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Tchoukball: um esporte pacífico e para todos
ARQUIBANCADA
08 jan 2020 | Por José Higídio (zehigidio@usp.br)

Há quem se incomode com a presença de certas hostilidades no esporte. Supressão da diversão, competitividade excessiva, frustração dos perdedores, desrespeito aos adversários e casos frequentes de lesões podem de fato afastar um público considerável do exercício de diversas modalidades. Mas existe um esporte elaborado justamente para romper com esses traumas e proporcionar ao atleta um contínuo equilíbrio físico, psicológico e social.

O tchoukball foi concebido na passagem da década de 1960 para 1970 pelo médico suíço Hermann Brandt, que por anos cuidou de pacientes contundidos em função da prática esportiva. Através de uma pesquisa científica e crítica dos esportes de equipe mais populares, Brandt constatou que as lesões eram resultado de movimentos inapropriados à fisiologia humana e das várias formas de agressão às quais os jogadores estavam sujeitos. 

Esta apuração também o levou a uma preocupação cada vez maior quanto ao valor educacional dos esportes modernos, que, para ele, não deveriam produzir campeões, mas sim uma sociedade humana digna. Sendo assim, Hermann misturou elementos de handebol, vôlei e pelota basca para criar as regras de um jogo sem contato físico e com o princípio central de incentivar todos – independentemente de idade, sexo, cultura ou forma física – a praticá-lo.

Como é jogado?

Por ser muito praticado de maneira amadora, existem algumas variações numéricas na prática do tchoukball. Entretanto, segundo as regras mais comuns e oficiais, o esporte é jogado por duas equipes de 7 jogadores, em uma quadra de basquetebol e com uma bola de handebol. No caso do tchoukball praticado na areia ou na grama, as dimensões de jogo são menores e, portanto, as equipes têm cinco atletas. 

Em vez de gols ou cestas, nas duas extremidades da quadra são posicionados dois quadros de remissão – redes quadrangulares, a uma inclinação de 55 graus, que servem como trampolins para a bola arremessada. O esporte é inclusive nomeado em função do som produzido pela bola quando ela atinge o quadro de remissão: “tchouk”. 

Uma dinâmica curiosa é o fato de não existir um lado específico da quadra para ataque ou defesa de determinada equipe: ambos os times podem tentar o arremesso em qualquer um dos quadros de remissão. Em volta de cada quadro, há um semicírculo de três metros de raio, que delimita a chamada zona proibida.

Bola arremessada em um quadro de remissão [Reprodução/SportRegras]

Bola arremessada em um quadro de remissão [Reprodução/SportRegras]

O objetivo do jogo é marcar o maior número de pontos em três tempos de 15 minutos. Um ponto ocorre quando o jogador arremessa a bola sobre o quadro de remissão de maneira que ela rebata e caia fora da zona proibida. No entanto, existem algumas situações nas quais essa tentativa pode resultar em um ponto para a equipe adversária. Isso ocorre caso o atleta erre o quadro na hora do arremesso; faça a bola cair fora da área de jogo; acerte o quadro mas a bola atinja o próprio atleta ao ser rebatida; ou acerte o quadro mas a bola caia dentro da zona proibida. A única situação na qual não ocorre um ponto para qualquer uma das equipes é quando o jogador arremessa, a bola rebate no quadro e algum adversário a apanha antes de atingir o chão – nesse caso o  jogo segue normalmente.

Entretanto, todo o processo do arremesso passa por algumas regras essenciais. Primeiramente, não é permitida nenhuma forma de conter o adversário quando ele tem a bola, sejam tentativas de atrapalhá-lo ou de interceptar a bola. Ou seja, uma vez na posse da bola, o jogador terá definitivamente a oportunidade de um arremesso. 

Mas cuidado:cada jogador só pode dar três passos com a bola na mão, e cada equipe pode trocar apenas três passes antes do arremesso (em caso de reposição após ponto ou falta, o primeiro passe não é contado). Além de tudo isso, não se pode jogar com os membros inferiores, nem deixar a bola cair, e, de forma alguma, pisar fora da área de jogo ou na zona proibida quando na posse da bola. O desrespeito de qualquer uma dessas especificações resulta em uma falta.

 

Difusão do tchoukball e chegada o Brasil

Após a morte de Hermann Brandt, em 1972, figuras como a do inglês John Andrews e o também suíço Michel Favre foram responsáveis pela continuidade do legado do tchoukball. Um dos maiores passos foi a introdução do esporte em Taiwan, a partir de 1977 com o professor de Educação Física Ray-Ming Fuang. Lá, a modalidade ganhou investimentos consideráveis e se tornou extremamente popular. Desde a criação do esporte até hoje, o número de campeonatos profissionais de tchoukball pelo mundo aumentou significativamente. O continente asiático é destaque na organização desses torneios.

Atleta singapurana Celine Sheum tentando um arremesso em jogo contra Taiwan, no Campeonato de Tchoukball da Ásia e Pacífico de 2018

Atleta singapurana Celine Sheum tentando um arremesso em jogo contra Taiwan, no Campeonato de Tchoukball da Ásia e Pacífico de 2018 [Imagem: Desmond Wee]

Sua inserção no Brasil deu-se com o próprio John Andrews, quando era presidente da Federação Internacional de Educação Física (FIEP). Em 1987, durante congressos em Foz do Iguaçu (PR), Tramandaí (RS) e Florianópolis (SC), Andrews promoveu apresentações e cursos sobre tchoukball. Um dos participantes desses cursos era o professor Nelson Schavalla, que resolveu seguir implantando atividades relacionadas à modalidade e assim tornou-se pioneiro da sua divulgação no país. 

Em entrevista ao Arquibancada, Schavalla conta que iniciou os projetos ainda em Foz do Iguaçu com a FIEP. Posteriormente, quando ocupou o cargo de diretor em uma escola pública de Pato Branco (PR), adquiriu os materiais necessários para a prática do tchoukball e implantou o projeto “Educação Pela Inclusão”, que, mesmo sem nenhum apoio financeiro, espalhou-se por outros colégios do Paraná. Hoje em dia, não só continua difundindo o esporte no Brasil como também ajuda a levá-lo até outros países da América do Sul, América Central, Europa e mais recentemente da África.

Enquanto o tchoukball começava a ser implantado no Sul do Brasil, o sergipano Océlio Antônio Ferreira se deparou com o esporte na Europa, onde estava estudando. A convite do próprio Michel Favre, então presidente da Federação Suíça de Tchoukball, Océlio passou por intenso treinamento e participou de diversos torneios, até retornar ao Brasil em 1992. Logo, juntou-se a Julio Calegari para disseminar o esporte em São Paulo, onde organizaram os primeiros torneios do estado. Em 1999, os dois se uniram a Schavalla e fundaram a Associação Brasileira de Tchoukball (ABTB). No ano seguinte, ela foi filiada à Federação Internacional de Tchoukball (FITB), permitindo que o Brasil participasse de campeonatos internacionais.

Rogério Ribeiro, atual presidente da ABTB, afirma que a Associação ganhou forças e o tchoukball vem crescendo nos últimos cinco anos graças aos cursos, eventos e campeonatos promovidos, mas sente que a falta de patrocínio mantém o esporte ainda em nível muito amador no país. Esse é também o principal motivo, segundo Nelson Schavalla, pelo qual o tchoukball não sofreu um verdadeiro boom, o que acaba restringindo sua prática muito a escolas e universidades.

Tentativa de arremesso durante o Campeonato Brasileiro de Tchoukball de 2019 [Imagem: ABTB]

Tentativa de arremesso durante o Campeonato Brasileiro de Tchoukball de 2019 [Imagem: ABTB]

Experiências com o “esporte da paz”

“Um esporte vibrante, plástico, dinâmico, sem violência e para todos, independente do estado físico”. É assim que Nelson Schavalla descreve o tchoukball. Mas a modalidade foi proposta também como uma ferramenta social, e basta uma conversa com algum atleta para perceber que ela realmente cumpre esta função: “Tchoukball significa oportunidades para mim. Tenho oportunidade de passar a filosofia e os ensinamentos do tchoukball para meus alunos e também de viajar para jogar e conhecer pessoas”, diz Kleber Ayala, jogador da Seleção Brasileira de Tchoukball e professor de Educação Física.

Marcela Faragone, estudante de Administração e também atleta da seleção, conta que o tchoukball realizou seu sonho de representar o Brasil em competições nacionais. Ela ainda acrescenta: “O tchoukball me apresentou pessoas novas ao redor do mundo. Me mostrou novas realidades muito diferentes da minha, e me proporcionou experiências muito divertidas e importantes para o meu desenvolvimento”.

O presidente Rogério Ribeiro enxerga o tchoukball também como instrumento de mudança, inclusão social e aceitação da diversidade. Para ele, o tchoukball permite encarar o esporte de uma maneira totalmente diferente: “Quando você conhece o tchoukball, tudo muda. Você começa a perceber que dá para ter um esporte competitivo, com disputas intensas, e ao mesmo tempo com muito respeito, muita amizade e um ambiente bacana”.

Projetos em escolas buscam trazer os ideais inclusivos do tchoukball para crianças [Imagem: Marcelo Justo/Folhapress]

Projetos em escolas buscam trazer os ideais inclusivos do tchoukball para crianças [Imagem: Marcelo Justo/Folhapress]

De fato, o tchoukball constrói um ambiente bem acolhedor e pacífico para seus jogadores. Não à toa, é considerado pela ONU o esporte da paz. Schavalla aponta alguns fatores que confirmam esse título: “O direito da posse de bola sem ser molestado, a opção de ataque em qualquer direção, a igualdade em tamanho de troféus e medalhas… por isso e muito mais acredito ser sim o esporte da paz”. 

Se o tchoukball ainda está longe de atingir uma popularidade ideal, ao menos vem mudando a vida de quem já o pratica para melhor, sem jamais deixar de lado seus ideais originais. Sua difusão no Brasil, mesmo caminhando a passos lentos, não cessa, e talvez um dia teremos o prazer de ver o esporte da paz se transformar no esporte da pátria.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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