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Um país sobretudo amado por seus habitantes
CINÉFILOS
27 out 2012 | Por Jornalismo Júnior

O documentário Rapsódia Armênia (Idem. Brasil. 2012.) foi um dos filmes selecionados para integrar a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Exibido no CINUSP “Paulo Emílio” da Universidade de São Paulo na última quinta-feira (25) em uma sala lotada, com pessoas sentadas até mesmo no chão, o documentário brasileiro de 63 minutos procura revelar mostrar o povo armênio para o mundo.

Por ser produzido por pessoas que não vivem na Armênia, o filme busca uma forma cosmopolita de enxergar a cultura, a história e a atual situação do povo armênio. Para chegar a esse resultado, utiliza-se de depoimentos de estrangeiros que moram no país. É da boca de um americano, casado com uma canadense descendente de armênios, que ficamos conhecendo o ciclo de tragédias que deixou cicatrizes profundas naquele povo. O genocídio feito pelo Império Otomano, as inúmeras guerras com países vizinhos, a dissolução da União Soviética, um terremoto absolutamente destruidor, a atual recessão econômica, entre outros problemas, moldaram e continuam moldando o caráter do povo armênio e influenciando no modo particular de encarar sua situação.

É curioso para nós, brasileiros, encontrar um povo tão patriota e ao mesmo tempo tão resignado e pessimista com o próprio país. Quase todas as pessoas retratadas na filmagem reclamam da falta de empregos, da pobreza, dos filhos e parentes que são obrigados a emigrar para tentar uma vida melhor ou da falta de perspectiva dos jovens. Porém, nem por um segundo deixam de amar seu país e sua origem, num nacionalismo muito difícil de ser compreendido por nós, que estamos acostumados a achar que o Brasil é uma porcaria e só nos vangloriarmos de sermos brasileiros em época de Copa do Mundo (e nem isso ultimamente).

O filme aposta muito no jogo de focos, invertendo a imagem que está no primeiro plano a todo o momento, mostrando o que está escondido e logo depois voltando, em um movimento de constante vai e vem da lente que chega a irritar o espectador.

Os personagens do documentário, pessoas realmente moradoras da Armênia, encaram a lente às vezes com desenvoltura, outras vezes com um constrangimento aparente. Esse modo de filmagem parece querer fazer com que os espectadores olhem dentro dos olhos dos armênios, percebam profundamente tudo o que eles já passaram por meio da expressão singular de seus rostos. Funciona, apesar de também causar um certo incômodo quando o personagem retratado não se mostra confortável ao ser filmado. É como se estivéssemos invadindo a privacidade dele ao observá-lo tão minuciosamente. A grande repetição desse artifício também pode cansar o espectador.

Trecho do documentário produzido no Brasil (Foto: Divulgação)

Por outro lado, a escolha dos personagens retratados é muito feliz. Dois senhores tocando violão e cantando “Quizás, quizás, quizás”, o senhor que cuida de uma igreja e possui um bigode realmente grande, a senhora que lê o futuro na xícara de chá e não se leva a sério, a jovem que está casando com um espanhol, o ex-soldado que também é escritor e lê Castro Alves, entre muitos outros. São pessoas bem diferentes que possuem em comum o pessimismo em relação ao próprio país e, ao mesmo tempo, um enorme amor por ele.

O trailer do filme pode ser visto neste link.

Rapsódia Armênia tem também uma trilha sonora que é quase um personagem. A música ajuda a climatizar as cenas e ocupa o lugar principal quando passamos de uma história para a outra, ajudando a situar o espectador e fazendo com que ele sinta um pouco da cultura, do humor e da emoção do povo armênio.

É um documentário interessante para aqueles que gostam de mergulhar em culturas diferentes e conhecer modos distintos de encarar a vida e suas dificuldades. O povo armênio enfrentou um genocídio, guerras e desastres ambientais e ainda permanece unido. Por tudo isso, merece ser documentado, estudado e respeitado. A duração relativamente curta, de pouco mais de uma hora, é exata. Mais do que isso causaria cansaço no espectador. Uma boa dica para fugir da estética e da visão americanizada que predomina no cinema.

Por Ana Luiza Tieghi
ana.tieghi@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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