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Sonhos são imortais
CINÉFILOS
02 maio 2013 | Por Jornalismo Júnior

Uma tela preta, um suspiro angustiante, um canto enigmático. É assim que começa O Labirinto do Fauno (El Laberinto Del Fauno, Espanha/México, 2006). O canto vai se tornando mais alto, mais sombrio. A tela preta dá lugar à imagem de uma menina, close em seu rosto, em seus olhos negros, grandes, perdidos, e sua boca com sangue. Só nesse primeiro momento você já é tomado por certa agonia que não te deixará um minuto sequer durante o filme.

Um narrador desconhecido, com uma voz igualmente emblemática conta então a história da garota, a princesa Moanna (Ivana Baquero), de um reino subterrâneo. A menina fugiu de lá para a Terra e desde então é procurada por seu pai, o rei. Esse começo é uma mostra do que será retratado no filme todo: uma contradição! De um lado, a realidade, a morte, e do outro a fantasia, a perpetuação.

Na Terra, a princesa Moanna é Ofélia, uma garota que ama os livros e os contos de fada. Ela e a mãe grávida (Ariadna Gíl) se mudam para a casa do padrasto, um capitão do exército franquista que combate contra os últimos desertores da guerra civil espanhola (1944). O capitão Vidal (Sergi López) e a pequena Ofélia travarão uma batalha velada, uma batalha de contradições.

Vidal é taciturno sempre, e também metódico: fica de cara fechada durante a chegada da esposa por conta de um atraso de 15 minutos. É intransigente, autoritário, violento. Uma das cenas mais fortes, se não a mais forte de todo o filme, é quando ele mata dois caçadores, pai e filho. A crueldade com que enfia inúmeras facadas no rosto do filho diante do pai, sem escrúpulos, sem pudor. E depois atira no velho. Quando percebe que as mortes foram injustas, não mostra arrependimento. Ele brinca com a morte, tem prazer na tortura, raciona a comida do povoado e controla todos a sua volta. Sua figura é repugnante, não demonstra afeto por ninguém. Quando o médico da família fala dos riscos da gravidez de sua esposa, ele é enfático: “Se tiver que escolher, salve o bebê”.

Todo o ódio do público ao capitão aumenta o carinho direcionado a Ofelia. Ela é doce, curiosa, diferente. Carrega os livros grudados ao corpo, cabelo bem penteado e roupas bem cuidadas, é um mimo. Além disso, é simpática com todo mundo e tem um carinho e uma preocupação sem igual com a mãe. Ela tem um sorriso inocente e olhos carentes. É impossível não se cativar por ela. É também sonhadora, acredita piamente nos contos de fada, na magia, na bondade, nas pessoas.

Os dois personificam os dois universos em que o filme se passa. A força do general contra a incapacidade da criança indefesa, a princesa versus o capitão, o horror da guerra e o belo dos sonhos, a realidade tentado de todas as formas acabar com a fantasia. E os dois disputam tudo: a atenção da mãe, os serviços da empregada Mercedes (Maribel Verdú), a floresta. Fisicamente, Vidal leva vantagem e por várias vezes machuca a pobre menina. Mas uma das cenas mais legais é quando Ofelia solta um sorriso maroto ao descobrir que desapontou o capitão. Mesmo sem um embate direto entre eles, a guerra acontece nas entrelinhas, com pequenos gestos, ataques, contra-ataques.

O filme é escuro, os jogos de luz e sombra estão quase sempre presentes, assim que como a canção de ninar medonha que permeia o longa-metragem. São muitas mortes, muita violência. É impossível não se sentir transtornado. Eu fiquei tensa e com o peito apertado durante todo o filme. O diretor Guillermo Del Toro explora o horror da guerra, as cenas chocantes, as mutilações, torturas, batalhas, sangue. Mesmo o labirinto onde a magia acontece é sombrio, o fauno é feio, as fadas são feias. Ainda assim, a pequena Ofelia consegue se refugiar de toda a realidade, ela consegue fantasiar. O real e o surreal convivem tão de perto que quase se misturam. São, de certa forma, necessários e complementares um ao outro.

Outro assunto muito explorado no filme é a imortalidade. Quando o fauno conta a Ofélia que ela é uma princesa, a condição para que ela reine novamente é passar por três provas que certificação que a menina não se tornou uma mortal, e sua punição caso descumpra uma das regras é morrer como os humanos. Outro ponto interessante é a cena em que a mãe queima a mandrágora mágica por não acreditar em sua magia e, logo em seguida, morre durante o parto. Não acreditar na fantasia é, então, sinônimo de morte, de desaparecimento. Vê-se também a preocupação do capitão em deixar seu legado, sua continuação a partir de sua obstinação em que a criança seja um menino.

Fica, então, clara a mensagem do autor de que os sonhos são imortais e que se são a única saída para a felicidade em meio a uma realidade cruel e violenta. E que mesmo em face do maior horror, da desordem e mesmo do caos, é possível que apareça a fantasia.

por Thais Matos
thais.matos.pinheiro@gmail.com

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