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Suburbicon – Ou quando dados conduzem os personagens
CINÉFILOS
21 dez 2017 | Por Jornalismo Júnior

Suburbicon: Bem Vindos ao Paraíso (Suburbicon, 2017) é protagonizado por Matt Damon e Julianne Moore, e dirigido por George Clooney. A Paramount arrecadou míseros 7,5 milhões de dólares internacionalmente até o presente momento. A produção do filme custou 25 milhões. Embora os dados de renda não definam a qualidade de um filme, este é um caso. Suburbicon é ruim: vale, assim como seu retorno financeiro, menos de um terço do preço convencional do ingresso.

Situado na década de 1950 no pacato bairro homônimo, o longa conta duas histórias principais. A primeira mais geral relata a chegada de uma família afro-americana, os Mayers, à vizinhança. Mediante ao contexto de turbulência racial nos Estados Unidos, eles são recebidos de maneira segregacionista pelos outros residentes, todos brancos. A segunda — mais específica — trata da “crise familiar” dos Lodge, os quais também moram nesse mesmo subúrbio. São essas duas histórias tangentes entre si que o filme tenta contar. Mas, fracassa.

Suburbicon

O roteiro dos irmãos Coen é, no mínimo, prepotente. Ele almeja a conduzir duas correntes narrativas quase simultaneamente. A amizade entre os filhos das duas famílias o único elo entre ambas histórias. Entretanto, a relação não transcende algumas cenas em que as crianças, Nicky (Noah Jupe) e Andy (Tony Espinosa), brincam de beisebol ou de telefone de lata. Uma não influencia na outra, não se auxiliam para se estruturarem de maneira mais sólida e coerente. Não é possível definir com certeza qual a intenção do longa em dividir-se de tal maneira.

Em determinado momento, volta-se a atenção aos Lodge; em outro, aos Mayers e ao racismo no bairro de Suburbicon. Essa alternância compulsiva gasta os curtos 105 minutos do filme em duas narrativas rasas e incoesas. A vertente dos Lodge se resume a uma série de suspenses baratos envolvendo um “dramático” assassinato. Como uma tentativa pífia de manter o espectador atento, vários questionamentos brotam do vazio, mas não são respondidos. As poucas exceções se personificam no estereótipo do malandro esperto do detetive Bud Cooper, interpretado por George Clooney.

Suburbicon

Cooper não é o único personagem quadrado. Na realidade, Suburbicon é povoado por figuras rasas. Não há um background por trás de suas motivações e de suas personalidades. O filme não proporciona empatia para com eles. E isso é agravado ao se considerar os acontecimentos bizarros que ocorrem com os Lodge. O pai da família, Gardner (Matt Damon), e a tia Margaret (Julianne Moore) são os principais frutos disso. Eles agem de maneira incoerente — mesmo de um ponto de vista subjetivo — e, até mesmo, estúpida. Simplesmente, não há explicações para seus comportamentos, os quais são totalmente imprevisíveis. A cada cena, Gardner e Margaret se relacionam com seu entorno da mesma forma que um dado é jogado: aleatoriamente.

Aqueles questionamentos que surgem do nada, também de maneira aleatória, promovem reações ainda mais imprevisíveis dos dois. Os personagens protagonizados por Damon e Moore são os casos mais extremos disso, mas todos os outros personagens se encaixam ou na idiotice insólita dos dois ou no estereótipo, como Cooper. E como toda a história dos Mayers também. Ela é apenas uma coletânea de imagens que tentam reproduzir o ambiente de resistência segregacionista norte-americano da década de 1950. Saudosistas confederados cercando uma indefesa família afro-americana como hienas, em bando e de forma agressiva e barulhenta. Estereótipos não comovem.

Suburbicon

As atuações podem até ser consideradas razoáveis, mas como sentir empatia para com figuras rasas ou tão imbecilmente imprevisíveis quanto dados jogados em um tabuleiro? Com uma direção de arte e figurino nem um pouco especiais — os quais repetem as mesmas fórmulas coloridas e clichês para recriar a década de 1950 nos Estados Unidos  —, Suburbicon é um filme melhor quando não visto. O longa marcou um tomate podre de 29% (Rotten Tomatoes) e patéticos 5,4 (IMDB). É aconselhável economizar o ingresso do filme para investir em uma viagem para Aruba, inspirado na ideia que os protagonistas sugerem repetidas vezes durante o filme. Já ouviu falar de Aruba? É um protetorado holandês no meio do Caribe. Tão aleatório quanto Suburbicon.

O filme estreia dia 21 de dezembro.

 

Confira o trailer:

por Caio Mattos
caiomattcardoso@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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