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Uma Noite em 67: o auge da Era dos Festivais
CINÉFILOS
13 abr 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Daniel Drumond Ribeiro
rd.drumond@gmail.com

Parece impossível retratar em menos de uma hora e meia de documentário – e, a partir de acontecimentos de uma só noite – todo o contexto social, histórico, político e cultural do ano de 1967. Mas Uma Noite em 67 (2010), dos diretores Renato Terra e Ricardo Calil, supera todas as expectativas de ser simplesmente um resgate ao festival daquele ano, o 3º Festival da MPB, produzido pela TV Record.

Nenhuma outra noite foi mais simbólica para 1967 e para os anos que o precederam e os que ainda estavam por vir em toda a Era dos Festivais (1965 – 1972). Devido às discussões geradas pelo festival, o que inclui tanto as que diziam respeito à introdução da guitarra elétrica na MPB – e o medo de um fortalecimento da influência norte-americana – quanto aos conflitos políticos entre manifestantes e militares, o evento ficou conhecido como o Festival da Virada.

Caetano Veloso cantando “Alegria, Alegria”.

Nele foi revelada ao país uma geração única de intérpretes e compositores, que em sua maioria tinha seus vinte-e-poucos anos. As cinco canções premiadas, de Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, se tornaram grandes clássicos da música nacional. Há quem diga que foi naquela noite que a MPB surgiu como gênero musical, se tornando muito mais do que uma simples denominação para tudo que era música brasileira não erudita.

Os ginásios lotados, as vaias, aplausos e as torcidas organizadas contra e a favor de determinada música ou intérprete nos festivais eram só uma metonímia da participação da população. A adesão popular era tão grande que com o festival de 1967 a TV Record alcançou o maior índice de audiência da história da televisão, com 97 pontos no IBOPE.

Roberto Carlos cantando no Festival de 1967.

O filme foi construído por meio das imagens das apresentações e bastidores das finais e de depoimentos de participantes e organizadores do festival de 67. Ele flui como um relato de uma só pessoa ou uma conversa entre amigos: as falas se entrelaçam e se complementam como uma narrativa. Ao mesmo tempo, os discursos mostram vários pontos de vista sobre cada situação, o que dinamiza cada detalhe do festival.

As finais do 3º Festival da Música Popular Brasileira contaram com a presença de grandes intérpretes da MPB, como Elis Regina, Nana Caymmi, Nara Leão, Geraldo Vandré, MPB-4 e Jair Rodrigues. Mas os diretores Renato Terra e Ricardo Calil optaram por transmitir a apresentação de apenas seis canções, sendo elas as premiadas de 1º a 5º lugar e a desclassificada canção do cantor Sérgio Ricardo.

As entrevistas com os intérpretes são divertidíssimas e mostram um lado do evento que o público ainda não conhecia, como o ataque de pânico sofrido por Gilberto Gil a apenas duas horas do festival. São lembrados também os sumiços de Chico Buarque, que dizia não conseguir subir ao palco se não estivesse ao menos parcialmente alcoolizado. Os depoimentos são valiosíssimos e transcendem o plano das palavras: uma a uma, as falas vão construindo o ambiente do festival e o contexto da época mesmo para o espectador que tenha nascido décadas depois de 1967.

Uma alegoria

Passeata contra a guitarra elétrica.

Além do surgimento dos movimentos anti-ditadura e das tensões políticas, o Brasil estava em um momento de intensa efervescência cultural. Mais do que isso, o país passava por mudanças e embates fortíssimos tanto de cunho político quanto da cultura, e aquele festival foi uma alegoria disso tudo. A influência do imperialismo e da música pop internacional causava temor, o que, há alguns meses do festival, resultou na “Passeata contra a Guitarra Elétrica”, liderada por Elis Regina, Zé Keti, Vandré, Edu Lobo e MPB-4 para “defender o que é nosso”.

Ao mesmo tempo, o movimento tropicalista, de Caetano e Gil, seguia em outra direção, rompendo com a MPB tradicional e a arte obviamente militante. Por mais que as canções da Tropicália tratassem de temas como censura e repressão, suas letras, que eventualmente se assemelhavam a poemas concretistas, eram mais abstratas e alegóricas. A experimentação estética permitia que os tropicalistas agregassem várias influências tanto nacionais quanto internacionais, somando as guitarras de Beatles e Rolling Stones às sanfonas de Luiz Gonzaga e o swing de Jorge Ben Jor.

Gilberto Gil e Os Mutantes.

Caetano Veloso e Gilberto Gil cantaram, respectivamente, acompanhados da banda argentina de rock Beat Boys e dos brasileiros Os Mutantes. Em um contexto de surgimento do tropicalismo, boa parte do público ainda temia que a entrada da guitarra elétrica na MPB significasse uma abertura para uma invasão do imperialismo Yankee. Em um país cuja política ditatorial já seguia a cartilha do governo dos EUA, essa mudança poderia significar um aumento substancial da influência norte-americana. A plateia, que, como um personagem do festival, participava ativamente dos festivais desde as fases classificatórias, vaiou de forma monumental as apresentações dos tropicalistas.

E não foi diferente com Roberto Carlos: para parte do público que se identificava mais com as músicas militantes, era inadmissível o fato de um ídolo da Jovem Guarda como Roberto Carlos cantar um samba como “Maria, Carnaval e Cinzas” em um festival. Só mesmo com um domínio de palco e um carisma de Rei para conseguir fazer com que as fortes vaias, vindas inclusive de torcidas organizadas contra o Roberto, virassem aplausos.

Edu Lobo vencendo o Festival de 1967.

Tanto Chico Buarque quanto Edu Lobo, que não se inseriam na cena do tropicalismo, não escondem que até hoje se incomodam por terem “ficado sozinhos” e sido considerados “velhos” e “caretas” com menos de 25 anos. Como disse Chico, “Eles (os tropicalistas) estavam lá todos fantasiados e eu de smoking. Aí fiquei com aquela cara… de smoking”. Nem por isso a apresentação dos dois foi menos memorável. A interpretação emocionante de Marília Medaglia e Edu Lobo na canção “Ponteio” garantiu à dupla o 1º lugar no festival de 67 e “Roda Viva”, cantada por Chico e pelo quarteto vocal MPB-4, também se tornou um grande clássico da música brasileira.

Violada no palco.

Mesmo sem ser premiada, a apresentação de Sérgio Ricardo no festival de 67 ficou marcada na história. Do momento em que a canção “Beto Bom de Bola”, de sua autoria e interpretação, começou a ser apresentada, até a interrupção definitiva da sua execução, uma fortíssima vaia tomou o Teatro Paramount. Profundamente irritado pela desaprovação do público e pela dificuldade de escutar o retorno da própria a voz, Sérgio explodiu e, gritando “vocês conseguiram!”, quebrou seu violão e o atirou na plateia. Além de discussões na mídia piadas infames, o incidente rendeu a famosa e ambígua manchete “Violada no palco” ao extinto jornal sensacionalista Notícias o Populares.

Na entrevista que provavelmente é a mais marcante do documentário, Solano Ribeiro, realizador daquela edição do festival da Record, afirma que “o objetivo (de realizar um festival) era fazer um bom programa de TV. O festival nada mais era que um programa de televisão. Só que, de repente, por força de uma série de circunstâncias, ele adquiriu até uma importância histórica, política, sociológica, musical e transcendental”. Os festivais se transformaram, portanto, em algo muito maior do que um espetáculo televisivo. Além de terem consolidado a MPB e revelado alguns dos maiores artistas da história da música, as canções de festival se tornaram uma das mais importantes formas de luta política contra a ditadura militar.

Este fato, inclusive, pode ser considerado uma das maiores causas para o declínio da Era dos Festivais. Em 13 de dezembro de 1968, foi decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5), que deu início ao período mais duro da repressão e da censura ditatorial. Cantores como Caetano, Gil e Chico foram exilados, enquanto outros, como Geraldo Vandré e Taiguara, foram presos e torturados. Desde então, toda a truculência da repressão militar, seja por meio da censura ou da violência, acabou resultando no fim da Era dos Festivais em 1972.

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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