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Tolkien emociona e mostra a importância das artes em tempos sombrios
CINÉFILOS
23 maio 2019 | Por Matheus Zanin (matheuszanin@usp.br)

“Tolk-ain”, diz um professor para o jovem Tolkien. “Tolk-een”, ele o corrige. De fato, o professor jamais poderia imaginar o futuro de seu aluno. Um futuro composto por milhões de vendas de sua obra ao redor do mundo e produções artísticas sobre sua vida. Tolkien (2019), pertence à última categoria, apresentando uma nova perspectiva para a vida do célebre escritor, destacando, sobretudo, a origem das histórias da Terra Média.

Como em outros filmes biográficos, o roteiro do longa busca destacar os principais acontecimentos que envolvem a figura do retratado — neste caso, o destaque vai para os que antecederam a publicação de “O Hobbit”.  Com constantes saltos temporais, vemos John Ronald Tolkien enquanto criança, interpretado por Harry Gilby, acompanhado por seus três amigos da King Edward School. Logo no início, conhecemos a personalidade de cada um dos companheiros, grandes admiradores de artes e literatura. O espectador crê na relação do grupo conforme o desenrolar do enredo, impulsionada pelo desejo dos garotos de “mudarem o mundo”.

Anos passam, e vemos o adulto Tolkien enfrentando seus anseios e desejos. Nicholas Hoult interpreta um escritor humano, que, para além de sua genialidade, lidava com frustrações e medos como qualquer um. Acompanhado por Edith (Lily Collins), sua futura esposa, ele descobre suas habilidades enquanto linguista e contador de histórias.

Nicholas Hoult e Lily Collins convencem como casal apaixonado e entregam atuações agradáveis [Imagem: Twentieth Century Fox]

A produção visual do longa é excepcional. Os detalhes das ambientações e figurinos do início do século XX são admiráveis. Os efeitos especiais de computação, ainda que mínimos, também merecem destaque: em nenhum momento o espectador dúvida da realidade que cerca os atores, sobretudo durante as cenas de ação. O diretor, Dome Karukoski, fornece um realismo às trincheiras da Primeira Guerra que ressalta aos olhos.

E é na realidade que o filme dá seu enfoque: desde os primeiros minutos é evidente o desejo de representação dos fatos sob um olhar dramático. Numa época influenciada pelos acontecimentos da Primeira Guerra Mundial, permanece uma dúvida: haveria espaço para a imaginação e sua representação em tela? O contraste entre as histórias do escritor e a situação ao seu redor promovem comoção em quem testemunha sua trajetória.

Apesar da existência de comoção genuína, o filme falha em alguns aspectos para validá-la. Nem todos os companheiros de Tolkien recebem o mesmo destaque, fator prejudicial para a construção de maiores emoções no espectador. Quem se destaca é o carismático Anthony Boyle, que interpreta um dos colegas do linguista.

O enredo do longa baseia-se na amizade entre Tolkien e seus amigos [Imagem: Twentieth Century Fox]

Para os fãs, há constantes referências às obras do criador da Terra Média. Entretanto, permanece a sensação de oportunidades desperdiçadas. O catolicismo do autor, fator fundamental para compreender seu pensamento, não é abordado. Quem também espera representação da amizade entre Tolkien e C.S Lewis engana-se pelo propósito do longa.

O filme homenageia o autor e seu trabalho principal, somente. Emocionante, propõe uma reflexão sobre a necessidade das artes em tempos sombrios e as origens do sucesso de Tolkien. Se o professor encontrasse o aluno nos dias atuais, jamais erraria a pronúncia de seu nome.

O longa tem estreia prevista para o dia 23 de maio no Brasil. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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