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Um Noé com cara de novela
CINÉFILOS
02 abr 2014 | Por Jornalismo Júnior

Por Victória Pimentel
vic.oliveira.pimentel@gmail.com

Fazia tempo que não víamos histórias bíblicas em grandes produções do cinema. Uma das adaptações mais recentes destes gênero, A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004), faz aniversário de 10 aninhos em 2014. É, já faz tempo. No dia 03 de abril (amanhã) porém, este hiato será quebrado e Noé (Noah, 2014) chega às telas para deixar (ou não) os fãs destas produções mais felizes.

Quem comanda a direção do longa é Darren Arenofsky – que já esteve por trás de filmes aclamados como Réquiem para um Sonho (Requiem For a Dream, 2008) e Cisne Negro (Black Swan, 2010). A adaptação escolhida, como o próprio nome do filme sugere, é a da história de Noé – sim, aquela que conhecemos quando crianças sobre o dilúvio, a Arca e todos os casais de animaizinhos que ela abriga durante a chuva. Tá lembrado né?

Noé e sua família.

Mas no filme de Arenofsky, a história ganha outras proporções. O longa começa do mesmo modo que em Gênesis (primeiro livro da Bíblia): Deus criou o mundo, a natureza, o homem e a mulher. O casal come do fruto proibido e perde os privilégios de se viver no paraíso. A partir daí, o homem, que agora conhece o pecado, se deixa levar pela maldade e pela ambição.

É mais ou menos neste contexto que Noé – interpretado por Russel Crowe – vê seu pai ser assassinado por um exército de humanos descentes de Caim (filho de Adão e Eva que matou seu irmão, Abel). Anos depois, diante de um mundo cada vez mais envenenado pela violência, é que Noé tem a visão divina que mostra o que está por vir. Determinado a acabar com o mal da raça humana, o Criador abrirá as portas dos céus, de onde cairão chuvas torrenciais, dando origem a um grande dilúvio. Em função de sua bondade, Noé é escolhido para construir uma arca e reunir todas as espécies de animais do mundo que, junto de sua família, subirão no barco e após as chuvas serão responsáveis pelo repovoamento da terra.

Que este é o esqueleto da história, não é nenhuma novidade. Mas é claro que não ficaria só nisso: ainda tem mais, muito mais. Para construiu a arca, Noé conta com a ajuda dos ‘’guardiões’’ – espécie de anjos amaldiçoados feitos de pedra – e de sua família: sua esposa Naameh (Jennifer Connelly), seus filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logam Lerman), Jafé (Leo McHugh Carroll) e Ila (Emma Watson) – jovem que foi acolhida pela família e que seria a futura esposa de Sem. E tudo corria muito bem, obrigado. Até que um exército de humanos resolve dar as caras no acampamento da família e Noé reconhece o homem que matou seu pai, Tubal-cain (Ray Winstone). Eles exigem que possam entrar na arca quando o dilúvio chegar,  mas Noé é categórico: sem chances.

Noé (Russel Crowe) e filho, Cam (Logan Lerman), diante da grande Arca.

Apesar do caráter bíblico da história percebe-se que o diretor procurou abordar os personagens de modo bastante humanizado. Eles podem ser ‘’os escolhidos’’, mas são humanos como qualquer outro: questionam as coisas, sentem desejos e se for preciso, até matam para proteger aqueles que amam. Essa discussão psicológica é bem exemplificada através de Sem, Ila e Cam. Enquanto Sem e Ila formariam o casal perfeito (com exceção do fato de que Ila é estéril), Cam é solitário e procura uma esposa para levar consigo na arca. É o personagem que mais cativa, pois tem sentimentos semelhantes aos nossos, de modo que fica fácil compreender suas dores e frustrações. O próprio Noé – justo e heróico – é um personagem que também permite estas discussões. Por mais que se encaixe nos moldes divinos, ele também tem seus momentos de fraqueza ao longo do filme.

Esse é um dos motivos que tornam o longa bastante polêmico. Apesar de dividir as opiniões dos os líderes religiosos no mundo todo, a  projeção do filme foi proibida em um série de países árabes, entre eles Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Catar e Bahrein. Alguns líderes afirmam que o profeta foi representado impropriamente, contrariando valores islâmicos. Outros acreditam que, justamente por Noé ser um profeta e portanto, uma imagem sagrada, representá-lo já seria um pecado.

O casal Sem (Douglas Booth) e Ila (Emma Watson).

Como já conhecemos o final da história, poderíamos pensar que o filme acaba aqui. Todos os animais entram na arca, cai a chuva e Noé e sua família permanecem vivos para dar continuidade a espécia humana. Certo? Errado. Arenofsky – que também foi responsável pelo roteiro do filme, junto de Ari Handel – seguiu o script muito bem até a metade do filme. É deste momento para a frente, porém, que tudo começa a desandar.

Não é surpresa que o diretor precisaria colocar uma pitada de ficção no roteiro e acrescentar uns fatos aqui e ali para torná-lo mais interessante. Principalmente porque, na Bíblia, a história de Noé e sua família não chega a ocupar nem quatro páginas. O porém é como Arenofsky acaba resolvendo seu problema: criando uma segunda parte para a história que não tem praticamente nenhuma semelhança com aquela que pode ser lida na Bíblia. É como se tratasse, literalmente, de um novo capítulo. A alternativa, apesar de compreensível, acaba não cumprindo o seu papel em tornar o filme mais emocionante. Isso porque conta uma história completamente nova e até meio maluca, com um quê de novela mexicana. Assim, ao invés de atrair o espectador, acaba lhe deixando cansado – já que a história que ele conhecia e esperava ver no filme foi praticamente concluída, com exceção de um detalhe ou outro, na primeira metade do filme.

Cam foge do exército de humanos.

Apesar de algumas cenas criativas – como a da retrospectiva do mito da criação misturada com a teoria da evolução e outras, gravadas de modo que lembram os teatros de sombras – se destacarem no roteiro, o filme como um todo acaba não atendendo às expectativas. É mais um longa hollywoodiano cheio de clichês que conta uma história épica, com sua parcela de cenas de ação, bons efeitos e boa fotografia. Quanto as atuações, não se pode dizer que elas decepcionam, é verdade. Mas também não surpreendem.

O filme pode até ser atual – muitos elogiaram o viés ambientalista que ele aborda, no sentido de termos que cuidar do mundo para não perdê-lo –  mas em meio a tantas invenções, acaba fugindo de seu caminho. Podia ser melhor.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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