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Um filme quadrado e perdido
CINÉFILOS
21 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

A relação entre o sertão e o homem é algo que fascina artistas brasileiros desde os primórdios da colonização brasileira. A caatinga brasileira é um ambiente inóspito e árido, embrutecendo os seres que nela habitam. O filme Na Quadrada das Águas Perdidas (Brasil, 2011) é mais um projeto artístico com o objetivo de uma busca por algum tipo de poesia no meio do sofrimento. Uma tentativa nobre, entretanto fracassada, tornado a experiência cinematográfica “árida” (com o perdão do trocadilho).

Dirigido pelos pernambucanos Marcos Carvalho e Wagner Miranda, o longa retrata a viagem de um sertanejo sem nome (Matheus Nachtergaele) pelas terras do sertão nordestino. Ao longo desse caminho, a personagem alterna entre momentos de harmonia e conflito com elementos da fauna e flora locais, vendo aos poucos perecerem os alicerces que sustentavam sua existência, representados respectivamente por seu burrinho, suas duas cabras e um cachorro (talvez um intertexto com “Vidas Secas”). Estruturalmente há uma semelhança com o filme O Náufrago (Cast Away, 2000). Ambos apresentam uma história de sobrevivência solitária em um ambiente inóspito, contando com um número mínimo de diálogos, visto que não há nenhum tipo de relação humana social.

A ideia de uma epopeia brasileira pela sobrevivência não é ruim. Ao contrário, o filme inicialmente propõe uma linguagem quase documental, dando destaque às ações cotidianas da personagem (como preparar uma fogueira e cortar um cacto que servirá de alimento). O grande problema é o excesso desses “minimalismos”. É desnecessário, por exemplo, mostrar a personagem realizando suas “necessidades fisiológicas” e também a repetição de algumas situações (como cenas que envolvem alimentação ou caça). Algumas coisas beiram ao nonsense: em certo momento o homem sonha que está vestido de rei e come uma grande quantidade de pó branco (seria farinha ou alguma substância ilícita?).

Matheus Nachtergaele é um excelente ator, consagrado nacionalmente. No filme, limita-se a realizar grunhidos e artificialismos corporais, chegando ao ponto de conseguir estereotipar um personagem o qual o público não tem a mínima informação sobre sua vida (exceto pelo fato de ser um sertanejo que parte rumo a uma viagem). Quando fica nervoso, o homem grita. Quando seus animais morrem faz cara de choro comovido. Ao ficar feliz, ri fartamente. Uma clara sequência de ações decoradas mecanicamente que empobrecem e simplificam uma realidade profunda, lacônica e sofrida, que leva o homem a condições animalescas.

Sonoramente, o filme é impecável, contando com um vasto e rico material de músicas tipicamente nordestinas, executadas por Elomar Figueira Mello, Geraldo Azevedo e Grupo Matingueiros. Entretanto, estas acabam deixando a película em segundo plano. Parece até que estamos diante de um videoclipe malfeito de 74 minutos.

Na Quadrada das Águas Perdidas não pode ser considerado como uma tortura (visto que tem uma duração muito curta). Infelizmente, falha na sua tentativa de juntar a sociologia da análise do homem sertanejo com algum tipo de poesia infanto-juvenil. O mundo é mais cruel do que parece. Se nossos diretores querem realmente entender a vida do homem na caatinga, é preciso sair do conforto dos estúdios e conhecer a verdadeira realidade.

 Por Gabriel Lellis
g.lellis.ac@gmail.com

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