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Um pouco de mescalina
CINÉFILOS
07 mar 2010 | Por Jornalismo Júnior

Um acidente, um beijo. A primeira cena do filme Direito de Amar ( A Single Man), estréia no último 5 de março, gera uma expectativa bem conhecida entre os admiradores de filmes que começam pelo fim. A ruptura dessa primeira impressão é feita rapidamente, quando George Falconer (Colin Firth, indicado ao Oscar de melhor ator pelo papel), professor universitário muito competente, que aparentemente segue a risca as convenções sociais que determinam sua imagem e sua pesada existência, recebe um telefone avisando que Jim, seu companheiro há 16 anos, havia morrido num acidente de carro. Um acidente e o desejo de um último beijo simbolizam a realidade do sonho que abre o filme.

A falta de Jim faz com que George  vivencie uma constante sensação de perda, permeada por encontros reveladores de um homem que, mais do que experiente, sabe – ou procura saber- o que fazer com os novos rumos de sua vida. A  partir do momento em  que se ve oficialmente sozinho – cabendo melhor aqui o título original do filme “A  Single Man”-, George percebe com clareza que as experiências continuam.

Direito de amar utiliza uma linguagem cinematográfica que leva o público àquilo que equivaleria à sinestesia na literatura. As sensações transmitidas pelas imagens geram certa vertigem e desespero, caracterizando bem a personagem de George, que por vezes tenta se suicidar para, a partir de seu próprio fim, acabar com a dor da parda do parceiro tão idealizado nos lembranças.

Apesar da conotação excessivamente romântica, o suicídio pelo amor  não soa tão clichê assim  e é até ridicularizado no filme. George, na iminência de apagar a si mesmo, revólver contra a boca, adia o fim da vida ao tentar achar a forma mais confortável para seu corpo (“não”) morrer. Numa passagem que merece destaque, por fazer rir em meio ao drama, como sepultura primeira, George experimenta um saco de dormir, uma cama com almofadas, travesseiros e nada de conforto para morte. Por fim, em meio à frustração, vive.

Tons pastéis são as cores nas quais o trivial professor universitário mergulha em cenas que comprovam seu drama possivelmente mutável. Digamos que os ápices reflexivos do enredo são cromoterápicos. “Vermelho pode ser desejo ou raiva”, diz George a Potter, aluno que talvez gerasse justamente essas sensações no professor homossexual e que se aproxima dele de maneira repentina – para não dizer estranha, já que suas intenções não são claras. Lápis preto – muita maquiagem-, luz, vestido de estampa em duas cores. A personagem de Julianne Moore, Charley, é uma mulher frágil e aparece em cenas pontuais no drama. Manteve por anos um casamento fracassado e um amor platônico pelo seu amigo gay. As cores utilizadas em suas aparições são diferentes da maioria das cenas de George. Parecem querer – assim como a maquiagem- camuflar suas fragilidades, sua decadência e necessidade de superação.

“Um pouco de Mescalina”, oferece o aluno audacioso ao mestre, forçando uma aproximação através do uso em comum de uma mesma droga financiadora de experiências e de lembranças diferentes ao dois personagens.  O drama se constrói muito nesse sentido, viciando o público a provar os ópios e angústias do protagonista. Novamente a vertigem. Em certos momentos, acompanhada pela trilha sonora de acordes clássicos que de tão leves e densos parecem usar a dependência da química dramática para forçar uma hepifania coletiva em frente à telona, representativa das faces da vida.

Por Mariana Queen

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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