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Uma gracinha no cinema
CINÉFILOS
29 out 2012 | Por Jornalismo Júnior

Há um mês perdemos a grande dama da televisão nacional. Com réquiems e lamentos, a opinião pública despediu-se de Hebe Camargo.

Mais expoente em trabalhos marcados pelo rádio e televisão, não podemos deixar de lado sua pequena – mas expressiva – participação em produções cinematográficas nacionais. Estreou nas telas com Quase no Céu (idem, 1949), quando tinha apenas 20 anos.

Mestre conterrâneo
Em sua passagem pelo cinema, Hebe trabalhou com um dos mais geniais atores-produtores nacionais. Amácio Mazzaropi, o Mazzaropi – nascido em Taubaté, assim como Hebe – foi seu diretor no clássico Zé do Periquito (idem, 1960). Em preto e branco, o filme de Mazzaropi traz o humor às telas de uma maneira bastante típica – entremeada por números musicais e um roteiro bem marcado por uma comédia dos costumes.

Nesta película, a rainha da tv se apresenta ao lado do cantor Agnaldo Rayol, cantando, em uma festa de casamento. Está aí outra paixão de Hebe, o canto – a apresentadora, filha de músicos, sempre teve contato com essa arte. Logo, desde antes de se voltar ao entretenimento em programas de auditório, ela se consagraria uma cantora do rádio.

Esta musicalidade presente nas produções da época se contrapõem à decadência do Teatro de Revista, que influenciava o cenário cultural carioca. No teatro, números musicais contribuíam para a apresentação dos fatos importantes da cidade, de forma à revisitá-los (como uma retrospectiva) e marcaram por muito tempo o cenário cultural brasileiro.

Uma historia de amizade
Hebe teve poucas amigas como Nair Bello. Elas formavam o trio mais divertido dos bastidores da televisão, junto da atriz Lolita Rodrigues. Nair, que faleceu em 2007, teve a oportunidade de trabalhar com a amiga – além dos conhecidos esquetes de comédia na televisão, viabilizados por Ronald Golias – em dois momentos no cinema.

Em 1951, a apresentadora esteve ao lado de sua grande amiga em Liana, a Pecadora (idem, 1951). Hebe não teve um papel muito expressivo, é Nair quem interpreta a personagem que dá nome à obra – em sua estreia no cinema. É incrível notar a diferença no trabalho de Nair, em oposição àquilo que nos acostumamos. A sedutora Liana em nada nos lembra da Pazza (em tradução literal, seu nome que dizer “louca”), personagem da atriz na Escolinha do Golias.

Hebe, após um hiato de 40 anos, voltou para o cinema ao lado de sua amiga Nair Bello. Foi nos estúdios de dublagem da animação da Disney, Dinossauro (Dinossaur, 2000), que elas se reencontraram. A dama da televisão deu voz à Baylene, um dos dinossauros idosos do grupo que busca refúgio em um cenário de extinção da espécie. Na época, este foi considerado um dos filmes mais caros de animação dos estúdios – mesmo com todo o investimento, Dinossauro não se destacou em nenhuma premiação daquela temporada.

Os dois dinossauros, dublados por Hebe e Nair Bello, carregam de humor e ironia suas reclamações e histórias. É impossível não se seduzir pelo texto leve e divertido que as duas carregam – o que nos salva de alguns momentos em que a monotonia pode tomar conta desta animação.

Personagem: Hebe
A humilde filha de um violinista de Taubaté tornou-se um ícone. Hebe Maria Monteiro de Camargo Ravagnani conquistou o país com trejeitos e bordões típicos que espalhou pela televisão. Hebe era, então, uma persona. Seus cabelos altos e platinados, seus selinhos e seu bom humor transformaram-se em marcas, parte da apresentadora.

Já em 2005, depois da experiência com a dublagem, participou do filme Coisa de Mulher (idem, 2005) de Eliana Fonseca, como ela mesma. Quando no filme a personagem Murilo (Evandro Mesquita), travestido de mulher vai divulgar seu livro na televisão, é no programa de Hebe Camargo que ele é recebido. A apresentadora preenche as telas, numa sequência de improvisação, com seus bordões “lindo de viver” e “gracinha”.

Rainha dos Contos de Fadas
Em sua última produção, Hebe Maria participou do infantil Xuxa e o Mistério de Feiurinha (idem, 2009), baseado na obra de Pedro Bandeira. Interpreta a Rainha-mãe, personagem carregada de poder e sabedoria durante a trama. Numa miscelânea de contos de fadas, a história se constrói de maneira desorganizada e previsível. A eterna luta do bem contra o mal é presente, mas de maneira pouco trabalhada.

O filme é cercado pelos clichês e situações dos contos maravilhosos. De acordo com o IMDB (Internet Movie Database – maior base de dados internacional de filmes disponível na internet), o pior da década. Entretanto, pelo seu apelo fantástico – com músicas e personagens clássicas -, despertou o interesse de uma audiência infantil – a quem o filme foi dedicado desde o princípio.

Hebe foi uma artista completa. Sabia entreter, atuar e cantar. Apesar de sua passagem pelo cinema ter sido bastante pontual, ela pôde ser aquilo que sempre quis. A gracinha, durante toda a sua vida fez rir e chorar, cumpriu seu papel; sua missão como artista. Tocou em muitos corações e modificou a vida de outros tantos.

Em memória de Hebe Maria Monteiro de Camargo Ravagnani (08/03/1929 – 29/09/2012)

Por Fábio Manzano
frmanzano1@gmail.com

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