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05 jun 2012 | Por Jornalismo Júnior

Dirigido por Sébastien Pilote, O Vendedor (Le Vendeur. Canadá. 2011) está longe de ser uma trama nos moldes dos blockbusters. Ao contrário, o filme conta com um enredo consistente que aborda questões de teor psicológico, como a solidão, a morte e o sentido da existência.

Com poucos efeitos especiais, a obra de Pilote foi construída com base na vida de Marcel Léves, um vendedor que trabalha em uma concessionária de carros em uma cidadezinha na província de Québec, no Canadá. Ambientado na época da crise financeira de 2008, o filme retrata o caos que se tornou a cidade com a falência de uma fábrica de celulose que trazia dinheiro e empregos para a região.

Viúvo, o protagonista, que ganhou sucessivos títulos de funcionário do ano, vê o trabalho como uma forma de fugir da solidão. Por isso, chega aos 67 anos empenhado em não se aposentar tão cedo. Perfeccionista, ele grava todos os diálogos com seus clientes para depois analisá-los e ver onde pecou ou em que ponto acertou na hora das vendas, e melhorar seu desempenho. Porém, Marcel enxerga em sua família (composta por sua filha Maryse e seu neto Antoine) a única alegria para seguir em frente.

Um dos aspectos relevantes é que a trama é permeada por contrastes. Eles se tornam claros quando cenas como a de Antoine, de cerca de 10 anos, joga hóquei são intercaladas com às da rotina monótona de Marcel. A jovialidade do neto se opõe à vida repleta de mais do mesmo da personagem principal.

Apesar do pouco dinamismo e da falta de recursos, o filme cumpre com sua proposta de reflexão inserindo nas cenas elementos sutis que reforçam a ideia do estar só. A começar pela cidade assolada pela neve: durante todo o longa, o branco predomina nos cenários. Tudo está coberto por neve, até mesmo os carros que Marcel vende. Isso demonstra o isolamento social, a inacessibilidade dos sentimentos do protagonista. Além disso, a neve, por ser branca, possui grande capacidade de refletir luz, e isso se constitui em uma metáfora para a vida de Léves, em que nada consegue alcançá-lo ao fundo, em que as relações são superficiais.

A trilha sonora também tem um papel de destaque na composição do clima de abandono. Construída por Pierre Lapointe e Philippe Brault, com músicas majoritariamente instrumentais, ela parece retratar um longo espetáculo de ballet, no qual o protagonista figura sozinho em meio às tristes notas do piano. Assim, ela acompanha o desenrolar da trama, e tem seu ápice na cena em que Marcel vai a uma festa da igreja com sua família, e dança com Maryse. Nessa parte, a melodia ganha voz ao ser interpretada por um dos membros da celebração, e passa a ser alegre e contagiante, revelando o momento de epifania do personagem, que constata o quanto sua filha e seu neto são importantes para ele.

A partir desse momento, o filme entra em uma trajetória de declínio, e o vazio existencial da vida de Marcel fica evidente em uma das cenas em que ele diz que sua função na empresa é “vender e realizar sonhos, fazendo as pessoas felizes”, e esse é o seu mote em todas as negociações que realiza. Apesar disso, ele lida com a sua própria infelicidade.

Outro acerto da direção foi trabalhar com as nuances do passado; para isso Pilote faz uso do recurso do flashback, que entrelaça o início e o fim da trama, assim como Machado de Assis propõe em Dom Casmurro. Com ele, há margem para visualizar o protagonista como preso ao passado, ao que já aconteceu – prova disso é que, apesar de sua esposa já ter falecido, Marcel continua usando a aliança de casamento.

Considerando o aspecto estático do filme, para quem procura entretenimento e ação, O Vendedor pode não ser a melhor escolha. No entanto, o longa canadense é capaz de fomentar diversas reflexões acerca da questão existencial, e possui um ótimo enredo, especialmente para os espectadores que buscam algo de caráter mais denso e subjetivo.

Por Malú Damázio

damaziomalu@gmail.com.br

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