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Transformando história em ouro
História da Ciência
25 dez 2019 | Por Vinicius Garcia (vini.garcia.ferreira@usp.br)

O que seríamos nós se não fruto do que um dia fomos? O passado nada mais é que o fator definidor do presente, assim como este é do futuro. E assim é também com a ciência. É sempre necessário se orgulhar de sua origem, não é mesmo? E parte dessa origem é, com certeza, a Alquimia. Esta área, hoje considerada uma pseudociência no senso comum, foi originária em grande parte de diversas áreas do pensamento.

Muito do que a Alquimia almejava alcançar hoje parece impossível, apesar de muito útil. O objetivo desse texto é portanto rever esses objetivos e elucidar o quão próximo a ciência, atualmente, chegou deles. Além disso, cabe explicar melhor a prática e como ela ainda persiste nos dias de hoje.

Os principais objetivos

A Alquimia pretendia, essencialmente, conquistar duas metas principais: transformar todo e qualquer metal em ouro e alcançar a vida eterna. Aqui entram as duas coisas que talvez sejam mais associadas à essa prática: a pedra filosofal e o elixir da vida. A primeira, acredite se quiser, existe como conceito muito antes de um bruxinho britânico ter que procurá-la em sua escola. Seria ela, segundo os alquimistas, que transformaria os metais em ouro. A segunda, que também já foi muito adaptada na cultura pop, é a que busca dar vida eterna a quem a bebesse.

Alquimia?

Quando a palavra Alquimia é dita, é comum que esta seja muito associada à imagem de um europeu, narigudo, de cabelos brancos e roupas chiques, dentro de um laboratório escuro localizado em algum castelo medieval. Essa imagem apresenta grande teor de realidade, porém a sua relação imediata com a prática talvez seja fruto do domínio europeu na escrita da história. A verdade é que muito antes de haver europeu de peruca, havia Alquimia.

É como explica o professor Paulo Alves Porto, especialista na interação da história da ciência com o ensino de química do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP): “no Ocidente, ela [a Alquimia] tem origem no chamado Período Helenístico, lembrando que os Macedônios desenvolveram um poderio militar e dominaram a Grécia e toda aquela região do Oriente próximo, mesmo do Oriente Médio, do Egito, chegando até a Índia”.

O professor cita o contato da filosofia grega com os conhecimentos antigos dos egípcios, dos mesopotâmios e dos persas, por exemplo, e diz que “Dessa confluência de diferentes culturas é que surgiu uma forma de Alquimia, por volta do século três antes de Cristo”.

A Alquimia, porém, não só é muito mais antiga que os europeus, como também não foi praticada somente por eles. Houve a alquimia árabe, descendente dessa alexandrina, ou helênica, já exposta. Houve uma chinesa, que teve pouco contato com o Ocidente. E por volta do século 11 ou 12 houve uma alquimia desenvolvida pelos latinos, chamada de cristã.

O caráter comum entre todas essa práticas para serem agrupadas sob o mesmo nome são altamente explicadas pela assimilação de conhecimentos anteriores por novas práticas. A alexandrina, a árabe e a cristã beberam muito de si, nesta ordem. Mas no geral, agora incluindo a chinesa, todas têm aspirações de cura e de alguma maneira estudam o ouro.

Conhecimento que vale ouro

Com a visão atualmente muito difundida de que a Alquimia é uma “pré-ciência” muitas pessoas rapidamente a desvalorizam. Porém vale lembrar que essa forma de conhecimento tinha, e ainda tem, seu valor.

A principal diferença entre a Alquimia e a química está na visão sobre a matéria, o universo e a matéria. Paulo pontua que “a alquimia fazia sentido como ciência dentro de uma visão de mundo que via o universo como sendo um todo com suas partes interligadas, onde uma influenciaria a outra. Um pensamento mágico. O universo seria um imenso organismo vivo”.

“O olhar da alquimia ser uma pré-química é um olhar um pouco antigo do ponto. Historiadores da ciência atuais tem um olhar um pouco mais complexo sobre essas formas de ciência do passado”. Se do ponto de vista das ideias as duas áreas são diversas, do ponto de vista técnico, porém, elas apresentam uma grande continuidade. Inclusive, explica o professor, os dois termos, química e alquimia, eram por muito tempo permutáveis. A diferenciação entre os dois ocorreu no século 18 justamente para delimitar o que era ciência e o que não era.

Essa diferenciação ocorreu principalmente devido à grande mudança que começou nas Grandes Navegações, com a expansão do mundo europeu, mudança essa que “influiria na economia, na política, na filosofia e na ciência, primeiro com a astronomia e a mecânica, o que levaria ao que chamamos de ciência moderna. A química também vai nesse caminho”. Aqui vale citar Lavoisier e sua “revolução química”, que já começa assim a diferenciar as duas áreas. Porém a fundação da química propriamente dita foi longa, começou antes de Lavoisier e terminou depois dele, e foi acompanhada com uma mudança parecida na cultura e na sociedade.

Entretanto, a alquimia, essa área do saber hoje tão espezinhada, já foi tida como algo muito importante. Era mantida com muito segredo pelos praticantes, sendo escrita em poucos livros e passada de mestre para aprendiz, já que, além de informação, aprender alquimia exigia um processo também espiritual para que se realizasse a chamada grande obra, ou seja, a realização da pedra filosofal e da perfeição do espírito, da matéria e do corpo.

Fora isso, muitos reis também viam a área com certo apreço. Paulo conta que “governantes e imperadores vendo o potencial de, num período de guerra, de transformações, como nas grandes navegações, a necessidade de ouro ser saciada por alquimistas”. Fora isso, em tempos de doenças e enfermidades, a busca pela vida eterna se mostrava bastante útil.

O professor continua citando um dos mais conhecidos casos que foi o de Rodolfo II, imperador romano-germânico, que na sua corte de Praga reuniu muitos alquimistas e outros estudiosos.

Dentre os Alquimistas, poucos são conhecidos. Porém Paulo relembra os nomes de alguns que são lembrados por suas contribuições: a alquimista Maria, chamada de a judia, que teria desenvolvido a técnica de aquecimento do banho-maria, Rasis, da alquimia árabe, Jabir Ibn Hyung, que ficou conhecido pela tradução Geber e inspirou o nome de um grupo de alquimistas, Nicolau Flamel, Paracelso, que atuou em diversas áreas, como a filosofia química, e, surpreendentemente, Robert Boyle, que também foi químico mas estava também interessado na preparação da pedra filosofal, e Isaac Newton, que inclusive se preocupou profundamente com a localização dos manuscritos de Boyle após a sua morte.

Ser ou não ser…uma pedra?

Ao contrário do menino da cicatriz de raio, nós, do mundo real, infelizmente não achamos nada próximo à pedra filosofal. O conceito dela, precisamente, é o de transformar qualquer metal em ouro de maneira rápida ou instantânea. Isto porque o ouro não só tinha imenso valor monetário em grande parte da história humana, mas também era visto como a forma mais pura da matéria. Purificar os metais, então, era o primeiro passo para poder purificar o espírito, pensam os alquimistas.

Quando perguntei se a ciência atual, principalmente a química, tinha alcançado algum feito como o da pedra filosofal, Paulo deu uma resposta interessante: sim e não. “Do ponto de vista químico, é impossível fazer aquilo que os alquimistas propunham, no sentido de transformar um metal comum em ouro por processos químicos, envolvendo relativamente pouca energia”.

Ele continua dizendo que é sim possível transformar um elemento em outro, com o fenômeno da radioatividade, que não é um processo químico. “É possível fazer isso artificialmente, você pode sim transformar átomos de um elemento em outro elemento, como mercúrio em ouro. Mas para isso você precisa de um acelerador de partículas”. A produção, porém, não poderia ser feita num nível industrial, por exemplo, já que uma quantidade minúscula é obtida com um gasto altíssimo. Ou seja, é sim possível transformar um metal em ouro, mas, além de não ser da maneira que os alqumistas propunham, é inviável economicamente.

Vivendo a ciência adoidado

Aqui, o debate sobre a definição do que os alquimistas pretendiam alcançar e como pretendiam alcançá-lo é bem vivo. Alguns almejavam a vida eterna, outros aspiravam também à juventude eterna. Alguns acreditavam em um elixir da vida, outros que a pedra filosofal faria essa função.

Ricardo di Lazzaro, especialista em envelhecimento do Instituto de Biologia da Universidade de São Paulo (IB-USP), explica que alcançar uma vida eterna, ignorando causas mortis externas, é impossível. Ainda.

A expectativa de vida de uma espécie é determinada, em geral, pela evolução. Ricardo exemplifica citando um peixe africano, animal com o menor ciclo de vida: “ele só vive nos períodos de chuva de uma região específica da África, que ocorrem uma vez por ano. Então, chove, a poça tem ovos dele, e assim que chove, ele tem que se desenvolver rapidamente para acasalar e rapidamente gerar ovos, que ficam protegidos durante a seca”.

Nós envelhecemos, então, por diversos motivos. Ricardo cita como alguns dos principais causadores o dano ao DNA, a questão epigenética, as células senescentes. Fora isso, ele ainda lembra questões como o acúmulo de proteínas tóxicas entre as células e o mal funcionamento de algumas proteínas e a comunicação intra e intercelular.

Como danos ao DNA, ele relembra principalmente sobre os danos aos telômeros do DNA. Os telômeros, diz ele, “são como as pontas de um cadarço que impedem que ele se esfarele e desfie”. Conforme as células se dividem os telômeros diminuem, até um ponto que elas param de se dividir. A epigenética é explicada por ele como a manifestação de comandos genéticos nos períodos certos, como o hormônio de crescimento que deve começar a ser liberado na infância e terminar na pré-adolescência. Por fim, células senescentes são aquelas tão velhas que acabam por não se dividir mais, de maneira que elas podem, inclusive, causar inflamações no local.

“Morrer de velho”, como muitos dizem, não é uma morte literalmente causada pelo envelhecimento. “A principal causa da maior parte das doenças é a idade”. Portanto, quando as pessoas ficam mais velhas, as doenças aumentam sua incidência no geral, inclusive as fatais. “Morrer de velho, então, é quando não se tem uma causa clara e detectada, porém algo no organismo não estava funcionando bem”, termina Paulo.

É possível naturalmente se prolongar a vida. Apesar de ser algo ainda muito discutido, Paulo ressalta que “hábitos de vida são algo muito importante para a longevidade”. Portanto, a típica “vida saudável”, de exercícios e alimentação balanceada, realmente ajuda a pessoa a viver mais. Porém, “estima-se que a genética tem entre 10 e 30% de importância para a expectativa de vida de uma pessoa”. Fora isso, fatores sociais também têm um papel, já que pessoas com mais dinheiro conseguem, geralmente, viver mais, relembra Paulo. 

Apesar de parecer algo impossível, retardar ou extinguir o envelhecimento por meio artificial não é algo tão inconcebível para a ciência, apesar de ainda ser muito discutido. Ricardo explica que “existem alguns fármacos que parecem ter alguma ação de rejuvenescimento em certo grau: foi descrito que um antitumoral, que é um medicamento para câncer, fez cabelos brancos e grisalhos voltarem a ficar da cor natural”. Em animais, também é possível o rejuvenescimento com remédios ou terapia genética, ou seja, algo similar pode acontecer com humanos, porém a terapia ainda está em fase de aprendizado por parte dos cientistas, e portanto não é amplamente usada.

Um dos grandes entraves para o desenvolvimento da pesquisa antienvelhecimento, porém, é que o envelhecimento não é considerado uma doença e, portanto, não é possível que se realizem testes para remédios. Ricardo crê que isso não será algo fixo, sendo mais uma questão histórica, mas conta que testes ainda podem ser feitos, como é o caso de “uma empresa de biotecnologia europeia desenvolveu um medicamento antienvelhecimento, mas como envelhecimento não é uma doença, eles viram o que poderia melhorar nos idosos, e acabaram por realizar testes para demonstrar que o medicamento melhorava a imunidade deles”. E assim, em alguns anos, o medicamento poderá ser comercializado no mercado.

Vivendo para sempre

Talvez da maneira mais poética possível, a Alquimia tenha alcançado um de seus objetivos. Através de diversas áreas ela, de alguma maneira, ainda vive. Como já explicitado, a química ainda utiliza muitas das técnicas descobertas por alquimistas. 

O exemplo mais famoso, talvez, seja do banho-maria, já citado, mas também é possível mencionar “técnicas de aquecimento, de construção de fornos, de destilação, cristalização, preparação dos ácidos minerais”. Ainda sobre os ácidos continua dizendo que, apesar das duas áreas os enxergarem de maneira diferente, as técnicas persistem, ou seja, há uma proximidade muito maior do que se imagin.

Porém, na ciência atual, a alquimia transcende muito sua função estereotipada de pré-química. Jung, um dos mais ilustres psicólogos da história, desenvolveu o que chamou de psicologia analítica. Dentro de seus estudos ele desenvolveu uma interpretação para a alquimia que é muito diferente da visão da história da ciência. Para ele, essa área do saber nada mais era do que a projeção sobre a matéria de processos que ocorrem no inconsciente.

Além disso, a homeopatia ainda conserva muitos dos princípios da Alquimia. Paracelso, alquimista já citado, foi uma das diversas fontes de Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia. A ideia, por exemplo, da cura por semelhantes é algo comum aos dois pensadores. “Esse conceito de cura diz, basicamente, que se a doença é causada por um veneno, o contato gradual de alguém com doses desse veneno devidamente purificadas no laboratório alquímico poderia transformá-lo em remédio para aquela doença”, diz Paulo. 

Muito do preconceito atual com a área vem, inclusive, do fato de que ela se baseia em fundamentos totalmente incompatíveis com a ciência atual e que são muito mais alinhados com o pensamento alquímico.

Certo é que é impossível ignorar a Alquimia. Ela está longe da visão típica de uma pseudociência da Europa medieval. Ela é diversa, praticada em vários lugares e ainda hoje persiste em existir. Tentar desvalorizá-la é tentar, na realidade, valorizar as áreas da ciência atual, desmerecendo um olhar diferente das coisas, um olhar místico. 

Paulo evidencia que essencialmente nada sobre alquimia é vista na graduação de um químico. Relegar esse tipo de conhecimento para seções de curiosidade ou para um mero slide dentre outros tantos é apagar anos de desenvolvimento e de conhecimento. E quem apaga a verdade, ouro enterra.

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