“Ele fala moça. Eu falo presidenta.
Ele fala impeachment. Eu falo golpe.
Ele fala revolução. Eu falo ditadura militar.
Ele é craque no ping pong. Eu também.”
Desta relação conturbada entre Heloisa (a filha) e Álvaro (o pai) surge o documentário Construindo Pontes (2017), um dos mais sensíveis e profundos do cinema nacional.
Acima de tudo, é um filme sobre criar conexões.
Para Álvaro, a ditadura militar foi o auge de sua carreira como engenheiro, quando teve glória, prestígio e era reconhecido. E Heloisa, que aproveitou muito sua infância de menina rica, sempre se sentiu protegida mas, conforme amadurecia, conheceu na ditadura a repressão, o autoritarismo e a ausência.

O documentário trabalha com o inesperado. Isso se mostra ao longa da filmagem e fica evidente no final – Heloisa tenta gravar a última cena três vezes, até que a magia do inesperado acontece e o final perfeito surge, no qual todos são surpreendidos.
Em entrevista ao Cinéfilos, a cineasta explicou que a montagem do filme foi dividida em três partes: a primeira, quando ela viaja para Curitiba em 2016 e grava pela primeira vez na casa do pai; meses depois, começa a gravar apenas o cotidiano, Álvaro cortando grama, conversando, a família toda em um jantar; por fim, na terceira fase, ela viaja sozinha com ele, a fim de tentar um último encontro.
É muito interessante reparar o amadurecimento da cineasta nestes três períodos: no primeiro, pai e filha brigam e Heloisa desliga a câmera. No segundo, a câmera permanece ligada mesmo durante conflitos intensos. No terceiro, eles não mais brigam tanto. Quando filmava na casa dos pais, Heloísa não teve equipe, levou apenas duas câmeras e um gravador.

Heloisa diz que, por ter sido educada em uma escola privada, católica e de freira, tudo era muito proibido. “As coisas não eram ditas na escola, nem minha casa e nem sociedade. Essa história não foi contada direito no país, as pessoas não foram punidas.”
Então, ela encara este documentário como um processo de querer se expressar, como uma necessidade. “Eu passei a infância e a adolescência sem exercitar nenhum tipo de democracia. Este filme é fruto da tentativa de um diálogo, mas ele veio de um lugar onde não se aprendeu a dialogar. Eu só comecei a dialogar quando saí de Curitiba e descobri a câmera, descobri que articular palavras era muito difícil pra mim, descobri a câmera para me expressar.”

“A minha maior dificuldade do filme é quando vou para a ilha de edição com as duas montadoras e descubro que não consigo me articular bem com meu pai. Vejo o material bruto e penso ‘como não argumentei?’. Percebo que nesta relação entre pai e filha há uma dificuldade gigante, uma hierarquia de poder que eu absorvi. Eu travo e não consigo me articular. Eu não gosto de mim quando estou com meu pai”, disse Heloísa.
É possível conectar-se com as pessoas mesmo com essas diferenças?
A partir de filmagens caseiras e diálogos profundos, é essa a pergunta que Construindo Pontes tenta responder. Enquanto isso, cria um debate sobre sexualidade, classes sociais, política, pertencimento e luta.
É um documentário sincero que, quando acaba, aperta o coração de quem assiste.

Entre memórias do passado, incertezas do futuro, mapas de lugares que não existem mais e fotos de um tempo que já passou, Álvaro e Heloisa tentam se conectar apesar de tudo, e construir semelhanças quase tão grandes quanto suas diferenças.
Construindo Pontes estreia dia 19 de abril, confira o trailer:
por Mariangela Castro
mariangela.ctr@gmail.com