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Uma Longa Viagem pelas memórias da ditadura
CINÉFILOS
14 maio 2012 | Por Jornalismo Júnior

Três jovens irmãos, vivendo na época da ditadura militar no Brasil, transformam radicalmente a situação da família Murat. O caçula Heitor, para não entrar na luta armada contra o regime como sua irmã Lúcia, que foi presa e torturada, viaja para Londres e passa a rodar o mundo escrevendo cartas. Miguel, o irmão do meio, é o único dos três que leva uma vida comum e se estabelece como um cientista conceituado no Rio de Janeiro. É a partir disso que a cineasta Lúcia Murat conta a história de sua família no filme Uma Longa Viagem (Brasil. 2011. 95min.), uma mescla de documentário e ficção que estreou neste dia 11 de maio no Brasil, com o ator Caio Blat.

Premiado pela crítica no Festival de Paulínia como melhor documentário e no Festival de Gramado como melhor filme (além de melhor ator, direção de arte, júri popular e prêmio estudantil), o filme segue a trajetória de Heitor (o único  que é interpretado durante o filme, por Blat) através das cartas escritas por ele para a família em sua longa viagem de nove anos pelo mundo.

Em 1969, com apenas 18 anos, Heitor vai para Londres, justamente no momento de maior efervescência cultural e de costumes considerados modernos na cidade, época conhecida como Swinging London. Logo ele se envolve com a juventude europeia e americana, experimenta drogas e se encanta pelo misticismo da Índia. Em sua longa viagem, o jovem dá duas voltas ao mundo como hippie, até ser internado em 1978 pela Embaixada Brasileira na Índia. Volta ao Brasil trazido pela família e, depois de muita resistência, passa a se tratar regularmente com a ajuda dos dois irmãos.

Durante todo esse período, ele escreve cartas que são verdadeiros textos literários para a família, que lida com a filha presa e torturada pelo regime. “Conforme a experiência vai se radicalizando e ele vai cada vez mais longe, é impressionante como em nenhum instante ele perde o contato com a família”, comenta Caio.

Mas ao contrário do que alguns podem pensar, não se trata apenas de mais um filme sobre a ditadura militar – tema comum no cinema brasileiro.É um filme sobre a memória, um registro familiar íntimo que tenta retratar uma época ao mesmo tempo em que reconstrói a trajetória de uma família por meio das cartas de Heitor, entrevistas com ele atualmente e imagens dos locais por que passou. Tudo isso mesclado com a dramaturgia do ator Caio Blat, em uma atuação solitária que beira quase a um monólogo.

Processo de criação
Abalada com a morte de Miguel, em 2009, Lúcia teve a ideia de gravar algumas entrevistas com Heitor. “Em um determinado momento, eu percebi que o material era muito mais do que um registro familiar. Era um material singular que retratava uma época em todos os sentidos”, diz a cineasta.

Para transformá-lo em documentário, Lúcia buscou as cartas antigas do irmão, um roteiro praticamente pronto do filme. Mas ela não queria simplesmente narrar uma história com colagens de cartões postais. E foi aí que o ator Caio Blat entrou na produção: foi convidado por ela para interpretar Heitor de uma maneira bastante inusitada, que retratasse emocionalmente o arco dramático daquele momento.

Heitor e ator Caio Blat, que o interpretou e deu vida às suas cartas no filme (Foto: Divulgação)

A equipe alugou uma casa antiga e coletou imagens de arquivo dos lugares visitados por Heitor, projetando-as nas paredes dessa casa. O ator aparece no filme como se estivesse escrevendo e lendo em voz alta as palavras escritas por Heitor em cada um desses lugares, interagindo com as projeções como se estivesse dentro da imagem.

“Foi um trabalho singular, totalmente diferente de qualquer coisa que eu já tinha feito. Quando a Lúcia me chamou e me contou a história, eu já fiquei muito comovido. Ela estava me convidando para entrar na família, me oferecendo um material íntimo e pessoal”, diz.

Após o convite, Caio tentou entender o personagem e pediu à Lúcia para conhecer Heitor e ter acesso a todos os originais das cartas. “Gosto muito de pesquisar, de me contaminar da realidade do personagem pra começar a compor. Nessa caso não foi diferente: passei duas tardes com o Heitor e isso foi fundamental para perceber a personalidade dele: uma pessoa surpreendente, carismática, com uma ironia sofisticadíssima”, conta.

Ao mesmo tempo, dando uma sequência à trajetória do irmão e contando também a sua própria história, Lúcia aparece como narradora e repórter que entrevista Heitor ao longo do filme. Ele aparece nas entrevistas abalado pelos problemas de saúde, mas sem perder a ironia e o senso de humor que lhe são característicos. Porém, a contraposição do Heitor real com o jovem profundo interpretado por Caio traz certa dificuldade para o espectador de imaginar que se trata da mesma pessoa.

Caio e Lúcia com alguns dos prêmios que ganharam no Festival de Gramado (Foto: Gabriela Di Bella/PressPhoto)

Miguel acaba sendo mencionado poucas vezes na narração, junto com imagens que indicam seu caminho de estudante até a consagração na carreira. O filme como um todo se atém mais às experiências vividas por Heitor no exterior do que no período dramático enfrentado pelo país e pela família, com seu ponto alto nas entrevistas que arrancam algumas risadas do público.

Nas palavras de Caio, o filme não tentou reconstruir uma história documental, mas sim a memória dessa história. “É um filme totalmente subjetivo sobre a costura que é a memória”. O longa não deixa, porém, de se inserir no contexto da época, o que o torna uma contribuição para o resgate de memórias de uma época tão apagada na história do nosso país.

*Repórter enviada para a pré-estréia do filme, promovida pela Folha

Larissa Teixeira
laari.teixeira@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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