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‘Ted Lasso’: Futebol é vida! As inspirações elegantes da série

Série desmistifica problemas sociais e traz à tona uma masculinidade com outro olhar, mais delicado

ARQUIBANCADA
13 dez 2021 | Por Karolina Monte (karolinamonte@usp.br)

A série do momento, Ted Lasso (2020), ganhou o fim de sua segunda temporada em outubro de 2021, onde aprimorou o arco narrativo construído ao longo de sua primeira temporada e mostrando na prática que futebol é vida: uma montanha-russa de emoções, repletas de momentos de aprendizados e parceiros para compor nossa jornada.

A criação mais badalada do streaming Apple TV+ e vencedora do prêmio de Melhor Comédia do Emmy 2021, conta a história de Ted (Jason Sudeikis), um treinador de futebol americano que parte rumo à Inglaterra para treinar o AFC Richmond, time fictício de futebol da Premier League. Ted, que pouco sabe sobre o clássico futebol, leva na bagagem seu contagiante carisma, um bigode de dar inveja, ditados do interior de seu país e um treinador-assistente (e também braço direito), Beard (Brendan Hunt).

A graça da série de comédia, estrelada pelo faceiro Jason Sudeikis, não está nas cenas em campo e sequências de partidas do time, que, inclusive, ocorrem poucas vezes durante os episódios, mas sim na relação e desenvolvimento das personagens. Desde a chegada de Ted na primeira temporada, a dinâmica do AFC Richmond torna-se outra. Uma com mais união, dinamismo e crença. Com um humor inocente, a série nos apresenta diferentes tipos de seres humanos, homens em sua maioria, que reaprendem o significado do verdadeiro futebol e da masculinidade. Não apenas uma disputa de vinte e dois jogadores pela bola, mas uma junção de todo um time – desde a presidência até o ajudante de camarim – que lutam por um objetivo em comum.

Durante a primeira temporada o propósito da série era transparecer as falhas e atitudes repulsivas dentro de um time de futebol e o que pretendia ser aprimorado a partir das lições trazidas por Ted. O treinador foi, a princípio, contratado como uma forma de vingança da presidente do AFC Richmond, a imponente Rebecca Welton (Hannah Waddingham) contra seu ex-marido fanático por futebol. Ted, sem saber de tal gesto repulsivo de Rebecca, faz o seu trabalho, e transforma os jogadores dentro de campo, realçando suas qualidades não somente como atletas, mas como pessoas. A união e o apoio foram o mote da primeira temporada. E unido o time permaneceu quando, no último episódio, o (antes cambaleante) AFC Richmond, foi rebaixado. E unido se firmou pela técnica simples de Ted: a empatia e o otimismo.

O elenco de Ted Lasso com uma cópia na parede da placa de “acredite”, colada por Ted.  [Imagem: Divulgação/Twitter Apple TV]

No conjunto da primeira temporada da série, vemos lampejos de que há mais do que essa empatia revigorante do treinador. Por baixo de sua superfície venturosa e, num primeiro olhar desatento, inocente, há questões individuais a serem resolvidas, mas que merecem respeito e não críticas contínuas e ácidas. “Seja curioso, não crítico”, profere Ted nos momentos finais do último episódio. E é com essa curiosidade que nos é apresentada a segunda temporada.

Nos doze episódios que compõem a segunda temporada, o olhar curioso recai sobre a história pessoal de cada um dos personagens, abraçando suas individualidades, questões emocionais, físicas, psicológicas e amorosas. A narrativa reconhece a humanidade de cada um, dando um recorte cuidadoso para cada relacionamento apresentado na série, sejam eles interpessoais ou consigo mesmos, o cuidado é fator essencial para o crescimento. 

Fator esse personalizado por uma nova personagem, a retilínea terapeuta Dra. Sharon (Sarah Niles), que trava combates diretos com Ted, que antes acreditava que a moral pessoal e grupal dos jogadores era seu papel exclusivo, chocando-se com a afiada e fria psicóloga, mudando a percepção dos dois personagens ao longo dos episódios.

Ted enfrenta dilemas psicológicos, frutos do passado com seu pai, Keeley (Juno temple) e Roy (Brett Goldstein) lidam com seu relacionamento, Sam (Toheeb Jimoh) enfrenta novos desafios pessoais e profissionais, Rebecca enfrenta seus segredos guardados, Beard se mete em encrencas e reflete sobre um relacionamento amoroso. Todas as questões destrinchadas durante os episódios nos relatam que futebol não é apenas vida, afinal. Lição exemplificada logo no início da temporada através da morte do cachorro galês, mascote do AFC Richmond. Uma humanização de todas as questões resulta numa segunda temporada com maior número de lágrimas e conexões entre espectador-personagem. Por vezes um pouco monótono e distrativo, mas que não fazem perder o brilhantismo de Ted Lasso.

A glória de Ted está em manter sua alegria sem beirar o caricato, um otimismo possível dentro e fora das telas. E que com a crença no que se almeja, e apoio dos que estão ao seu redor, tudo é possível superar. Mas também revela que, até nos mais férteis campos, a arrogância e injusta insolência também floresce, com Nate (Nick Mohammed) revoltando-se contra Ted e o Richmond, e, injustamente reivindicando uma glória individual que, durante a temporada, foi diluída entre todos os membros do time. Nate envelhece progressivamente durante a segunda temporada, e isola-se em suas antigas inseguranças, transformando-as e amadurecendo-as em autoconfiança bestial e singular, partindo o coração dos espectadores.

A série possui momentos difíceis de acompanhar durante a segunda temporada, e vacilar durante alguns arcos narrativos, ou ainda errando no tempo de alguns episódios, grandes demais (foram de uma média de 30 minutos na primeira temporada para 50 minutos na segunda). Mas, apesar disso, deixa sempre evidente suas qualidades, e demonstra, no conjunto final, que o AFC Richmond ainda há muito o que enfrentar e superar. Mas que, com a fórmula de Ted, e mergulhando de cabeça na resolução dos desafios que vêm por aí, nada irá pará-los.

*Imagem de capa: Divulgação/Apple TV+

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