)

O cinema brasileiro conta com muitas boas comédias, as quais, desde a mais tímida, até o pastelão, costumam nos trazer, além de boas risadas, histórias criativas e personagens inesquecíveis. Assim como esses filmes, Solteira quase surtando” (2020) tenta ocupar um espaço em nossa memória, mas se perde no meio do caminho, com muitas incoerências e exageros sem graça.

O longa conta a história de Bia (Mina Nercessian), uma mulher de 35 anos casada com seu trabalho e que não se preocupava muito em ter um relacionamento sério ou filhos. Um dia, ela descobre que está entrando na menopausa precoce e, como tem o sonho de engravidar, decide encontrar um marido em apenas seis meses ― o pouco tempo fértil que lhe resta.

A partir daí começa a jornada quase impossível de Bia para se apaixonar por alguém em um tempo tão curto. Para isso, ela conta com a ajuda de seu amigo gay, Felipe (Leandro Lima), que ainda não se assumiu para seus pais e finge que Bia é sua namorada nas festas de família. 

O melhor amigo Felipe torna-se um aliado na missão de encontrar um marido para Bia. [Imagem: Reprodução/Anagrama Filmes]

Logo de cara, a trama reforça vários estereótipos machistas naturalizados pela sociedade, principalmente o da mulher que só se sente completa ao ter filhos e se casar. Por que alguém que está satisfeita com sua carreira e vida amorosa iria em busca de um marido, e o pior, em apenas seis meses? Ainda mais a mando do “relógio biológico”, como se engravidar fosse a única opção para ter filhos. Uma menopausa precoce pode ser difícil para mulheres que têm o sonho de engravidar, mas não precisa ser motivo para tanto desespero.

Porém, é necessário ter em mente que em uma comédia as situações tendem a ser exageradas, então talvez esse desespero da personagem seja aceitável. Talvez ela mude de ideia ao longo do caminho e perceba que sua felicidade não depende de um casamento, o que pode ser interessante.

Contudo, embora o filme tente, ele não consegue desconstruir ou amenizar esses elementos problemáticos que aparecem logo no início. Isso pois essa tentativa é feita de forma muito abrupta e forçada, tanto pelos atores, quanto pelo ritmo acelerado da história, e não convence. Todos os acontecimentos maquiadores de machismo estão óbvios e parecem ter sido colocados ali, ao invés de fazerem parte de processos naturais de amadurecimento das personagens. 

Mesmo no início, quando Bia está no seu ambiente de trabalho, as cenas mostradas são dispensáveis e meramente decorativas, assim como o personagem de seu chefe, por exemplo. É como se dissessem em letras garrafais “este filme não é só sobre casamento, mas também sobre uma mulher de negócios, ocupada, que trabalha fora de casa”. Simplesmente não funciona. 

O humor presente na obra também é bastante forçado e apelativo, gritando para ser notado e perdendo a graça. Em alguns momentos, existem piadas um pouco mais sutis, que dão a leveza que pede uma comédia. Contrastando com isso, as cenas dramáticas do filme são um pouco pesadas para o gênero, contando com atuações que caberiam mais em um teatro do que em uma tela de cinema. 

A “festa do desencalho” é uma das tentativas de solucionar o problema de Bia. [Imagem: Reprodução/Anagrama Filmes]

O final é bonitinho, e, como já dito anteriormente, tenta mostrar uma evolução da personagem. Mas isso acontece nos últimos cinco minutos, dando a impressão de que o longa foi cortado e alguma coisa se perdeu no processo. A trilha sonora também é agradável e descontraída, combinando com a história, e a música que toca ao final talvez amenize um pouco a sensação desconfortável que o espectador pode vir a experienciar. 

Solteira Quase Surtando poderia mostrar-se uma comédia bacana e interessante para relaxar, mas acaba confirmando as primeiras impressões que passa aos espectadores. Esse é mais um filme esquecível, juntando tudo que há de mais clichê e pouco nexo. Além disso, o longa comete vários erros para depois pedir perdão, principalmente nos minutos finais. Mas, sinceramente, eles não valem o desconforto de mais de uma hora. O machismo de Solteira Quase Surtando é imperdoável.

O longa chega dia 12 de março nos cinemas. Confira o trailer

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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