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Suando o cérebro: a importância das olimpíadas de conhecimento ainda na escola
Matéria Escura
02 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Marina Caiado (marinafcaiado@usp.br)

Gabriela Santos Mendanha – Arquivo pessoal

Em meados de 776 a.C., os gregos criavam os Jogos Olímpicos, originados em Olímpia, na Grécia antiga, sendo a corrida o único esporte da competição. Com certeza você conhece essas Olimpíadas, que apesar de bem diferentes dos primeiros jogos gregos, acontecem ainda hoje entre países do mundo todo. Quando falamos em Olimpíadas de Conhecimento, porém, o preparo exigido não é o físico, e os atletas envolvidos nem sempre estão em busca de uma medalha, mas de conhecimentos e experiências capazes de levá-los cada vez mais longe, acarretando enorme crescimento pessoal e profissional.

 

Uma olimpíada que não é esportiva: como funcionam as Olimpíadas de Conhecimento

Talvez pelo fato de muitas olimpíadas de conhecimento voltarem-se ao nível médio de ensino, a maioria delas resume-se a provas que seguem um modelo muito similar ao de um vestibular, possuindo uma ou mais fases. Assim, são dadas aos alunos algumas questões que eles devem responder em um tempo predeterminado. Sem consultar nada mais do que seus próprios conhecimentos, então, os estudantes se dirigem a um local de prova específico em um dia e horário marcados para que ela ocorra de forma presencial. A diferença básica entre essas avaliações e os vestibulares e simulados das escolas é que os conteúdos abordados vão muito além daqueles estudados até o ensino médio. Alguns exemplos no Brasil são a Olimpíada Brasileira de Física (OBF), a Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) e a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM).

Mas nem sempre as provas escritas são o modelo eleito para decidir quem leva o ouro. Existem algumas competições bem diferentes, como é o caso da MINIONU, que simula os debates da Organização das Nações Unidas, e do Torneio Brasileiro de Jovens Físicos (IYPT Brasil), o qual não envolve apenas teoria, mas experimentos práticos e investigação. Para Carlos Márcio, participante da última edição da IYPT Brasil, os experimentos foram essenciais para que esse torneio chamasse sua atenção, o que prova que nem só de papel e caneta vivem as olimpíadas de conhecimento. “Eu acho que é a parte mais interessante dessa olimpíada, que realmente representa o que é a ciência, porque na ciência você precisa dessa comprovação experimental. A gente não descreve a imaginação, a gente descreve a realidade”, conta.

 

Experimento da IYPT sendo realizado. Foto: Augusto Ollivieri

Também é válido lembrar que não existem apenas olimpíadas científicas voltadas para o ensino médio. Algumas contam com a participação até mesmo dos mais novinhos, e são aplicadas a partir do primeiro ciclo do ensino fundamental, outras se voltam para o ensino superior, e existem ainda aquelas abertas a todos, como o Desafio Nacional Acadêmico (DNA), o qual posssui uma categoria para tal.

 

Olimpíadas? Pra quê?

Apesar de cada olimpíada possuir suas particularidades, todas têm um principal objetivo em comum: despertar nos alunos a necessidade constante de autossuperação, de forma que busquem sempre conhecer mais, descobrindo coisas novas e saindo de sua zona de conforto. Para Gabriela Santos Mendanha,  que atualmente cursa o ensino médio em Goiânia e já participou de diversas olimpíadas, essas experiências a ajudaram a ser mais criativa, curiosa e investigadora. “Eu passei a não aceitar qualquer resposta como verdade, prefiro que me provem realmente que é verdade”, diz.

Assim, o caráter desafiador e competitivo desses torneios pode ser muito positivo para incentivar alunos a se esforçarem e pensarem fora da caixa, aprimorando-se não somente como estudantes, mas também como seres humanos. Miriam Harumi Koga, outra competidora que marcou presença em várias olimpíadas, prova isso, dizendo que em sua primeira participação, aos nove anos de idade, sua competitividade a ajudou. Isso porque mesmo não atingindo bons resultados, ela se sentiu motivada a estudar mais: “Sempre quis fazer desafios, justamente pra saber qual seria o meu limite, talvez. E eu também sempre fui uma pessoa bem competitiva. Então outros amigos meus fizeram a prova e foram melhores do que eu, e nos anos seguintes queria me esforçar pra ir melhor do que eles”. Ela também conta que as experiências que acumulou devido a suas participações nessas competições contribuíram para que ela fosse mais humilde: “Dentro da minha escola e da minha cidade eu era a melhor aluna em exatas, mas eu sabia que no estado e no país tinham muitas pessoas na minha frente”.

Alguns registros da participação de Miriam na Olimpíada Latinoamericana de Astronomia e Astronáutica. Muito além do ouro conquistado, o mais marcante foi a experiência da viagem ao Chile, na qual ela pôde conhecer observatórios no deserto do Atacama. “É o melhor céu do mundo para ver estrelas”, ela conta com admiração. Fotos: Arquivo Pessoal

 

Segundo o professor Carlos Yuzo Shine, treinador da equipe brasileira da Olimpíada Internacional de Matemática (IMO), as olimpíadas científicas também são muito importantes para as escolas. Isso porque as competições incentivam a criação de uma cultura de melhoria contínua em toda a instituição: “Não são só os estudantes que melhoram. Os professores envolvidos também se aprimoram, tanto na hora de aprender o conteúdo de forma mais aprofundada, como na hora de transmiti-lo de forma eficaz aos estudantes. Eu ainda estudo muita matemática até hoje!”. Ele também diz que é importante que os jovens tenham contato com atividades extras pois talvez assim descubram suas paixões. “No meu caso, eu tive sorte porque as olimpíadas de matemática me deram um norte. Descobri que adoraria trabalhar com matemática, e acabei virando professor por causa disso. Talvez não teria essa profissão se eu não descobrisse que gosto tanto dela”, ele conta. Carlos teve seu primeiro contato com uma olimpíada de matemática ainda no ensino médio, e até hoje, quase 20 anos depois, mantém seu fascínio ao falar do assunto:  “Ela abre um mundo de conhecimento. É como visitar um lugar novo: a gente descobre um monte de novidades para explorar, e quer ver onde se pode chegar. Até hoje eu tenho surpresas super bonitas com problemas criativos de matemática. Lembra muito o ato de apreciar música”.

A imagem à esquerda mostra alunos da escola de Gabriela recebendo premiações de olimpíadas por um professor. À direita, vemos professores e alunos envolvidos em um projeto de física avançada na Universidade Federal de Goiás (UFG). Ambos são exemplos de atividades que, segundo o professor Carlos Shine, podem criar uma cultura de melhoria contínua nas escolas.

 

Oportunidades e vida profissional: quando as olimpíadas abrem portas

Além de transformar o modo de pensar e a personalidade de seus participantes, as olimpíadas de conhecimento também fazem com que eles se destaquem na hora de entrar na faculdade, por exemplo, abrindo portas principalmente no exterior. Isso porque, fora do Brasil, o processo seletivo de várias universidades leva em consideração não só o vestibular, mas tudo o que o aluno realizou em sua trajetória acadêmica. “Elas contam muito no seu currículo, porque eles sabem que quem tem contato com essas olimpíadas é um aluno que tem um olhar diferente, que tem esse perfil de curiosidade, que sai da zona de conforto, o que é muito valorizado”, diz Gabriela Mendanha.

Um exemplo vivo das oportunidades proporcionadas pelas olimpíadas é o de Miriam, que em agosto deste ano começará o curso de engenharia de materiais no Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos. O sonho de estudar no exterior surgiu cedo, mais ou menos quando estava no oitavo ano do ensino fundamental. Ela se sentiu inspirada por pessoas que conheceu em uma semana especial de aulas, a “semana olímpica”, da qual pôde participar após conseguir a prata na Olimpíada Brasileira de Matemática. “Entre essas pessoas havia um garoto que tinha passado no MIT, a melhor universidade de engenharia do mundo. E basicamente o que ele tinha feito era participar dessas competições e se destacar, e a partir de então eu comecei a pensar em estudar fora”, relata.

No Brasil, apesar de isso ainda não ser muito comum, já existe o exemplo da Unicamp, que abriu vagas para medalhistas em olimpíadas, o que, de acordo com Carlos Márcio, é algo positivo e que deveria se tornar cada vez mais comum em nosso país.

O estudante acredita também que as experiências e os conhecimentos acumulados durante seus anos de competição serão úteis no futuro, principalmente pelo fato de almejar ser um profissional na área de exatas, aquela em que mais competiu: “Isso vai me ajudar demais até na minha maneira de pensar. Por eu já ter visto esses conhecimentos, ser exposto a eles desde mais novo, acho que vai me dar uma vantagem muito grande quando eu for realmente colocar eles em prática, no mercado de trabalho”.

À direita vemos Carlos Márcio em uma de suas participações da IYPT Brasil. Um ano depois, em 2018, ele faria parte da equipe campeã da competição.

Tem espaço pra todo mundo!

Existem muitos preconceitos acerca das olimpíadas de conhecimento, que, muitas vezes, desmotivam a participação de várias pessoas. Isso é um problema, pois impede que talentos sejam encontrados e que o Brasil conte com melhores alunos e profissionais no futuro. As possibilidades são inúmeras, e se você está disposto a participar, é sempre possível encontrar uma competição que chame seu interesse, pela diversidade de formatos existentes e áreas do conhecimento exploradas.

Primeiramente, as olimpíadas científicas não foram feitas apenas para “gênios”, como pensam muitos. Até mesmo os mais premiados fracassaram, e precisaram se dedicar e persistir para chegar tão longe. Carlos Márcio, por exemplo, na primeira vez que competiu, sem nenhum preparo e ainda no ensino fundamental, não conseguiu responder nenhuma questão da prova que realizou. Ele diz ter ficado com raiva dessas competições, e somente no ensino médio começou a se interessar verdadeiramente, direcionando seus estudos para alcançar resultados cada vez melhores. Hoje ele conta com dez medalhas em olimpíadas de diversas áreas do conhecimento, sendo seis delas de ouro. Sua história pode parecer um pouco estranha, mas é apenas um exemplo de algo muito comum entre os medalhistas dessas competições, como a Miriam e a Gabriela. Competir envolve lidar constantemente com fracassos e frustrações, além de envolver esforço, estudo e dedicação, embora na maioria das vezes somente as vitórias sejam notadas.

Também nota-se que existem poucas mulheres participando dessas olimpíadas. Estima-se que apenas 10% dos premiados são meninas. “A sociedade valoriza outras qualidades da mulher que não a de liderar, por exemplo, e a inteligência”, diz Miriam, que, com apenas 18 anos, palestrou esse ano no painel “Mulheres na Ciência” do Congresso Nacional de Liderança Feminina, dando destaque a essa pequena participação de garotas em olimpíadas científicas, principalmente na área de exatas. Já para Gabriela, alguns preconceitos fazem com que as mulheres estejam pouco presentes, até mesmo nas competições que envolvem ciências humanas. Ela diz receber vários comentários maldosos, muitas vezes indiretos, que mostram esses preconceitos, e que esse tipo de atitude desencoraja bastante a participação feminina. Apesar disso, ela se sente orgulhosa por ter feito parte da equipe ganhadora da IYPT 2018, e espera que sua participação encoraje outras meninas a fazerem o mesmo, para que a representação feminina cresça cada vez mais. Está na hora de mudar essa situação, fazendo com que esse meio que é quase totalmente composto por homens seja formado por todos.

“Ah, mas eu sou de humanas”. Saiba então que existem soluções para quem sempre apresentou essa justificativa para o fato de nunca ter participado de olimpíadas de conhecimento. Existem sim olimpíadas voltadas para as ciências humanas, como por exemplo a ONHB, de História do Brasil. Apesar de recente e pouco conhecida, ela demanda muito estudo, análise e raciocínio de seus participantes, como todas as outras. Gabriela, que já participou da ONHB, diz que muita gente tem preconceito com as ciências humanas, muitas vezes até desconsideradas como ciências, dizendo que pessoas da área de humanas são menos inteligentes ou focadas do que pessoas de outras áreas, o que não é verdade. Para ela, a olimpíada de história pode ser considerada inclusive mais difícil do que algumas de exatas das quais participou, pelo volume de pesquisa e análise exigidos e por suas questões não possuírem uma resposta correta. Foi a ONHB que fez a estudante “se abrir para as humanas” e a gostar mais de história, criando, para ela, uma visão totalmente nova e extremamente positiva dessa área do conhecimento. Outros exemplos de olimpíadas que envolvem ciências humanas são a MINIONU e a Olimpíada Brasileira de Linguística (OBL).

À direita, Gabriela e sua equipe da Olimpíada Brasileira de História do Brasil (ONHB). À esquerda, a equipe campeã da IYPT Brasil 2018, da qual a garota fez parte, juntamente a Carlos Márcio.

 

Quero participar, e agora?

De acordo com os mais experientes no assunto, o primeiro passo é escolher uma área do conhecimento ou uma matéria que você goste, e buscar informações sobre alguma olimpíada naquela área. Prepare-se para competir, não desista e acredite no seu potencial. Então, participe e veja como é a experiência para você, talvez os resultados sejam surpreendentemente positivos. Ou então você pode descobrir que não é exatamente disso que gosta, e terá apenas mais uma história pra contar. É importante lembrar também que algumas pessoas simplesmente nunca terão interesse por esse tipo de atividade ou não gostarão de competir, e tudo bem: existem inúmeras formas de busca pelo conhecimento, e as olimpíadas científicas são apenas algumas delas.

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