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A liberdade está no Ocidente
CINÉFILOS
07 nov 2019 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

Ventos para a Liberdade (Balloon, 2018), baseado em uma história real, conta o desafio de duas famílias de escapar da Alemanha Oriental em 1979. O plano delas é fugir de balão atravessando a fronteira a partir da floresta. Mas após o fracasso da primeira tentativa e o início da investigação policial, precisam elaborar um balão mais eficiente.

O balão de ar quente foi construído por Peter Strelzyk e Günter Wetzel durante dois anos, e eles apenas esperavam o momento ideal para partir. Quando a família Strelzyk observa que o vento está favorável, decide que é o momento de ir. Mas a família Wetzel discorda da ideia – além de o balão ser muito pequeno para duas famílias, Günter e Petra, sua esposa, possuem duas crianças pequenas, o que tornaria a viagem ainda mais arriscada.

A família Strelzyk, então, vai sozinha. Doris chama os filhos, Frank e Fitscher, e todos partem de carro à noite, com o balão em um pequeno trailer preso ao carro. Depois de montar o balão, entram no cesto e voam em direção ao ocidente. Ao subirem a uma altitude muito alta, o ar se torna muito úmido e gotas de água pingam sobre a lona do balão. Muito pesado, não se sustenta no ar e começa a descer. Ganha velocidade e, em pouco tempo, a família está no chão. Não ficaram tempo suficiente para atravessar a fronteira.

A família Strelzyk após o fracasso da primeira tentativa [Imagem: Reprodução]

Frustrados e com medo de serem pegos, decidem voltar para casa e fingir que nada daquilo aconteceu. Esperam amanhecer e buscam o carro, que está no meio da floresta. Precisam se livrar das provas, então jogam os equipamentos no lago. Mas o balão permanece na floresta, e algumas horas depois é encontrado por autoridades do governo, que iniciam uma rigorosa investigação para descobrir quem tentou fugir e “trair a nação”. Na Alemanha Oriental, tentar escapar era considerado um crime, e havia controle rigoroso das fronteiras – quem o fazia poderia morrer a tiros ou era gravemente ferido, preso e torturado.

O Tenente-Coronel após encontrar o balão e iniciar a investigação contra os “traidores” [Imagem: Reprodução]

No primeiro momento, Doris e Peter temem serem perseguidos e perderem seus filhos. O casal pretende apenas esquecer o incidente e viver como se nada tivesse acontecido. Mas isso já não é possível. Doris lembra que esqueceu seus remédios na cesta do balão, e poderiam rastrear o código dos remédios nas farmácias. Além disso, suas digitais estão presentes no dirigível. A única alternativa é tentar novamente.

A família Strelzyk procura um jeito de chegar à Embaixada Norte-Americana sem ser perseguida [Imagem: Reprodução]

Como construir um novo balão parece inviável, procuram entrar em contato com a embaixada norte-americana. Ao alegarem que são perseguidos politicamente, teriam chances de serem “resgatados” e exilados nos Estados Unidos. Porém, o plano não se realizada, e a ideia de construir um novo balão, dessa vez maior e mais resistente, é retomada. Peter conversa com Günter e eles criam um novo projeto de balão. A força das investigações policiais lhes exige maior cautela. Mas nem todas as personagens agem de modo cauteloso. Frank se apaixona por Klara Baumann, sua vizinha e filha de Erik, um Stasi (polícia secreta e inteligência da República Democrática Alemã). Isso preocupa Peter, que tenta separar os dois jovens.

Peter e Frank tentam ligar para a Embaixada Norte-Americana [Imagem: Reprodução]

Todo mundo na família se envolve com a produção do balão, desde comprar materiais e costurar os tecidos a criar o motor. É aí que as mulheres adquirem maior desenvolvimento na trama. Doris Strelzyk e Petra Wetzel, no início, apresentam-se apenas como mães e donas do lar, mas se mostram mulheres fortes com desejo de liberdade, importantes na construção do dirigível. 

As crianças também têm papel significativo. Fitscher amadurece muito desde o início do filme, quando ainda não sabia do plano. No início, ele não entende porque seria necessário fugir, já que tem amigos e uma boa casa. Mas Doris lhe explica que a repressão do governo pode ocorrer em casos simples, como piadas críticas. Algumas piadas, ao serem ouvidas publicamente, podem levar o indivíduo à prisão. 

As duas famílias durante a construção do balão [Imagem: Reprodução]

Há um bom retrato da sociedade da época e do local, com bela fotografia das paisagens naturais e urbanas. O socialismo é imposto como uma doutrina para a população – em apresentações infantis nas escolas, há dizeres como “Sozialismus ist die Zukunf der Jugend” (socialismo é o futuro da juventude). 

Mas ocorre uma desmistificação do socialismo. Não era como na União Soviética, com o estereótipo de que a população passava fome e vivia na miséria. No caso da Alemanha Oriental, as pessoas tinham boas condições de vida, existia propriedade privada e monetarização. Porém, havia grande perseguição política e censura os canais de TV do Ocidente, por exemplo, eram proibidos.

O longa mostra aspectos pouco conhecidos da polícia socialista alemã, como a rigidez dentro do próprio sistema. Soldados que não cumpriam estritamente as ordens eram castigados e podiam perder seu cargo. A “República Democrática Alemã”, conhecida como Alemanha Oriental, com sua opressão, não possuía nada de democrático.

Durante o filme, é possível aprender história e refletir sobre censura e perseguições políticas. Embora representasse uma sociedade socialista, alguns aspectos são semelhantes ao Brasil na era da Ditadura Militar, como o autoritarismo do governo e a intolerância a ideais políticos diferentes do vigente. Isso se torna mais claro ao se considerar o contexto da Guerra Fria.

Tenente-Coronel Seidel interrogando soldados que não seguiram o protocolo da fronteira [Imagem: Reprodução]

É praticamente impossível parar de assistir o filme. A ansiedade aumenta a cada momento. Ao retratar, de um lado, as duas famílias tentando escapar e, do outro, os policiais investigando, surge um sentimento de angústia e uma impressão de que não haverá um final feliz.

No final, comenta-se que em novembro de 1989, dez anos após o acontecimento, o Muro de Berlim é destruído. No ano seguinte, a Alemanha é reunificada.

Ventos para a Liberdade é um drama emocionante. Além de compreender aspectos pouco conhecidos da Alemanha Oriental, é possível refletir sobre o significado de liberdade e o que, muitas vezes, é necessário fazer para obtê-la. O roteiro é bem escrito e a fotografia é excelente. É um filme que vale a pena ser visto.

A estreia está prevista para dia 7 de novembro. Confira o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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