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Um Estado de Liberdade e Romantismos
CINÉFILOS
17 nov 2016 | Por Jornalismo Júnior

A história dos Estados Unidos é marcada por pólvora, ferro e sangue, e a Guerra Civil Americana foi um dos conflitos que mais contribuiu para isso. Em termos pragmáticos, foram os estados do norte, a União, contra os estados do sul, os Confederados. Em termos históricos, foi um embate de tempos. O século XVIII, agrícola e escravocrata, resistindo ao século XX, inexoravelmente industrial. Em meio ao caos, como em qualquer guerra, a população civil é dilacerada por todos os lados. Senão pelo chumbo, pelos impostos. Um Estado de Liberdade (Free State of Jones, 2016), dirigido por Gary Ross, narra a história real de um homem que não conteve seu descontentamento e declarou guerra à guerra.

Newt (Matthew McConaughey) carries Daniel (Jacob Lofland) across an active battlefield

De todas as revoluções da história militar, talvez a mais notável tenha sido a capacidade de disciplinar um coletivo de seres humanos a avançar para onde a morte se mostra tão prosaica quanto chuva. E nas guerras do século XIX isso acontecia com um cavalheirismo obsceno. A projeção, no entanto, parece não ser capaz de trazer a dimensão total da violência. Não o suficiente para tirar do vermelho e dos corpos triturados a glorificação das coisas filmadas. A obra em questão não percebe isso e abre com uma sequência hiper-realista de batalha, na qual não se poupa ao ostentar a violência em alta-definição.

Neste cruzar de balas, Newton Knight (Matthew McConaughey) carrega combatentes desesperados por graves ferimentos até às exasperantes enfermarias. “Oficiais são atendidos primeiro”, ele diz ao soldado enquanto tira das suas vestes o que o identifica como tal, “temos um capitão aqui!”. O jovem é prontamente atendido.

Não há glória ou honra na guerra, toda morte é feia. Knight encara esta realidade diariamente, viu centenas caírem para nunca mais. Está exausto daquilo. Perder seu sobrinho, nos próprios braços, quando não pode repetir a estratégia de promover a oficial, foi o estopim para a deserção. Entretanto, uma vez de volta em casa, no sul dos Confederados, se deparou com um outro conflito.

Não se sustenta centenas de batalhões sem a ajuda dos cidadãos. O dever do civil é prover às tropas que lutam. Mas lutam para quem? Knight passa a se questionar. Só o que vê são famílias humildes terem seu milho, produto de suor e calos da enxada, usurpado por coronéis em uniformes lustrosos. Enquanto latifundiários mantém plantações de algodão cultivadas por dezenas e dezenas de escravos.

Knight não resiste ao insuportável peso de sua consciência, conquanto aos protestos da mãe de seu filho, “você precisa parar de lutar a luta dos outros”. Pontualmente, começa a erigir a população contra a cobrança abusiva de impostos. É perseguido e precisa se refugiar nos pântanos do Mississippi. Lá, encontra (ex-)escravos fugitivos com os quais se alia. Para Newt a cor da pele não parece ser motivo para subjugar outrem.

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Sua luta ganha mais adeptos, os Confederados procuram conter o motim com crescente veemência, mas os “homens livres do condado de Jones” não se curvam até o fim da guerra. A paz entre os estados do sul e do norte, no entanto, não significa a paz de todos. A escravidão ainda prevalece e mesmo depois que acaba, o racismo não dá trégua. É triste pensar, do ponto de vista presente, que todo o escrutínio pelo qual os negros daquele tempo passaram ainda seria insuficiente para desbancar os discursos de ódio. O filme nos lembra disso ao contar em paralelo o decorrer do julgamento de Davis Knight, 85 anos à frente do tempo da Guerra Civil. No estado de Mississippi era proibido uma “pessoa de cor” casar-se com um(a) branco(a), o réu fora acusado de ser um oitavo negro, pois em sua linhagem houve Newt Knight e talvez ele tenha tido um filho com Rachel (Gugu Mbatha-Raw), uma escrava doméstica.

Um Estado de Liberdade apresenta uma narrativa interessante e conta-a de forma eficiente. O trabalho de direção, fotografia e som é discreto, o foco se encontra mesmo na história, na relação das personagens. Estas são encarnadas em boas atuações, com destaque para Matthew McConaughey, que já mostrara saber interpretar um tipo americano em Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013), Mahershala Ali, no papel de um escravo fugitivo calmo, porém resoluto e Gugu Mbatha-Raw, na pele da escrava doméstica, assombrada pelos caprichos sexuais de seu patrão.

O filme, todavia, provoca um desconforto. Mostra as falas progressistas de Newt contra a escravidão e o racismo, “você não pode possuir um filho de Deus”. E ao fazê-lo, com tamanha exposição, sustenta o frágil discurso do homem branco que protege e luta pelos negros, numa amálgama contraditória de mea-culpa com “nem todo branco é culpado”. Se na guerra não há heróis, também na história eles são apenas mitos.

por Daniel Miyazato

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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