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Uma dama quase perfeita
CINÉFILOS
03 set 2013 | Por Jornalismo Júnior

Se Marylin Monroe se tornou conhecida por seu glamour e sensualidade, Audrey Hepburn por sua delicadeza e espirituosidade, Ingrid Bergman, por sua vez, com certeza se destacou por sua notável beleza e elegância.

Nasceu em Estocolmo, Suécia, em 29 de Agosto de 1915. Era filha de Friedel Adler Bergman, alemã, e de Justus Samuel Bergman, sueco. O gosto pela arte nasceu graças a seu pai. Ele possuía uma loja de equipamentos fotográficos e desde pequena, Ingrid foi encorajada a seguir no ramo artístico. Justus chegou, inclusive, a gravar algumas cenas da atriz, ainda com poucos anos de idade. Cenas estas que, anos depois, foram reunidas e editadas pelo diretor Ingmar Bergman – que trabalhou com Ingrid mas que, por incrível que pareça, não tem nenhuma relação familiar com a atriz.

Durante a adolescência, a vocação de Ingrid para a atuação só se desenvolveu. Assim que se formou em 1933, ingressou na Real Escola de Artes Dramáticas de Estocolmo, onde permaneceu por um ano, e mesmo antes de finalizar o curso, se destacou, chamando a atenção de um caça talentos. Era só o começo de sua carreira.

Seu primeiro papel com falas foi no longa Munkbrogreven, do diretor sueco Gustaf Molander, em 1935, no qual interpretava a camareira de um hotel que vendia bebidas alcoólicas ilegalmente. Nos dois anos seguintes, ainda na Suécia, a atriz participou de 9 filmes, sendo um deles Intermezzo (Idem, 1936), a história de um violinista que tem um caso com a filha de seu professor de piano, interpretada por Ingrid. Foi graças a este papel que sua vida mudou de vez. Ela chamou a atenção do produtor hollywoodiano David O. Selznick, que comprou os direitos do longa com o objetivo de produzir um remake. Intermezzo, uma História de Amor (Intermezzo, a Love Story) foi regravado em 1939 e Ingrid fez sua estreia no cinema norteamericano com muito sucesso.

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Sua beleza natural – diz a lenda, inclusive, que a atriz não usava a maquiagem pesada que as mulheres da época costumavam usar – e grande versatilidade ao interpretar as personagens fizeram com que Ingrid Bergman caísse com facilidade nas graças do público. Era uma dama, sempre impecável. As pessoas a adoravam e a consideravam uma mulher verdadeiramente exemplar, um modelo de integridade. Essa visão era reforçada, em especial, em função de grande parte dos papéis que interpretava na época: era sempre uma boa moça. Ao ser escalada para interpretar mais uma vez a boa esposa em O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1941), a própria Ingrid foi até o diretor do longa, Victor Fleming, e pediu que trocasse de papel com a atriz Lana Turner, cujo papel – a garçonete Ivy Peterson – era, não só diferente daqueles que costumava interpretar, como também muito mais desafiador.

No decorrer de sua carreira, participou de uma série de filmes de grande sucesso, entre eles o suspense À Meia Luz (Gaslight, 1945), que lhe concedeu seu primeiro Oscar como Melhor Atriz e um Globo de Ouro como Melhor Atriz de Drama. Ingrid interpretava uma jovem esposa que sofria nas mãos de seu marido, enquanto este a fazia acreditar que estava ficando louca. Ingrid obteve também grande destaque em  Quando Fala o Coração (Spellbound, 1945) e  Interlúdio (Notorious, 1946), ambos sob a direção de Alfred Hitchcock.  Sua atuação em Interlúdio – no qual a atriz interpreta uma espiã americana – é considerada por muitos o melhor de seus trabalhos. Estrelou também em Por Quem Os Sinos Dobram (For Whom The Bell Tolls, 1943), longa baseado no romance homônimo de Ernest Hemingway. O papel mais famoso de sua carreira, porém, foi a bela e apaixonada Ilsa Lund no clássico Casablanca, de 1942. No filme, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial, faz par romântico com o galã da época, Humphrey Bogart. Além dele, ao longo de sua carreira, contracenou com outros grandes nomes do cinema, como Cary Grant, Gregory Peck e Anthony Quinn.

Ingrid - Notorious

Ingrid com Cary Grant, em Notorious (Interlúdio)

Em 1937, Ingrid se casou com Petter Lindstrom e com ele teve sua primeira filha, Friedel Pia. A partir de então, porém, a vida da atriz começou a ganhar novos rumos. Fã do trabalho do diretor Roberto Rossellini, lhe enviou uma carta na qual expressava o desejo de trabalhar em um de seus filmes. Rossellini, como resposta, escreveu um papel especialmente para Ingrid em seu novo filme, o clássico do cinema italiano  Stromboli (Idem, 1949). Durante as gravações, no entanto, Ingrid e Roberto não conseguiram resistir e, mesmo ambos sendo casados, acabaram se envolvendo. Ingrid não era feliz em seu casamento com Petter há anos, mas mesmo assim, quando seu affair com o diretor italiano se tornou público, os fãs não receberam muito bem a novidade. A reputação recheada de perfeição de Ingrid foi destruída. A atriz perdeu sua imagem pura e angelical e, em um estalar de dedos, adquiriu o status de adúltera, imoral e mau exemplo para a sociedade americana. Chegou a ser, inclusive, criticada publicamente pelo senador do estado do Colorado (EUA), Edwin C. Johnson, que a definiu como uma ”poderosa influência para o mal”.

Antes de se casarem – em 1950 – Ingrid Bergman e Roberto Rossellini tiveram o primeiro filho, também chamado Roberto. Com o diretor, teve mais duas filhas, as gêmeas Isotta e Isabella – hoje, a atriz Isabella Rossellini, que atuou em filmes como Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) e Um Toque de Infidelidade (Cousins, 1989).

Obrigada a se afastar de sua carreira em Hollywood, Ingrid se mudou para a Itália. Lá permaneceu entre 1950 e 1955 e atuou apenas em filmes de direção do marido. Em 1956, porém, estrelou no longa As Estranhas Coisa de Paris (Elena et les homme, 1956), do diretor francês Jean Renoir, a partir do qual começou, pouco a pouco, a reconquistar sua audiência, ainda que a princípio, apenas no cenário internacional. Mas a grande volta de Ingrid ainda estava por vir. Em 1956, a convite de seu antigo colega de cena Humphrey Bogart, ela voltou a Hollywood para interpretar a princesa russa no longa Anastácia, a Princesa Esquecida (Anastasia). A atriz não apenas retornou ao cenário do cinema estadunidense como arrebatou mais um Oscar como Melhor Atriz e mais um Globo de Ouro, também como Melhor Atriz de Drama. Devagar, Ingrid Bergman retomou seu posto como atriz conceituada e reconquistou a popularidade perdida entre o público norte-americano.

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Ingrid com seu segundo marido, Roberto Rossellini

Sucesso na carreira, azar no amor, o casamento com o diretor Roberto Rossellini acabou em 1957. No ano seguinte, porém, se casou novamente, desta vez com Lars Schmidt, produtor cinematográfico sueco, com que permaneceu até 1976.

Comprovando seu triunfo, em 1974 conquistou mais um Oscar, desta vez como atriz coadjuvante, na adaptação para as telas do livro de Agatha Christie, Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express). Em um dos últimos filmes de sua carreira,  Uma Questão de Tempo (A Matter Of Time, 1976), Ingrid contracenou com a atriz Liza Minelli, e com sua própria filha, Isabella. A atriz também marcou presença na televisão – a série de TV A Woman Called Golda lhe garantiu um Emmy e mais um Globo de Ouro. No teatro, atuou em grandes cidades da Europa e na Broadway, chegando, inclusive, a ganhar um Tony Award como Melhor Atriz por seu desempenho como Joana d’Arc na peça Joan of Lorraine (1946).

No ano de 1975, Ingrid descobriu a existência de um câncer de mama. No entanto, recusou-se a se render à doença e continuou a trabalhar, concluindo seu último filme, Sonata de Outono (Autumn Sonata, 1978), sob direção de Ingmar Bergman. Lutou contra o câncer, chegando até a fazer duas cirurgias de remoção completa da mama. Após 7 anos, porém, não resistiu. Faleceu no dia de seu aniversário, em 29 de Agosto de 1982.

Com 67 anos, Ingrid Bergman deixou um legado de mais de 50 filmes e marcou a história do cinema de um jeito único. Conquistou não uma, mas duas vezes o amor do público e como ela própria disse foi “de santa a promíscua a santa novamente, tudo em uma única vida’’.

 

Por Victória Pimentel
vic.pimentel.oliveira@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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