Home SCI-FI Diferentes abordagens do veganismo representadas em filmes e documentários
Diferentes abordagens do veganismo representadas em filmes e documentários
SCI-FI
23 set 2020 | Por Edson Júnior (edsonjuniormcz@usp.br)

A cada ano, o debate sobre veganismo e exploração animal cresce cada vez mais no mundo, seja denunciando as crueldades sofridas pelos animais em processos de comercialização (alimento, roupas e entretenimento), ou trazendo dados científicos que comprovam os danos do consumo de carne e derivados para o meio ambiente. Além da questão ética por trás da exploração de seres vivos, o veganismo aborda outros problemas sociais e econômicos, por vezes menos discutidos. São variadas as razões para que alguém decida aderir esse estilo de vida.

Segundo a entidade inglesa The Vegan Society, “o veganismo é uma forma de viver que busca excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e de crueldade contra animais, seja para a alimentação, para o vestuário ou para qualquer outra finalidade”. Logo, é uma prática que se baseia no não consumo alimentício de todos os tipos de seres vivos e seus derivados – como ovos e laticínios – e no não uso de nenhum produto (roupas, cosméticos, etc.) que seja feito de material proveniente de animais ou tenha sido testado nestes durante sua fase produção. Pode-se, assim, afirmar que é um estilo de vida.

A arte, como um meio de representação da sociedade, utiliza de seus recursos para denunciar as questões por trás do consumo de animais. Filmes, ficcionais e documentários, são uma das formas com maior poder de alcance de levar essa discussão às pessoas individualmente, sendo um possível ponto de partida para que elas mudem seus hábitos. Essas obras apresentam as mais diversas abordagens por trás do veganismo e do porquê de alguém aderir à prática, indo desde o uso de dados científicos objetivos até a subjetividade do lado emocional e ético. 

Nesta reportagem, será feita a análise de cinco dessas obras – Cowspiracy, What The Health, Terráqueos, A Carne é Fraca e Okja – e de quais abordagens veganas estas utilizam, além de relatos pessoais sobre seus impactos. Haverá spoilers sobre os filmes. 

 

Cowspiracy (2014)

Cowspiracy é um dos documentários mais famosos sobre o tema. Ele acompanha uma jornada real do diretor Kip Andersen na sua descoberta sobre os efeitos do consumo de carne no meio ambiente e, principalmente, na sustentabilidade do planeta. Nos primeiros minutos, a questão mais discutida é sobre o aquecimento global e como muitas empresas multinacionais e governos vendem a ideia de que, basicamente, o gás carbônico (CO2) é o causador do problema, sem sequer citar o gás metano (CH4), proveniente do gado no processo da pecuária e ainda mais cruel para o efeito estufa. Também explicita as numerosas queimadas de área verde para a produção de pastos para a pecuária.

Traz, de forma visual, dados que denunciam muitos dos problemas que a carne gera ao meio ambiente, como o alto gasto de água e grãos para a alimentação do animal que será levado ao abate e a extensa área utilizada no planeta para a pastagem. Além disso, refuta muitos argumentos pró-consumo de carne, como o de que “carnes orgânicas” são mais saudáveis e menos danosas ao meio ambiente. É explicado que as tais “carnes orgânicas” também são prejudiciais e não se sustentariam para o mundo inteiro, já que se baseiam na criação de animais em um vasto espaço, a qual não seria viável geograficamente em larga escala. 

Gráfico do filme que compara a quantidade gasta de CO2, combustíveis fósseis, água e espaço de terras entre uma dieta onívora (à esquerda) e uma vegana (à direita). [Imagem: Reprodução/ Netflix]

Gráfico do filme que compara a quantidade gasta de CO2, combustíveis fósseis, água e espaço de terras entre uma dieta onívora (à esquerda) e uma vegana (à direita). [Imagem: Reprodução/ Netflix]

Também é introduzido o debate sobre os oceanos e como as pescas por meio grandes redes acabam por capturar, supostamente de forma acidental, um número vasto de seres aquáticos que não serão utilizados para alimentação. Tal ato acaba por esgotar os oceanos e provoca a extinção de espécies marítimas.

Mais ao fim da jornada do diretor do filme, ele afirma que estava tratando os animais como meros produtos alimentícios e não se deu conta de que, no fundo, eles são  seres vivos que sentem. Portanto, o documentário tem, em seus últimos minutos, uma abordagem voltada à questão ética do consumo de seres vivos e mostra que é possível viver de uma alimentação orgânica baseada em produtos naturais.

Em geral, a abordagem predominante é sobre os impactos do consumo de animais na sustentabilidade do meio ambiente e na longevidade do planeta. Karina Tarasiuk, vegana desde 2019, afirma que a problemática ambiental não é o motivo que a fez se tornar vegana, mas “é uma das coisas que me faz continuar, porque eu comecei a ficar mais impactada por isso”. Sua trajetória é diferente da maioria da população: cresceu numa família ovolactovegetariana (definição dada a pessoas que não se alimentam de carne, mas ainda consomem derivados, como leites e ovos) e tornou-se vegetariana estrita em 2016, cortando a alimentação dos derivados.

Karina aderiu ao veganismo em 2019, cortando cosméticos testados em animais. Sua motivação principal foi a questão ética relacionada à exploração animal. No entanto, conta que “esses filmes com cenas fortes me impactam, mas dependendo do filme eu não consigo nem ver. Eu gosto de documentários sobre veganismo que falem mais da saúde ou do meio ambiente, porque eu já considero totalmente anti-ético, então não preciso ficar revivendo essas cenas”.

Cowspiracy está disponível na Netflix.

 

What The Health (2017)

What The Health é um documentário sucessor de Cowspiracy, produzido pelo mesmo diretor. Diferente do último filme, este foca num questionamento mais individual do que social sobre os danos de uma alimentação de carnes e derivados. A abordagem se dá na saúde das pessoas que têm dietas carnívoras, trazendo dados que mostram que essas são mais suscetíveis a desenvolverem cânceres, diabetes, problemas cardíacos e obesidade. Mostra que é um assunto pouco comentado pelas organizações e profissionais da saúde que tratam dessas doenças.

O modelo narrativo é similar ao de seu antecessor, acompanhando a jornada de Kip Andersen em suas descobertas sobre o assunto. Ele cobra posicionamentos de grandes empresas e associações relacionadas às doenças citadas que não falam sobre o tema, mas sem muito resultado. O diretor afirma que muitas delas recebem fundos de propagandas de grandes empresas produtoras de carne, o que gera um possível conflito de interesses. Também destaca uma questão econômica: se as pessoas adotassem dietas veganas, muitos dos gastos governamentais e familiares para tratar doenças como diabetes, câncer e parada cardíaca seriam evitados. 

Além disso, o documentário enfatiza o tópico dos laticínios e ovos, considerados prejudiciais à saúde em excesso. Argumenta-se que o leite, por exemplo, é produzido pela vaca para seu bezerro – contando com hormônios e substâncias próprias para o filhote –  e, portanto, não é ideal para o consumo humano. No processo de produção de leite e ovos, as vacas e galinhas são submetidas a muitos hormônios e sintéticos para aumentar a produtividade, o que também causa prejuízos à saúde humana.

Gráfico do documentário que mostra o quanto os humanos se expõem à dioxina após se alimentarem de produtos animais, principalmente carnes e laticínios. A substância é causadora de doenças como câncer. [Imagem:Reprodução/ Netflix]

Gráfico do documentário que mostra o quanto os humanos se expõem à dioxina após se alimentarem de produtos animais, principalmente carnes e laticínios. A substância é causadora de doenças como câncer. [Imagem: Reprodução/ Netflix]

Algumas afirmações polêmicas do filme, como a de que “comer um ovo por dia é tão ruim quanto fumar cinco cigarros para a expectativa de vida”, foram alvos de críticas que alegam que não há estudos o suficiente para comprovar os fatos. Além disso, em alguns momentos, o documentário simplifica o emagrecimento na obesidade, trazendo exemplos de pessoas com sobrepeso que conseguiram mudar seus hábitos alimentícios rapidamente e, em semanas, passaram a se sentir melhor de seus problemas de saúde. Pouco aborda os variados problemas físicos e psicológicos que podem dificultar essa mudança. Em suma, o documentário também traz uma das abordagens científicas do veganismo, explorando em poucas cenas o lado ético e emocional. 

What The Health está disponível na Netflix.

 

Terráqueos (2005)

Este documentário aborda cinco campos da vida humana em que há exploração animal: animais de estimação, alimentação, vestimenta, entretenimento e testes científicos. Produzido em 2005, traz questionamentos de um assunto que ainda não estava em alta na época. A palavra “vegano”, por exemplo, não é citada em nenhum momento, somente “vegetariano”.

O caso aqui é o oposto dos anteriores: poucos dados científicos são mostrados, mas sim, a questão ética por trás do consumo de animais. Lavínia Olga, vegana desde 2018, destaca que esse filme “aborda um lado totalmente de slaughterhouse [centro de abatimento]”. As cenas são fortes, mostrando sem censuras a cruel realidade de abatedouros e como muitos deles tratam os animais com violência. São representadas cenas de porcas leiteiras que são usadas como máquinas para gerarem filhotes, galinhas que vivem em gaiolas minúsculas e têm seus bicos cortados para a produção de ovos, vacas que vivem presas e são levadas aos montes em caminhões com direção ao abatedouro e bezerros que vivem presos sem capacidade de se desenvolverem fisicamente.

Lavínia comenta que, primeiramente, assistiu a documentários menos explícitos: “me impactou, mas não ao ponto de deixar de comer carne. Comecei a ter consciência do que estava colocando no meu prato, então diminuí o consumo a partir daí”. Aderiu ao veganismo um dia após assistir Terráqueos, que a “fez repensar laticínios e ovos como uma indústria muito cruel”. Afirma: “eu preferi, num primeiro momento, assistir coisas com mais dados, que me mostrassem porque eu estava parando de comer carne. Tanto é que só assisti Terráqueos depois de um ano de ser ovolactovegetariana, porque sabia que ia ser muito pesado”.

O filme vai além da questão dos abatedouros, trazendo diferentes aspectos, como as matanças ilegais de vacas a facões na Índia para a produção de couro –  já que grande parte do país proíbe matá-las –, as condições cruéis a que animais são submetidos para testes científicos ou farmacêuticos e os processos desumanos de cruzamento de cachorros de raça para a venda de pets.

Feito numa época em que muitos países ainda permitiam legalmente o uso de animais em apresentações de circos, Terráqueos traz imagens dos bastidores do treinamento violento a que esses animais são submetidos, muitos deles silvestres retirados de seus lares naturais. Além disso, é retratada a exploração que os touros sofrem em touradas e rodeios, nos quais grandes públicos comemoram ao ver animais sangrando e morrendo.

A teoria filosófica do filme é voltada em torno do termo “terráqueos”, nomenclatura dada para designar todos os seres habitantes da terra, argumentando que tanto os seres humanos quanto os animais deveriam se respeitar e viver pacificamente. Terráqueos também explica o especismo: a opressão que uma espécie causa sobre outra para seus próprios interesses. 

Uma das frases marcantes é a fala de Paul McCartney: “se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos”. 

Terráqueos está disponível no Youtube

 

A Carne É Fraca (2004)

Este documentário brasileiro é o mais antigo dos aqui citados e também não usa a palavra “veganismo” em seu conteúdo, somente “vegetarianismo”. É importante destacar que fica implícito que o vegetarianismo citado é o estrito, ou seja, de quem não faz o consumo de nenhum tipo de carne ou derivados, somente de possíveis produtos testados em animais. Atualmente, popularizou-se chamar pessoas de “vegetarianas” quando elas não comem carne mas fazem o consumo de derivados (laticínios e ovos). 

O filme foi produzido pelo Instituto Nina Rosa, referência nacional na luta contra a exploração animal. Traz uma síntese dos principais argumentos utilizados pelo veganismo, tantos científicos quanto éticos. Não se aprofunda em nenhum deles, mas os apresenta de forma clara. Algumas cenas de abatedouros brasileiros e entrevistas com pessoas que trabalham neles enriquecem a obra e denunciam a crueldade desses locais. Utiliza-se muito de falas de especialistas sobre o tema, trazendo diversas fontes que abordam as nuances do problema, como nutricionistas, psicólogos, advogados ambientais, jornalistas, ativistas e até professores.

A Carne É Fraca também enfatiza as consequências do consumo de carne e derivados para o Brasil, como o desmatamento da Amazônia para implantação de pasto, as problemáticas de mares e rios contaminados com fezes dos animais e a questão social que envolve a produção latifundiária de grãos para consumo animal. Por fim, desmistifica o estigma de que a proteína é encontrada somente na carne e explica que, diferente do senso comum, crianças podem crescer de forma saudável sem se alimentar de animais e derivados.

Karina destaca que, por vezes, esses filmes impactam as pessoas, mas não a ponto de fazer com que elas se tornem vegetarianas ou veganas. “A família da minha amiga tinha visto A Carne é Fraca e estava conversando comigo sobre os impactos. O pai dela ainda come carne, só que ele está consciente e reduziu o consumo.” Mas, também pontua que, às vezes, as pessoas se sentem tocada por um momento e depois esquecem. “A gula é muito mais forte do que qualquer outra coisa. Conheço pessoas que assistiram e falaram ‘Nossa que pena! Como que a carne é horrível pro meio ambiente’, mas continuam consumindo.”

Lavínia, por sua vez, apesar de acreditar que que essas produções têm importância extrema para conscientizar as pessoas, aborda um aspecto social sobre o tema: “não acho que atinja muitas pessoas porque nem toda a população tem acesso à internet, a uma conta na Netflix ou ao Youtube. As pessoas mais atingidas por essas informações são as de classe média”.

A Carne É Fraca está disponível no Youtube

 

Okja (2017)

Okja é uma ficção original da Netflix que retrata a criação de um animal geneticamente modificado que poderia revolucionar a indústria da carne, o qual ficou conhecido como “super porco”. Foram enviados 26 desses seres para fazendeiros de diferentes países, para que, dez anos depois, o maior porco se consagrasse campeão de uma competição. Desde pequena, Mija, neta de um desses fazendeiros, ajudou a cuidar de Okja, uma das fêmeas da nova espécie. Okja se destacou dentre os demais e foi consagrada “a melhor super porca”. Sendo uma das primeiras críticas do filme à realidade, tudo era uma jogada de marketing para que a população se afetuasse pelos super porcos ao vê-los na TV e, assim, aumentasse seu consumo quando fossem levados ao abate..

A obra denuncia a forma cruel de funcionamento da indústria da carne, por meio de cenas fortes de fazendas lotadas de super porcos levados ao abate. Explora o emocional do espectador, trazendo uma relação desde a infância entre Okja e Mija, o que se assemelha à relação dos seres humanos com animais de estimação. A diferença é que, nesse caso, o animal em questão é alvo direto de consumo pela sociedade. Também é denunciada a forma comercial à qual a indústria se submete, uma vez que Okja só é libertada do abate após ser trocada por ouro.

Okja e Mija. [Imagem: Reprodução/ Netflix]

Há cenas que contam com integrantes da Frente Libertadora Animal (FLA), organização de ativistas que lutam diretamente para libertar animais das gaiolas a que são submetidos. Uma das críticas de alguns veganos ao filme vai ao fato de que esse grupo é, por vezes, representado por personagens caricaturais e estereotipados. Comenta-se, também, que o filme não necessariamente levanta bandeira para o veganismo, já que, mesmo após verem todas as atrocidades feita aos animais, os personagens principais continuam consumindo frango e peixe. 

Por ser um filme de ficção e de fácil identificação, principalmente ao retratar um paralelo da relação “humanos e pets”, é perceptível que o filme tem potencial para atingir mais pessoas. Vitor Ávila, vegano, ativista e youtuber, comenta, no entanto, que filmes de ficção sobre exploração animal não têm mais potencial de fazer o público repensar seus hábitos do que documentários: “se a mensagem não é transparente, as pessoas não pegam. Talvez um ou outro”. Pontuou o caso de  Procurando Nemo, que, nessa lógica, faria com que abominássemos a pesca e a exploração dos animais marinhos. “O que aconteceu foi justamente o contrário, as pessoas queriam colocar peixes-palhaço em seus aquários pois achavam bonito”. Para ele, o diferencial de Okja é que “tem uma mensagem mais direta nesse sentido, talvez seja um exemplo melhor de como uma dessas produções poderia ter um impacto mais relevante nas escolhas alimentares das pessoas”.

Vitor se tornou vegano aos 28 anos, após vivenciar uma série de experiências relacionadas à crueldade e abate animal. Tem um canal no youtube chamado Vegano Vitor, em que traz informações e debates relacionados ao veganismo. Sobre a criação do canal, ele comenta que “a maioria dos canais sobre veganismo no Brasil eram só de receitas ou tinham uma qualidade mais baixa de produção. Sentia falta de um canal com mais qualidade técnica e mais discussão sobre aspectos filosóficos do veganismo”. O resultado foi satisfatório: “já recebi dezenas de mensagens agradecendo pelo meu conteúdo e dizendo que influenciou as pessoas”. 

Vídeo em que Vitor Ávila comenta a importância de assistir Terráqueos.

Ele considera “crucial” a importância de conteúdos audiovisuais sobre o tema. Afirma que “se a gente fosse obrigado a assistir vídeos assim nas escolas, teríamos uma relação muito diferente com a comida do que temos hoje. O próprio conceito do que é comida muda. Eu mesmo não consigo mais enxergar animais como comida”.

Vitor destaca que, na visão dele, as razões éticas por trás do veganismo são as mais importantes: “no fim das contas, se for por questão de saúde não teria muito problema comer uma carninha de vez em quando. Se for pela questão ambiental, um peixinho a cada dois meses não teria tanto problema. Na questão ética, a coisa muda”. Por fim, complementa: “não dá pra matar um animal só um pouquinho. Para se alimentar do corpo de um animal, você tem que colocar seu paladar acima do direito desse animal de viver. Uma vez que esse entendimento chega, fica difícil voltar a enxergar essas criaturas como objetos ou mercadorias”.

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*