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Torcedores desde a infância: a esperança do hexa
ARQUIBANCADA
24 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por Gabriela Bonin e Mariangela Castro

Jogador de futebol. Essa é a resposta que ouvimos de todas as crianças desta reportagem quando perguntamos “o que você quer ser quando crescer?”. Será que é pela fama? Pelos salários monstruosos? Pela oportunidade de aparecer na TV? Ou é apenas a vontade de vestir a camisa da seleção e representar o Brasil que leva a essa resposta?

Mesmo após o pesadelo do 7 a 1, ainda há em 51,9% dos brasileiros o sonho do hexacampeonato. Com as crianças, não poderia ser diferente. O que muda é o fato de nenhuma delas ter visto esta que seria a “melhor seleção do mundo” jogar. Nenhuma delas viu o Brasil ser campeão. Nossa última conquista, o pentacampeonato, foi em 2002 e alguém nascido nessa data já teria, hoje, 16 anos de idade.

Sem o Ronaldo de 2002 e com uma derrota desastrosa em 2014, como é possível a esperança do hexa permanecer? A seleção de Tite garante a confiança dessas crianças?

Giovana por exemplo, tem 12 anos e, sem hesitar, afirma: “O Brasil vai pra final! Vai sim.” Ela é santista, gosta do Philippe Coutinho e, quando crescer, quer ser jogadora. O empate do primeiro jogo contra a Suíça não abalou sua certeza. “É, tô confiante. O Brasil vai jogar de novo, essa foi só a primeira vez.”

Já faz tempo que ela treina em escolinhas. No colégio, as pessoas a chamam de Marta, por conta da futebolista brasileira cinco vezes vencedora do título de melhor do mundo. Giovana até acompanha os jogos da seleção feminina, mas percebe que eles não possuem tanta relevância no olhar popular. “O pessoal gosta mais do dos homens. Devia ter uma Copa do Futebol Feminino.”

Na realidade, a última Copa do Mundo de Futebol Feminino foi em 2015, na qual o Brasil perdeu para a Austrália de 1 a 0, nas oitavas de final. O simples fato de Giovana não saber da existência desta copa mostra a desigualdade de gênero presente no esporte. Para ilustrar tal questão, basta analisar o público dos jogos do Corinthians na abertura do Brasileirão 2018.

Com o ingresso médio custando cerca de 47 reais, a partida entre Corinthians e Fluminense, que abriu o Campeonato Brasileiro masculino, contou com 28.777 pagantes. Por sua vez, o jogo de estreia do Brasileirão feminino, disputado entre Corinthians e São Francisco, teve 3.895 torcedores pagantes, com ingressos de 10 e 20 reais.

Além disso, durante a Eurocopa de 2016, os prêmios pagos às 24 seleções masculinas foram de 301 milhões de euros, enquanto na Euro 2017, as 16 equipes femininas receberam apenas 8 milhões. Será que essa informação mudaria os sonhos de Giovana?

Ainda criança, e sem ter que se preocupar com prêmios pagos, desigualdade de gênero no esporte e ingressos vendidos, a jovem jogadora relembra o 7 a 1, mas não se abala: “Acho que não vamos pegar a Alemanha. Acho que a gente tá bem preparado. No amistoso, ganhamos todos.”

Francisco, por sua vez, não se lembra da última Copa. Com 7 anos, o menino disse estar muito ansioso para o evento e garante que o Brasil levará a taça. Na escola, comentou que seus amigos estão ansiosos e que “na Festa Junina, todo mundo usava camisas de time”. Mesmo sem tantas decorações verde-amarelas no ambiente escolar, a voz de Francisco carregava animação ao dizer: “a gente tá liberado para assistir os jogos e eu vou assistir com minha família”.

“Neymar”. A resposta é dada com convicção à pergunta “qual é seu jogador favorito?”. É nele que Francisco se espelha ao contar a profissão que quer seguir no futuro. “Um jogador bom, camisa 10, que joga na seleção”. Além do brasileiro, Cristiano Ronaldo entra na lista de admiração de Francisco. A admiração é tanta que faz com que Portugal seja o time para o qual o menino torceria, se o Brasil não fosse uma opção.

O sonho de um futuro no futebol não é só comum entre Francisco e Giovana. São muitas crianças desejando o esporte como profissão. Francisco, com seu sonho de ser como Neymar, começou a jogar no Flamenguinho ano passado. A realidade, no entanto, pode ser dura.

Nem sempre os ambientes de prática esportiva são espaços seguros. Um estudo realizado na Bahia, com o apoio do UNICEF, aponta que os clubes e escolinhas de futebol podem expor a riscos como profissionalização precoce, abandono do estudo regular e abuso sexual.

Os salários podem não ser sempre monstruosos e animadores. Segundo informações da CBF, 82% dos jogadores registrados no Brasil recebem até dois salários mínimos, sendo que alguns jogam até de graça. Além das dificuldades dos clubes de menor investimento, 20% dos profissionais no país sofrem com atrasos no pagamento do salário, de encargos e bônus. Mudanças precisam ser feitas para que todos os Franciscos e Giovanas possam se deparar com um cenário de profissão mais empolgante.

Não só a confiança, mas também a esperança dessas crianças com o futebol brasileiro é admirável. Para elas, o hexa não é só uma possibilidade, mas um desejo que, se depender de pensamento positivo, já é realidade. Yago, de 12 anos, explica o porquê de tanta convicção depois de um resultado como o da última Copa: “eu acredito, porque ninguém pode desistir de lutar. É só lutar que você supera tudo”.

(Imagem: Getty Images)

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