por Flávio Ismerim
flavio.ismerim@gmail.com
Este filme faz parte da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para conferir a programação completa clique aqui
O filme norueguês O desaparecimento do Ilusionista (Dirk Ohm – Illusjonisten som forsvant, 2015) esteve na 39ª Mostra Internacional de Cinema em SP no seção Foco Nórdico, que foi planejada para dar mais visibilidade às estéticas nórdicas no cenário nacional. O contraste do jogo de tons da obra é o que persiste após o conflito psicológico do ilusionista Dirk Ohm (August Diehl).
Toda a trama do filme dirigido por Bobbie Peers se dá em torno do desaparecimento de Maria (Sara Hjort Ditlevsen). Dirk é encontrado quase congelado dentro de seu carro na estrada, é levado a um hospital e quando recebe alta se dirige a outra cidade em busca de novas apresentações para se manter. O ilusionista alemão tem o costume de vagar por diferentes terras e acaba chegando a uma pequena cidade na Noruega. Lá ele consegue que sua estadia seja paga com seus shows repletos de truques bastante impressionantes.
Depois de um de seus shows, Dirk Ohm recebe a visita de um casal desesperado que lhe pede ajuda para encontrar sua filha. Ele tenta deixar claro que não faz nada além de truques bobos, mas eles não acreditam. A partir daí, o ilusionista mergulha no universo da garota e se junta à polícia e ao pais na busca pela garota.
Bobbie Peers, para manter o suspense e nunca nos revelar se Maria de fato está com Dirk ou não, abusa de estratégias de narrativa que estruturam uma ambiguidade bastante instigante. A verdade nos é revelada em uma cena bastante profunda (a exemplo dos seus truques no show de mágica) e o envolvimento de Dirk com Maria só se torna intenso.
As cores do filme e sua trilha sonora pontuam muito bem a intensão de cada cena. Os tons frios e claros nas externas em contraste com a densidade, escuridão e calor apresentados pelos ambientes internos. Lá fora se dão as buscas, as perdas, as ambiguidades, as pausas e os questionamentos. Aqui dentro acontecem os conflitos, os sentimentos, as surpresas, o encantamento e o prosseguimento da narrativa. É uma clássica inversão dos regimes dos filmes tradicionais, nos quais o herói costuma batalhar de dia e repousar de noite.
Num filme em que a primeira cena também é a última, a narrativa dá voltas que nos fazem pensar no quão óbvios são os filmes que estamos acostumados a ver. O desaparecimento do ilusionista convida à reflexão e nos prende numa trama com elementos tão diferentes, mas que combinam muito bem. Tem um amor doce, um drama intenso, um suspense contínuo e um herói com credibilidade posta à prova.
Enfim, a última coisa a que se deveria prestar atenção são os detalhes. Contudo, Bobbie Peers os amarra de forma tão brilhante que eles contribuem diretamente para a interação espectador-filme. Seja num corte brusco ao fim de um plano estático, seja numa câmera até então desconhecida de uma cena muitas vezes repetida.

