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Leão XIV: o posicionamento e os desafios do novo líder da Igreja Católica

Segundo especialistas, início do papado sinaliza a continuidade de reformas promovidas pelo papa Francisco
Por Nicolas Sabino (nicolassabino@usp.br)

No dia 9 de maio de 2025, o cardeal Robert Francis Prevost foi escolhido como novo líder da Igreja Católica em um conclave rápido. Ao assumir o cargo de papa, Prevost aceitou o desafio de lidar com uma Igreja que segue dividida entre conservadores e progressistas. 

Prevost é o primeiro papa norte-americano, mas também possui cidadania peruana. Ele é visto como um reformista, o que indica que andará alinhado à sinodalidade – processo que preza pela participação de todos os fiéis da Igreja – promovida pelo Papa Francisco.

O menos americano dentre os americanos 

Robert Prevost nasceu em Illinois, nos Estados Unidos. Se formou em matemática na Pensilvânia e, logo em seguida, ingressou no noviciado da Ordem de Santo Agostinho em St. Louis, em Chicago. Aos 27 anos foi enviado a Roma para estudar Direito Canônico na Pontifícia Universidade de Santo Tomás de Aquino. 

Em 1985, enquanto preparava sua tese de doutorado, Prevost foi enviado para uma missão agostiniana em Chulucanas, no Peru. No ano seguinte, continuou no país partindo para a cidade de Trujillo, também em missão, onde permaneceu até 1999.

Em 3 de novembro de 2014, o Papa Francisco o nomeou administrador apostólico da diocese peruana de Chiclayo, cidade conhecida como a “capital da amizade”, onde Prevost desenvolveu uma relação muito próxima. Após ser nomeado bispo de Chiclayo e atuar como pastor do seu povo, em 2015, ele recebeu a cidadania peruana.

“Um bispo não deve ser um pequeno príncipe em seu reino. Mas sim, é chamado autenticamente para ser modesto, próximo ao povo a que serve.” 

Papa Leão XIV, em entrevista ao Vaticano News

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Padre Wanderson Cintra, mestre em Direito Canônico, afirma que a longa bagagem como missionário e a atuação no Dicastério para os Bispos – principal Dicastério do Vaticano – foram fatores cruciais para a escolha de Prevost como novo papa. “A riqueza de experiências é importante, porque quando a Igreja só se restringia a papas europeus, falhava em uma visão global, achando que o mundo era somente a Europa e os comportamentos europeus”, explica.

Embora Padre Wanderson afirme que a escolha do papa não tenha relação com a dupla nacionalidade de Prevost, o professor de geopolítica da Universidade de São Paulo (USP), André Martin, acredita o contrário. “Entendo que houve uma decisão geopolítica em indicar um norte–americano que atuou no Peru, de modo a se opor simbolicamente às deportações de Trump, unindo e não separando o Norte e o Sul [Global]”, analisa André.

Durante a missa de posse do Papa Leão XIV, diversos líderes mundiais estiveram presentes [Imagem: Mazur/Fotos Públicas]

As funções de um papa 

Ao ser eleito, o papa passa a exercer duas funções: religiosa e política. Na questão religiosa, atua como bispo de Roma, da mesma forma que Dom Odilo Scherer é o bispo de São Paulo e Dom Leonardo Steiner, de Manaus.

Segundo o Padre Wanderson, o papa, como sucessor do apóstolo Pedro, recebe também outro trabalho. “O papa é aquele que vai exercer, além do episcopado em Roma, uma função especial de comunhão entre todos os bispos do mundo. Ele é o que mantém a Igreja unida. Ele é aquele que confirma o que é – e o que não é – da fé católica.”

Por ter a função de definir o que pertence, ou não, ao catolicismo, toda vez que o papa se pronuncia sobre fé e moral, sua fala é livre de qualquer erro. “Acreditamos que o Papa, quando se pronuncia com todo o seu poder papal, que nós dizemos pronunciamento “ex-cathedra”, o seu ensinamento é infalível”, comenta Padre Wanderson. 

Já no âmbito político, Padre Wanderson explica que é o pontífice quem faz “a organização da Igreja”, designando para onde deve ir cada bispo, escolhendo os responsáveis por cada Dicastério da Cúria Romana e nomeando novos cardeais. Além disso, o papa atua como chefe de governo e de Estado do Vaticano, representando oficialmente o país no exterior. 

O brasão papal de Leão XIV, além de trazer as chaves entregues a Pedro, referencia a Ordem dos Agostinianos [Imagem: Reprodução/Vaticano]

O sucessor de Leão XIII

Para Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, bispo diocesano de Jundiaí, o papa vem entrar em comunhão com Leão XIII ao escolher seu nome. Leão XIII, que liderou o catolicismo de 1878 a 1903, foi quem sedimentou os aspectos da Doutrina Social da Igreja, pronunciamento da Igreja Católica nas áreas de economia, política e sociedade. “Quando a Igreja se pronuncia nessas áreas, ela nunca fala a partir do lugar ideológico, mas a partir do lugar teológico”, afirma Dom Arnaldo. 

O bispo recorda que, ao escrever a Encíclica Rerum Novarum, no contexto pós–Revolução Industrial – tempo em que o mundo passou por mudanças significativas – Leão XIII estaria prezando por princípios como o bem comum, a defesa da dignidade da pessoa humana, a solidariedade e os direitos dos trabalhadores. 

Os desafios vivenciados por Leão XIII coincidem em alguns aspectos com os do atual pontífice. Segundo Padre Wanderson, se antes o Papa Leão XIII atuou para trazer esclarecimentos diante das divisões sociais causadas pelo capitalismo e pelo comunismo, agora existem outras divisões sociais que também precisam ser elucidadas, tanto dentro quanto fora do ambiente religioso.

Papa Leão XIII ficou popularmente conhecido como o “Papa do Rosário” [Imagem: Francesco De Federicis/Wikimedia Commons]

Uma continuação de Francisco

Dom Arnaldo entende que Papa Francisco, em meio a um fogo cruzado por parte dos progressistas e conservadores da Igreja Católica, deu o pontapé inicial para algumas reformas na igreja. Já na análise de Padre Wanderson, é Leão XIV quem deve consolidar caminhos abertos durante o papado de Francisco.

Para Padre Wanderson, o papado de Francisco serviu como uma abertura complicada para a sinodalidade da Igreja. Ao buscar algo novo, o Papa pode não ter agradado todos os fiéis, mas mostrou um caminho que poderia ser seguido em prol da união.

“Leão XIV não veio para abrir os caminhos porque o Papa Francisco já fez essa abertura. Agora, Leão XIV vem para deixar transitável tudo aquilo que foi aberto por Francisco.”

Padre Wanderson Cintra

Para o professor André Maritin, o papa irá agir para prolongar e aprofundar a perspectiva periférica de Francisco. “Ele [Papa Francisco] buscou um equilíbrio entre humanismo universalista, como em defesa da vida e meio ambiente e contra todas as guerras, e a defesa particularista da Igreja Católica Romana, tornando-a menos conservadora nos costumes.” 

Leão XIV possui formação em Direito Canônico, as leis da Igreja. Por isso, Padre Wanderson acredita que o pontífice irá atuar buscando cuidar dos seus fiéis: “o Papa vem em uma expectativa de ser um grande ponto de equilíbrio com a Igreja”.

Papa Francisco foi quem nomeou Prevost como prefeito do Dicastério para os Bispos, em 2023 [Imagem: Reprodução/Vaticano]

Principais desafios do papado

Padre Wanderson avalia que os obstáculos que o papa deve enfrentar podem ser observados dentro e fora da Igreja. “Parece-me que o desafio externo está na Igreja manter um papel de relevância nos ensinamentos e na direção do ser humano”, afirma o padre analisando o que chamou de a atual “tendência em se extirpar os aspectos religiosos da vida social”.

“O ser humano, com a ideia de ser laico, está se confundindo com ser ateu.” 

Padre Wanderson Cintra

Já dentro do catolicismo, Leão XIV precisará manter a união entre os fiéis. Padre Wanderson pondera que na Igreja Católica existem pensamentos que podem ser considerados mais avançados e outros mais tradicionalistas. “De um lado, os avanços demasiados sem considerar os aspectos históricos é um problema, porque pode nos levar a repetição de erros. E por outro lado, manter os aspectos antigos sem considerar os avanços históricos também é outro problema.” 

Logo em seu primeiro discurso, o papa já reforçou a importância da sinodalidade para a Igreja. “Queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha, uma Igreja que procura sempre a paz, que procura sempre a caridade, que procura sempre estar próxima, sobretudo dos que sofrem”, declarou Leão XIV. 

A sinodalidade é um modelo que considera fundamental a participação e a comunhão entre todos os membros para as decisões da Igreja. Foi amplamente promovida pelo Papa Francisco durante seu papado, e o Papa Leão XIV já demonstrou que é por esse rumo que deve seguir. Sobre a sinodalidade, o Santo Padre afirmou que “é o caminho que exige que cada um reconheça a sua dívida e o seu tesouro, sentindo-se parte de um todo, fora do qual tudo murcha, mesmo o mais original dos carismas”. 

[Imagem de capa: Edgar Beltrán/Wikimedia Commons]

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