Home Virou História Tragédia do Sarriá: 40 anos da improvável derrota brasileira contra os italianos na Espanha
Tragédia do Sarriá: 40 anos da improvável derrota brasileira contra os italianos na Espanha

Favorita ao título de campeã do mundo, a seleção que encantou os torcedores brasileiros foi derrotada pelos italianos nas quartas de final da Copa de 82

ARQUIBANCADA
04 jul 2022 | Por Gustavo R. Silva (gustavo.r@usp.br) e Ingrid Gonzaga (ingrid.gonzaga@usp.br)

Há 40 anos, a Espanha recebia em seus estádios a 12ª edição da Copa do Mundo FIFA. O Brasil — que não ganhava um título mundial há 12 anos — havia montado uma seleção de craques que, rapidamente, conquistaram os brasileiros e se tornaram favoritos ao campeonato. A trajetória da seleção canarinho durante a Copa trouxe expectativa para o torcedor, mas a Itália de Paolo Rossi acabou com a festa verde e amarela ao derrotar o Brasil em 5 de julho de 1982 — episódio que ficou conhecido como a Tragédia do Sarriá.

Anos de jejum e esperança

O cenário pré-Copa de 82 era amargo para o torcedor brasileiro. Desde a Copa de 1970 — a última com a participação do Rei Pelé —, a seleção não sabia o que era levantar uma taça. Na Copa de 74, perdeu a disputa de terceiro para a Polônia e, em 78, ficou em terceiro lugar em cima da Itália. Não bastasse a sequência de resultados desfavoráveis, o Brasil ainda assistiu aos hermanos argentinos, seus antigos rivais, serem campeões em casa mesmo sem o ídolo Maradona

Membro da seleção, Pelé jogou a Copa de 70

Pelé em jogo na Copa de 70, a última de que participou [Imagem: Divulgação/CBF]

As expectativas estavam altas para o mundial na Espanha. A seleção brasileira fez ótimas partidas nas Eliminatórias Sul-Americanas da Copa: permaneceu invicta nos quatro jogos disputados e liderou seu grupo, que contava com Bolívia e Venezuela. De todos os grupos, o Brasil foi a equipe que acumulou mais pontos — oito no total — e Zico foi o artilheiro da competição com cinco gols. A seleção ainda contava com nomes reconhecidos como alguns dos melhores da história do futebol global até hoje. Era como se ninguém pudesse tirar dos brasileiros o prêmio ao qual eram favoritos.

 

Uma geração de grandes nomes

A seleção de 82, ainda que não tenha levantado a taça em terras espanholas, marcou a memória dos torcedores de sua época. No elenco, craques como Zico, Falcão e Sócrates encantaram toda uma geração de apaixonados por futebol. Comandados por Telê Santana, também Júnior, Leandro e Toninho Cerezo jogaram seu famoso futebol-arte.

Seleção brasileira que jogou a Copa de 82

Seleção brasileira que jogou a Copa de 82 [Imagem: Divulgação/CBF]

Zico, dono de um dos nomes mais conhecidos do esporte brasileiro, jogava pelo Flamengo no ano da Copa da Espanha. Ídolo do rubro-negro, foi capitão do time quando em 81, em um jogo contra o Liverpool, os flamenguistas “botaram os ingleses na roda” e foram campeões mundiais. Juntamente com os companheiros da Gávea, ganhou três campeonatos brasileiros e diversos estaduais. Por onde passou, Zico fez história — seja na Itália ou no Japão — e foi uma lenda brasileira nos gramados internacionais. Porém, em sua carreira de grandes feitos, uma mácula: nunca conquistou o mundo com a seleção canarinho.

Sócrates, o Doutor, foi o capitão da seleção de 82. Formado em medicina pela Universidade de São Paulo e atuante em diversas causas políticas e sociais, começou a jogar no Botafogo de São Paulo. Anos mais tarde, no Corinthians — por quem jogava na época da Copa —, virou ídolo e ficou conhecido como um jogador de inteligência incontestável. Em 1989, encerrou a atuação como atleta e continuou por mais alguns anos no esporte como técnico. Faleceu no final de 2011, vítima de um choque séptico, aos 57 anos.

Outro craque, Paulo Roberto Falcão — ou só Falcão, como é mais conhecido — estava no meio de seu reinado na Itália quando foi convocado para representar a seleção. O “Rei de Roma”, como passaria a ser chamado em 83 por ajudar a Roma a vencer o Campeonato Italiano e sair de uma seca de 40 anos, já havia jogado no Internacional. Em 85, voltou para o Brasil para jogar no São Paulo, time no qual se aposentou. Falcão continuou sua carreira no futebol, mas fora das quatro linhas: tornou-se treinador e comandou equipes dentro e fora do país.

Telê Santana, o Mestre, também teve uma grande carreira como jogador. Iniciou profissionalmente atuando pelo Fluminense, seu time do coração, em que ficou conhecido como “Fio de Esperança”. O mineiro, que permaneceu 11 anos na equipe do bairro das Laranjeiras, foi um dos jogadores que mais vestiu a camisa do tricolor carioca na história. Com passagens pelo Guarani e pelo Madureira, pendurou as chuteiras no Vasco da Gama. Mas foi como técnico que Telê marcou seu nome no futebol brasileiro. Voltou ao Flu, como professor, em 1969 e comandou diversas equipes no Brasil e até na Arábia Saudita. Com o São Paulo, conquistou duas vezes seguidas a América e o mundo: levantou as taças da Libertadores e do Mundial de 92 e 93. Santana esteve à frente da seleção verde e amarela de 80 a 82, depois em 85 e 86 e é lembrado como um dos principais nomes em sua função no Brasil.

 

Voa, Canarinho, Voa

“Mostra na Espanha o que eu já sei!” A canção “Povo Feliz”, — popularmente conhecida como “Voa, Canarinho, Voa” —, embalou a seleção brasileira. Na voz do Maestro Júnior, o samba se tornou um novo hino de um Brasil confiante, que partia em busca do tetracampeonato mundial. Com tantos craques, a expectativa era de show da canarinho, encantando o mundo com seu futebol arte. 

Na primeira fase, o grupo do Brasil tinha Escócia, Nova Zelândia e União Soviética, que foi a primeira adversária. Em uma partida realizada em Sevilla, mesmo criando muitas oportunidades, a seleção brasileira não conseguia marcar um gol. Aos 34’, o placar foi inaugurado pela URSS, com um “frango” de Waldir Peres. O Brasil não se abalou, e no segundo tempo virou a partida com dois golaços de Sócrates e Éder.

Contra a Escócia, apesar de novamente sair atrás no placar, a amarelinha não teve dificuldades para virar o jogo e fechar o placar em 4 a 1. Para fechar a chave de grupos, mais um show brasileiro: 4 a 0 contra a Nova Zelândia, em uma atuação espetacular de Zico e gols memoráveis.

O Brasil demonstrou fragilidades defensivas, mais evidentes nas partidas contra a URSS e a Escócia, que chegaram a estar à frente no placar. O meio-campo formado por Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico reunia muita qualidade técnica, mas não possuía nenhum jogador com características de marcação, e com os craques decidindo todos os jogos com belos lances e gols, isso não parecia ser um problema.

Na estreia da segunda fase — disputada em uma nova fase de grupos, agora com três seleções —, um confronto com a atual campeã do mundo e eterna rival Argentina. O grupo da albiceleste era formado por diversos jogadores campeões da edição anterior da competição, e ainda contava com a promessa Diego Armando Maradona, que fazia sua primeira aparição em copas. Mesmo com todas as qualidades, os hermanos não ofereceram perigo algum para o Brasil, que dominou as ações do jogo. Com gols de Zico, Serginho Chulapa e Junior, a canarinho abriu 3 a 0 com tranquilidade. Na reta final da partida, já desestabilizado, Maradona foi expulso ao cometer uma falta extremamente violenta no meio-campista Batista, jogador de marcação que havia entrado no lugar de Zico. Mesmo com um jogador a menos, a Argentina diminuiu o placar nos últimos minutos, e o clássico terminou 3 a 1 para a festa dos brasileiros. “A vitória contra a Argentina, aliás, qualquer vitória contra a Argentina sempre é uma coisa espetacular, né?”, relembra Luiz Fernando Santoro, torcedor brasileiro.

A respeito da vitória contra a atual campeã ter de certa forma “iludido” e “enganado” o povo brasileiro, Santoro afirma: “Não é que ela deu uma enganada no torcedor. Eu acho que os torcedores nunca deixaram de acreditar na seleção brasileira. Era uma seleção muito bem estruturada, que tinha grandes nomes do futebol brasileiro. Então, na verdade, acho que o brasileiro continuou acreditando na seleção, como fazia desde o início da Copa”.

 

A tragédia do Sarriá

A próxima adversária foi a seleção italiana. Com a segunda fase sendo disputada em grupos, na qual apenas o primeiro colocado avançava para as semifinais, o Brasil precisava apenas de um empate para conquistar a classificação — tinha maior saldo de gols, pois derrotou a Argentina por 3 a 1, enquanto a Itália os venceu por 2 a 1. Para o torcedor brasileiro, parecia um cenário sem grandes riscos. A Azzurra vinha de uma campanha sem confiança na primeira fase, quando empatou todos seus jogos, contra Polônia, Peru e Camarões. Os italianos venceram sua primeira partida na Copa só na segunda fase — contra os argentinos, antes de enfrentar os brasileiros — e possuíam apenas 4 gols marcados e 3 gols sofridos. A canarinho chegava ao confronto com 100% de aproveitamento, 13 gols marcados e 3 sofridos. 

O estádio do Sarriá, em Barcelona, foi o palco de uma das grandes surpresas da história das copas do mundo. Logo aos 5’ do primeiro tempo, Paolo Rossi — que até então não tinha nenhum gol marcado na competição —, cabeceou livre para abrir o placar. O Brasil não demorou para igualar a partida. Aos 12’, grande jogada de Zico para um belo gol de Sócrates. O resultado já seria suficiente para a classificação, mas ainda havia muito jogo pela frente. Ainda no primeiro tempo, em um lance de desatenção incomum, Toninho Cerezo entregou a bola para Rossi, que partiu em velocidade e a mandou para o gol mais uma vez. Na segunda etapa, um gol de Falcão igualou o placar novamente, mas a alegria durou pouco. Aos 30‘, ele: Paolo Rossi. 

“O time da Itália teve dificuldades na primeira fase, mas depois engrenou e virou um time de craques, foram campeões do mundo. O Brasil não fez uma boa partida contra a Itália, apesar de ter disputado o tempo inteiro: a Itália saindo na frente, o Brasil empatando. De qualquer forma, não acho que o Brasil subestimou o adversário, acho que foi uma partida ruim. Eu ouso dizer até que se tivesse que jogar cinco vezes com a Itália, o Brasil ganhava quatro e perdia uma”, afirma Santoro.

Em 5 de julho, a seleção brasileira se despediu da Copa do Mundo, enquanto a italiana continuou crescendo e partiu rumo ao tricampeonato. Além de detalhes dentro de campo, como uma defesa espetacular do goleiro Dino Zoff em uma cabeçada de Oscar, detalhes extra-campo também fizeram a diferença para que a tragédia do Sarriá acontecesse. Paolo Rossi sequer disputaria a Copa, devido ao seu envolvimento no Totonero — escândalo de manipulação de resultados no campeonato italiano. Em 1980, o atacante havia recebido uma punição para permanecer três anos longe dos campos, mas conseguiu uma redução de um ano em sua pena graças a um apelo judicial. Mesmo tanto tempo longe dos gramados, o jogador foi convocado e, até então, não havia marcado gols na competição. Após a partida contra o Brasil, Rossi desencantou, foi artilheiro e craque na ocasião.

 

 

O Legado da seleção brasileira de 82

Apesar de não ter conquistado o título da Copa do Mundo na Espanha, a seleção de 82 figura entre as maiores equipes da história do futebol mundial. Nas palavras de Pep Guardiola, técnico e ex-jogador espanhol, “se depois de tantos anos as pessoas lembram daquele time, é porque aquele time era muito bom. Não sei se lembram de seleções campeãs mundiais como lembram daquele time”. Mesmo 40 anos depois, o reconhecimento ao talento dos jogadores e a qualidade da equipe é destaque em todo o mundo. 

“O legado da seleção de 82 é o de uma seleção brasileira de jogadores que atuavam no Brasil. Hoje é um pouco difícil reviver aquela época, mas acho que o grande legado foi no sentido de que aqui no Brasil nós temos jogadores de qualidade e eles vão jogar no exterior  por valores milionários. Essa seleção, se eu não me engano, tinha só um ou dois jogadores que jogavam no exterior. Era uma seleção montada com um técnico brasileiro, Telê Santana, respeitado por todos, que tinha um jogo sempre muito ofensivo. Acho que o grande legado é de acreditar no jogador brasileiro, e aquele que atua no Brasil”, destaca Santoro.

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