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Stella do Patrocínio — do falatório à não-poesia

No mês da luta antimanicomial, relembramos a memória de Stella do Patrocínio, artista negra e vítima do sistema psiquiátrico brasileiro

Na Estante
30 maio 2022 | Por Laura Pereira Lima (laurapereiralima@usp.br)

“Você está me comendo tanto pelos olhos

Que eu já não tenho de onde tirar força

Pra te alimentar”

 

Em um dia de agosto de 1962, Stella do Patrocínio, mulher negra, empregada doméstica e pobre, caminhava na Rua Voluntários da Pátria, no Rio de Janeiro, no que seria um de seus últimos respiros de liberdade. Súbita e violentamente, Stella, jovem de 21 anos, é agarrada pela polícia e encaminhada para a rede manicomial, de onde só saiu em 1992 — como cadáver. 

 

Quem foi Stella do Patrocínio?

Talvez o questionamento levante mais perguntas do que respostas. Durante muitos anos, a artista foi vítima de um cruel projeto de apagamento; sua trajetória tornou-se irrastreável, e sua arte, inacessível. O pouco que se sabia sobre Stella, até então, havia sido obtido por meio da instituição psiquiátrica— a mesma que fora responsável por todo o abuso e opressão dos quais ela foi vítima. Seria possível, então, pensar Stella a partir da narrativa de seus opressores? É evidente que não. Com tamanha desconfiança quanto aos dados oficiais, a luta antimanicomial exerceu um papel fundamental na obtenção das informações que possuímos atualmente. Questionando os parâmetros diagnósticos, a violência psiquiátrica e a arbitrariedade das internações, o movimento se propôs a resgatar o passado daqueles que foram subalternizados pelo sistema médico da época, dando-lhes o direito às suas próprias narrativas.

 

Uma das descobertas recentes — e que merece destaque aqui — foi a grafia correta de seu nome: Stella com dois L’s, e não “Stela”, como se pensava previamente. A informação foi divulgada somente em 2020, na tese de Anna Carolina Vicentini Zacharias, e foi fundamental para se pensar Stella do Patrocínio para além das questionáveis informações fornecidas pelo manicômio. Mas não foi só a letra L que lhe foi arrancada à força.

 

“Eu estava com saúde

Adoeci

Eu não ia adoecer sozinha não

Mas eu estava com saúde

Estava com muita saúde

Me adoeceram

Me internaram no hospital

E me deixaram internada

E agora eu vivo no hospital como doente

O hospital parece uma casa

O hospital é um hospital”

 

A artista Stella do Patrocínio aparece no centro da imagem, que está em preto e branco, com o que parece ser uma bebida na mão.

Stella gostava de Coca-Cola, leite condensado e de escrever palavras em pedaços de papelão. [Imagem: Reprodução/Facebook/Stela do Patrocínio]

 

Diagnosticada com esquizofrenia hebefrênica, Stella foi internada, após sua abdução arbitrária, no Hospício Pedro II, do qual saiu 4 anos depois, quando foi transferida para a Colônia Juliano Moreira, manicômio conhecido como o “fim de linha” para pacientes psiquiatrizados. Lá, Stella viveu até sua morte, em 1992, e, durante parte de sua permanência na instituição, participou do Projeto de Livre Expressão Artística, que visava a aplicação de oficinas criativas na instituição. Neste projeto, suas manifestações culturais foram registradas pela primeira vez, no formato de falatórios — modo como Stella chamava suas sessões de arte falada. Esses falatórios, contudo, permaneceram no acervo pessoal de Carla Guagliardi, artista que acompanhou Stella no Projeto, e só foram divulgados, de forma transcrita, em 2001.

 

Os falatórios e a não-poesia

Com o avanço do movimento antimanicomial, diversos projetos de cunho artísticos são implementados por todo o Brasil, a exemplo do trabalho de Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II. A Colônia Juliano Moreira não foi uma exceção. Lá, vigorou, de 1986 a 1988, o Projeto em que se registrou o trabalho artístico de Stella: os falatórios. 

 

Esses falatórios são o resultado da gravação das conversas entre Stella e Carla Guagliardi. Nessas conversas, a fala da artista transborda filosofia ao refletir sobre si; sobre o racismo que sofria; sobre o hospício. Com impressionante lucidez, Stella do Patrocínio consegue emocionar o ouvinte ao denunciar os abusos que sofria na instituição manicomial e as injustiças das quais foi vítima.

 

Apesar do conteúdo profundamente poético e filosófico de seus falatórios, Stella não se considerava poeta — ou filósofa —, ainda que os outros a julgassem assim. Anna Carolina Vicentini Zacharias, autora da dissertação de mestrado Stella do Patrocínio: da internação involuntária à poesia brasileira, propõe que a artista não seja compreendida como poeta, tal como o fazem frequentemente. “Ela foi lida como poeta, ela foi entendida como poeta (…) Essa nomeação de poeta foi sempre à revelia”, afirma a pesquisadora. Assim como o diagnóstico de esquizofrenia, o diagnóstico de poeta lhe foi imposto. “É importante dizer que ela falava, e o que ela chama de produção discursiva é ‘falatório’, ela não chama de poesia. Então por que não perceber o falatório e tentar entender isso a partir da denominação que ela própria criou?”, questiona Zacharias. Categorizar Stella como poeta contra sua vontade não deixa de ser mais um processo de silenciamento e mais uma condição imposta à artista.

 

“Não trabalho com a inteligência

Nem com o pensamento

Mas também não uso a ignorância”

 

O fim do projeto, em 1988, contou com uma exposição artística chamada O Ar Subterrâneo, que expôs obras dos pacientes psiquiatrizados da Colônia Juliano Moreira. Na exposição, parte dos falatórios de Stella foi transcrita e exposta pela primeira vez. E não seria a última.

 

Reino dos bichos e dos animais é o meu nome

Em 2001, os falatórios de Stella foram novamente transcritos e organizados por Vivian Mosé no livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Azougue editorial, 2001). O livro foi construído a partir das gravações feitas pela artista Carla Guagliardi e depois por Mônica Ribeiro de Souza — estagiária de psicologia na colônia que continuou o trabalho com Stella após o fim do Projeto de Livre Expressão Artística. A partir do livro, Stella entra no circuito literário oficial e passa a ganhar mais visibilidade, passando a ser lida e estudada como poeta (contra a sua vontade). A obra ganhou tamanha visibilidade que foi finalista do prêmio Jabuti de 2002, na categoria psicologia e educação.   

 

A imagem de Stella aparece, em preto e branco, no canto direito do livro, o título dele aparece escrito em vermelho no centro.

O livro, de 2001, conserva a grafia incorreta do nome
de Stella [Imagem: Reprodução/Site/Amazon]

 

 

Contudo, até que ponto podemos transcrever a experiência de ouvir os falatórios de Stella? Para Anna Carolina Vicentini Zacharias, “não dá para acessar Stella do Patrocínio a partir da letra se o instrumento de discurso dela era a voz (…) o texto não é mais Stella”. Não se pode colocar no papel a emoção de ouvir a voz de Stella, firme e decidida; as exaltações; as pausas; a hesitação; a lucidez. Tudo isso só é acessível a partir dos falatórios. A negra garganta de carne — como caracteriza Sara Ramos em sua tese de pós-graduação — não é adaptável à escrita. E não nos cabe transpor a lógica artística de Stella, no que seria mais um processo de desvirtualização da artista. 

 

Stella e a luta antimanicomial

Stella do Patrocínio é bastante clara e enfática ao dizer que foi internada por ser uma mulher negra, e os dados corroboram com essa visão. O número de negros internados involuntáriamente nos manicômios no século XX no Brasil é assustador; e não é casual. O manicômio do século XX, no Brasil, serviu ao propósito de controlar corpos indesejados; um verdadeiro Holocausto Brasileiro — como caracterizado pela jornalista Daniela Arbex — e, dentre esses corpos indesejados, estavam homossexuais, negros, pobres, prostitutas, mães solteiras; todos aqueles que não compactuavam com a moral vigente. 

 

“Devido à pigmentação negra de uma grande parte dos doentes aí 

recolhidos, a imagem que se fica dele, é que tudo é negro” 

Trecho retirado da obra de Lima Barreto, 

Diário do Hospício & O cemitério dos vivos. 

 

Nesse sentido, Stella do Patrocínio, ao elucidar por meio dos falatórios a violência e o racismo que sofreu no manicômio, ajuda no combate a essas práticas, ao dar maior visibilidade à causa. “A publicização desses falatórios fortalece a luta antimanicomial e uma concepção de luta que é pautada na liberdade, na defesa dos direitos humanos, na emancipação”, afirma Rachel Gouveia, assistente social, professora da UFRJ e coautora do livro Luta antimanicomial e feminismos: Discussões de gênero, raça e classe para a reforma psiquiátrica brasileira (Autografia, 2017). “É fundamental que as denúncias em relação ao manicômio e seus efeitos sejam feitas, e o falatório de Stella tem o papel primordial na publicização dos efeitos deletérios do manicômio”, afirma a pesquisadora. 

 

O retorno à oralidade

Durante muito tempo, a única forma de acessar Stella do Patrocínio era por meio do livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, no qual seus falatórios foram transcritos. Alguns trechos particulares foram disponibilizados na internet, mas sempre fragmentados. Contudo, o ano de 2022 marca um momento imprescindível na história de Stella e na história de toda a luta antimanicomial: os falatórios foram publicados, integralmente, com o trabalho de dissertação de Sara Ramos, e passam a ser, enfim, domínio público. Os áudios dos falatórios estão disponíveis para download no Repositório Institucional da UNILA para que possamos literal e figurativamente ouví-la. Zacharias alimenta esperanças de que a veiculação dos áudios aumentará a exposição de Stella, tornando-a mais ouvida e conhecida.  “Também é bom pra gente pensar o valor, o poder e a necessidade da gente recorrer a culturas orais e aprender com elas; e pensar a oralidade como produção de conhecimento”, afirma a doutoranda.

 

Stella do Patrocínio foi enterrada como indigente. Coberta de terra em um cemitério em Inhaúma; sem nome, sem epitáfio, sem família — perfeitamente anônima. E nem a esse cantinho de terra teve direito: o corpo de Stella foi queimado, e suas cinzas, descartadas 5 anos após seu enterro. Stella foi enterrada como anônima. Cabe a nós, postumamente, honrar a memória que não lhe foi permitida em vida. 

 

“Meu nome verdadeiro é caixão enterro

Cemitério defunto cadáver

Esqueleto humano asilo de velhos

Hospital de tudo quanto é doença

Hospício

Mundo dos bichos e dos animais

Os animais: dinossauro camelo onça

Tigre leão dinossauro

Macacos girafas tartarugas

Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”

Transcrições dos áudios dos falatórios de Stella do Patrocínio.

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