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Uma camisa manchada de sangue ao vento
CINÉFILOS
22 abr 2013 | Por Jornalismo Júnior

No livro Abril despedaçado, do albanês Ismail Kadaré, Gjorg Berisha agora está marcado para morrer. Tem apenas mais um mês de vida assegurado. Isso porque ele foi obrigado pela tradição a matar Zef Kryeqyq, que, por sua vez, havia matado o irmão de Gjorg. Há cerca de 70 anos, os Berisha e os Kryeqyq estão envolvidos nessa vendeta, uma rixa entre famílias motivada pela vingança e pela cobrança do sangue do parente que se perdeu. Esse costume é regido pelo milenar Kanun, código de conduta da Albânia que cobre todos os aspectos das vidas dos que estão sob a sua sombra. A camisa amarelada pelo sangue no varal é o sinal de que a alma do morto pela disputa ainda não descansou, e que a vendeta terá continuidade.

Esse é o argumento para o filme Abril Despedaçado (idem, 2001), dirigido por Walter Salles. Segundo Kadaré, a única adaptação “magnífica” de sua obra. Em vez das frias montanhas albanesas, o cenário passa a ser o sertão brasileiro. Os Breres e os Ferreiras estavam envolvidos em um jogo de vinganças graças a uma disputa por terras. Aqui, não há um código tão completo como o Kanun. O que rege as disputas familiares é a tradição oral. Que concede tréguas entre os assassinatos e faz com que os assassinos compareçam ao velório e ao almoço em memória do morto, para rezar pela alma do que se foi.

Seguir as regras, para os que vivem sob elas, é essencial. Afinal, para a família Breres, por exemplo, a honra, que está em jogo nesses casos, é a única coisa que lhes resta. Enquanto os Ferreira agora são uma família rica, com empregados, criação de gado e a posse das terras que haviam sido dos Breres, esses agora têm apenas uma casa no “Riacho Das Almas”, um bolandeiro, aparelhagem para se moer a cana, dois bois velhos.

Em 1910, a família Breres se resume a quatro membros: o pai (José Dumont), a mãe (Rita Assemany), e os dois filhos, Tonho (Rodrigo Santoro) e Pacu (Ravi Ramos Lacerda). O primogênito, Inácio (Caio Junqueira), fora assassinado em fevereiro daquele ano. Agora, pesa nas costas de Tonho a sina de vingar a morte do irmão.

Após cumprir a obrigação de cobrar o sangue do irmão que fora derrubado, ou seja, matar o assassino de Inácio, Tonho está com os dias contados. A trégua, concedida pelos Ferreira após Tonho comparecer ao velório e ao almoço em homenagem ao homem que matou, só duraria até a próxima lua cheia. Após esse dia, Matheus Ferreira (Wagner Moura) estava livre para poder caçar e matar o Breres que havia assassinado seu parente.

Seu pai acredita que ele deve usar os seus últimos dias para deixar os seus assuntos em ordem, consertar o telhado da casa e levar a rapadura que a família produz até a vila para ser vendida. Contudo, Tonho não aceita estoicamente o seu destino, e, influenciado por seu irmão mais novo, Pacu, passa a questionar a tradição que envolve a família nesse ciclo de mortes por vingança. A passagem de Clara (Flávia Marco Antônio) e Salustino (Luiz Carlos Vasconcelos) com seu circo itinerante na região, incentiva esse questionamento, despertando a imaginação de Pacu e o amor em Tonho.

A segunda investida de Walter Salles no mercado internacional
O filme anterior de Walter Salles, Central do Brasil (idem, 1998), teve uma ótima repercussão internacional. A produção teve uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e trouxe à consagrada Fernanda Montenegro uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Após esse resultado, Walter Salles tentou com Abril Despedaçado, o seu filme seguinte, alcançar alguma repercussão internacional.

Walter Salles tinha a intenção de levar o seu novo filme ao Oscar. Para que Abril Despedaçado tivesse condições de concorrer como representante brasileiro ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro ainda em 2002, ele foi exibido em 2001 por apenas uma semana em um único cinema de Salvador. Nos Estados Unidos, ele passou a ser exibido ainda em 2001, contudo, sua exibição só passou a abranger o território nacional após a cerimônia do Oscar de 2002. Nesse ano, o representante da América Latina na cerimônia, contudo, não foi o filme de Walter Salles, e sim o argentino O Filho da Noiva (El hijo de la novia, 2001).

Mas isso não quer dizer que Abril Despedaçado tenha passado em branco aos olhos do mundo do cinema. Ele recebeu indicações de Melhor Filme Estrangeiro no BAFTA e no Globo de Ouro, e Walter Salles foi escolhido como melhor diretor do ano no Festival de Cinema de Havana. Além disso, o filme lançado em 2001 é apontado como o responsável por dar visibilidade ao ator Rodrigo Santoro no mercado internacional.

Por Odhara Caroline Rodrigues
rodrigues.odhara@gmail.com

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