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45ª Mostra Internacional de SP | ‘Yuni’

Aposta da Indonésia para o Oscar 2022 fala sobre poder de escolha e gênero

CINÉFILOS
27 nov 2021 | Por Luísa Hirata (luisahirata75@usp.br)

As visões sobre o sexo e a tradição dos casamentos precoces de um lado. Do outro, a escolarização e a independência intelectual e financeira da mulher. Lidar com essas questões é o desafio da protagonista de Yuni (2021) em seu último ano na escola. Dentro do contexto islâmico da Indonésia, o filme de Kamila Andini retrata a relação das meninas com os homens e a sociedade no século 21.

Yuni (Arawinda Kirana) é uma adolescente comum. Estudiosa, curiosa, obcecada pelo roxo — colecionando (e, para isso, furtando) tudo que carregue a cor —, e que gosta de experimentar, como com a masturbação. Nas rotineiras conversas sobre relacionamentos, casamento e gravidez com as amigas, o prazer feminino é sussurrado cheio de surpresa e dúvidas.

É a diretora da escola (Marissa Anita) que apresenta à protagonista a oportunidade de conquistar uma bolsa de estudos para a faculdade — contanto que ela mantenha as boas notas e não se case. Suas amigas são seu grande suporte emocional em sua jornada, especialmente a bem-humorada Sarah (Neneng Risma).

Meninas conversam e riem mais livres das expectativas sobre seus corpos. [Imagem: Divulgação/Tiff - Toronto International Film Festival]

Meninas conversam e riem mais livres das expectativas sobre seus corpos. [Imagem: Divulgação/Tiff – Toronto International Film Festival]

Yuni recebe três propostas de casamento ao longo do filme, as quais são “bênçãos”, na visão da avó (Nazla Thoyib), encorajadas pela maior parte de sua comunidade. Enquanto isso, a escola tenta promover testes de virgindade nas meninas para conter o número crescente de gravidezes entre as alunas. Os “não” da protagonista rapidamente se tornam assunto das especulações de todos. Afinal, o adorado roxo de Yuni é uma cor atribuída às viúvas, e uma superstição local diz que rejeitar o segundo pedido impedirá que a mulher consiga se casar no futuro.

Manter sua decisão se prova ainda mais difícil quando Yuni presencia o sofrimento de Sarah ao ter que se casar com o namorado para manter a reputação da família. A diretora da escola também é desincentivada por um colega a encorajar Yuni em sua busca pelo ensino superior.

Yuni sofre emocionalmente ao ter que tomar decisões tão grandes sobre seu futuro. [Imagem: Reprodução/YouTube/Tiff - Toronto International Film Festival]

Yuni sofre emocionalmente ao ter que tomar decisões tão grandes sobre seu futuro. [Imagem: Reprodução/YouTube/Tiff – Toronto International Film Festival]

Yuni aguenta todas essas pressões sociais com uma postura, na superfície, controlada na maior parte do tempo. É por meio de seu envolvimento com o extremamente tímido Yoga (Kevin Ardilova), colega mais novo da escola e seu admirador secreto, que ela consegue extravasar suas frustrações e dúvidas. Yuni explora a ajuda de Yoga nas aulas de Literatura, em que ela precisa trabalhar os poemas do falecido Sapardi Djoko Damono, homenageado pelo filme. Ela também chega a forçar uma relação sexual e, como o consentimento de Yoga não é totalmente claro, a cena pode ser incômoda ao espectador.

O desenvolvimento do afeto entre os dois é rápido, mas não muito profundo ou convincente. O mais importante, porém, é o apoio que Yuni recebe de Yoga para decidir seu futuro por conta própria. A experiência, força e independência de Suci (Asmara Abigail), a personagem mais interessante da trama, é outro pilar para Yuni. Divorciada de um casamento traumático, Suci é feliz vivendo de acordo com suas vontades, apesar de ter sido desonrada pela família.

Com um final surpreendente e poético sobre a decisão da protagonista, como os poemas que Yoga redige para Yuni, o filme de Kamila Andini trata de questões complexas com leveza e seriedade bem equilibradas e nos momentos adequados. Yuni se passa na Indonésia, mas suas questões de gênero ressoam globalmente, e é uma alternativa ao que costumamos ver sobre adolescência nos longas estadunidenses.

Esse filme faz parte da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique na tag no final do texto. Confira o trailer:

*Imagem da capa: Divulgação/Tiff – Toronto International Film Festival

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