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Tristes histórias que precisam ser ouvidas
CINÉFILOS
29 abr 2013 | Por Jornalismo Júnior

Durante as próximas semanas, entre os dias 29 de abril e 17 de maio, o Cinusp Paulo Emílio promove a mostra Conflitos Armados, Massacres e Genocídios na Era Contemporânea.  O espaço que o Cinusp abre tem a responsabilidade social de propor a discussão da condição de instabilidade civil de alguns países ao redor do mundo. A pressão da comunidade internacional é a mais potente arma no combate aos conflitos armados e ao campeio do genocídio. O cinema se vale de um espaço público importantíssimo e histórico fomentador de debates de interesse público. A cobertura completa você acompanha aqui no Cinéfilos.

A mostra traz filmes com propostas diversas, mas que abordam de alguma forma o conflito armado e os regimes genocidas ao redor do mundo. Passando pelo genocídio armênio, realizado pelo regime turco no começo do século 20, em Screamers, indo de encontro ao renomado Arquitetura da Destruição, que apresenta de forma magistral a estética nazista, até a animação O Túmulo dos Vagalumes, com a perspectiva da Segunda Guerra pelos japoneses.

Imagem do genocídio armênio, do qual o filme Screamers trata

As temáticas são densas e, cada uma a seu estilo, nos propõe reflexões dolorosas sobre até onde a capacidade humana de produzir o horror é capaz de ir. E por que é importante se expor à esse tipo de temática? A reposta pode ser encontrada em muitos livros e em muitos processos de tribunais de julgamento, mas a versão mais contundente que já ouvi veio de um jovem armênio, há cerca de cinco anos no Brasil. “É importante que um genocídio seja reconhecido por todos os países, porque quando você reconhece um crime, ele não se repete”, disse ele, em um misto de esperança e indignação. O genocídio armênio completou 98 anos no último dia 24 e até hoje só foi reconhecido por 21 países.

O genocídio é um crime velado, que nasce por baixo dos panos e que normalmente demora tempo até ser identificado. Tempo esse crucial para milhares de vítimas, que sofrem as consequências dos regimes que as oprimem.O termo é recente. Desenvolvido pelo sobrevivente do holocausto Raphael Lemkin, foi introduzido a duras penas na comunidade internacional. O novo termo, que causava estranheza nas primeiras assembleias em que foi apresentado, tem base no grego: genos, família ou grupo; cídio, matança.

Lemkin dedicou a vida inteira para que esse tipo de atrocidade não fosse considerado um crime de guerra comum. Porque de fato não é. O genocídio é o objetivo deliberado de um governo ou de um sistema de dizimar uma etnia ou minoria. A vitória de Lemkin só veio em 1948, quando o termo por ele criado foi cunhado pela ONU, na Convenção do Genocídio.A Convenção estabeleceu que qualquer intenção de destruir total ou parcialmente um grupo nacional, étnico, racial ou religioso por meio da matança de meios do grupo, da lesão grave à integridade física ou mental desses membros, da submissão intencional do grupo a condições de existência que acarretam a destruição física, total ou parcial, de medidas destinadas a impedir o nascimento no seio do grupo ou do traslado a força de crianças do grupo para um outro grupo é genocídio. O difícil, ao longo dos anos, foi fazer valer essa decisão.A abstenção das grandes potências em uma tentativa de evitar conflitos diplomáticos reflete diretamente na vida de milhares de pessoas. Uma repressão severa e punições à altura teriam permitido as barbáries em Ruanda e na Bósnia? Um posicionamento mais rígido não seria capaz de evitar os estupros sistemáticos e as mortes em massa realizados pelas forças armadas sírias, em uma guerra que já dura quase dois anos?

Imagem do filme Tiros em Ruanda, que retrata o genocídio acontecido no país na década de 90

A ganhadora do Pulitzer de 2008, Samantha Power, escreveu um livro reportagem sobre a ação dos Estados Unidos frente ao genocídio. “Antes de começar a estudar a relação dos Estados Unidos com o genocídio, eu me referia à política americana para a Bósnia como “um fracasso”. Mudei de ideia. É assustador reconhecer, mas a consistente política de não-intervenção deste país diante do genocídio constitui um lamentável testemunho não de um sistema político americano falido, mas impiedosamente eficaz”, escreveu ela. “O sistema, como é atualmente, está funcionando. Nenhum presidente americano fez da prevenção do genocídio uma prioridade, e nenhum presidente americano jamais sofreu politicamente por sua indiferença à ocorrência de genocídio”.

A política brasileira de combate à esse tipo de conflito também não é clara, se esbarra nos atritos diplomáticos. Em janeiro deste ano, o enviado da ONU à Síria, Lakhdar Brahimi, pediu que o Conselho de Segurança atuesse para pôr fim aos “níveis de horror sem precedentes” registrados na guerra civil naquele país, disse à Agence France Press. Três meses depois a comunidade internacional ainda discute como agir mais duramente com o regime e se deve ou não invadir as fronteiras e anunciar um cessar-fogo.

A mostra das próximas semanas é um lembrete sobre como nós não podemos nos esquecer daqueles que, ainda que quisessem, não conseguiriam esquecer. Temos aqui uma oportunidade de nos aproximar daqueles que são lembrados dos piores problemas do mundo todos os dias, afinal, são obrigados a conviver com eles. E nós assistimos passivos. A mostra do Cinusp é uma prova de como a arte pode interferir socialmente e vem para abrir os olhos daqueles que não aceitam se acomodar.

A programação completa pode ser conferida neste link. As entradas são gratuitas e as senhas são distribuídas por ordem de chegada.

Por Paloma Rodrigues
martinho.paloma@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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